Edição 111

Matéria Âncora

10 mitos e verdades sobre o autismo

NeuroConecta

O autismo, ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), é caracterizado por um quadro complexo que impacta no desenvolvimento da pessoa, podendo interferir na forma como ela percebe o mundo ao redor e interage com os outros, ocasionando desafios sociais, comportamentais e de comunicação. Trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença. A incidência do TEA é muito elevada e vem crescendo constantemente nos últimos anos. Dados mostram que cerca de 1% da população mundial tem o transtorno.

O diagnóstico dos indivíduos com TEA ocorre geralmente por volta dos três anos de idade, que é quando os sintomas clínicos ficam mais evidentes. O interesse em entender melhor o autismo vem crescendo nos últimos anos, e muitos grupos vêm estudando o TEA em diferentes segmentos, visando compreender melhor seus diversos aspectos e buscar novas terapias para incluir esses indivíduos na sociedade e torná-los cada vez mais independentes.

Sumário

1. Pessoas com autismo não olham nos olhos!

2. Toda pessoa com autismo tem inteligência acima da média!

3. Somente meninos têm autismo!

4. Vacinas causam autismo?

5. Glúten e caseína causam autismo?

6. Autismo tem cura?

7. Todas as pessoas com autismo são capazes de se desenvolver!

8. Autismo é genético?

9. Terapias e tratamentos milagrosos!

10. Todas as informações que encontramos na Internet são verdadeiras!

Pessoas com autismo não olham nos olhos!

É recorrente receber declaração de pais que dizem: “O médico disse que ele não é autista porque ele olha nos olhos, e autista não olha nos olhos”. Isso é um erro! O “olhar nos olhos” não é uma das características para se dar diagnóstico. Já é fato que não olhar nos olhos é uma característica de muitas pessoas com autismo, mas não é fator determinante para o fechamento do diagnóstico. Culturalmente, muitas pessoas dizem que pessoas falsas ou mentirosas não olham nos olhos dos outros. Porém, pessoas tímidas também sentem desconforto e evitam o contato visual. Isso não quer dizer que a pessoa seja mentirosa ou autista. O médico deve se informar sobre quais são as características básicas para se diagnosticar e sempre contar com o apoio de outros profissionais para evitar um diagnóstico errado ou tardio. Diagnóstico não é rótulo!

A verdade por trás disso: Muitas pessoas com autismo sentem-se desconfortáveis em manter o contato visual. Algumas não fazem contato visual nem com pessoas mais próximas! O não “olhar nos olhos” não faz parte do critério para o diagnóstico. Isso é parte de um conjunto de características que pode mudar de um indivíduo para outro. Tanto autistas severos quanto autistas de alto funcionamento podem apresentar essa característica. Porém, é fato que NEM TODOS apresentam.

Somente meninos têm autismo!

Há meninas com autismo também. Esse mito de que há somente meninos com autismo ainda é ensinado em faculdades em graduações de Pedagogia, Educação Física ou outros cursos que visam preparar pessoas para o mundo acadêmico nos quais, geralmente, o professor tem que falar sobre múltiplas deficiências sem muito enfoque.

A verdade por trás disso: Há uma estimativa de 04 meninos para cada 01 menina nascida com autismo. Há mais meninos que meninas, mas não é um transtorno exclusivo do sexo masculino. Ainda não se sabe exatamente o porquê de haver mais meninos que meninas, mas existem estudos em andamento. Como exemplo de mulheres com autismo, podemos destacar Temple Grandin e Carly Fleischmann. Mas há muitas outras mulheres fazendo história, se superando (dentro de suas possibilidades), e muitas outras sendo diagnosticadas todos os dias.

Toda pessoa com autismo tem inteligência acima da média!

Nem todo autista tem inteligência acima da média. Aliás, uma pesquisa feita pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos revelou que 38% das pessoas com autismo têm deficiência intelectual. Não podemos dizer que toda pessoa com autismo tem deficiência intelectual, assim como nem todas são gênios. O que podemos afirmar é que a pessoa com autismo é um indivíduo único, com características próprias que só o iguala a outras pessoas com autismo em um ponto: o diagnóstico de autismo.

A verdade por trás disso: Por se tratar de um espectro, há pessoas com autismo com a inteligência acima da média, com inteligência na média e outras com deficiência intelectual. Algumas pessoas com síndrome de Savant têm, também, autismo. Até 2013, havia o termo síndrome de Asperger, que foi colocado juntamente com autismo para descrever pessoas com prejuízos na sociabilização e na comunicação. O Dr. Hans Asperger, ao estudar algumas crianças com comportamento peculiar, apelidou-as de little professors (pequenos professores) devido à capacidade intelectual que elas tinham para falar de algum assunto específico. Sabemos, hoje em dia, que não há mais uma divisão entre autismo clássico e síndrome de Asperger e que a inteligência não deve ser medida somente por testes de QI, mas por capacidades diferenciadas que algumas pessoas apresentam.

Vacinas causam autismo?

Este assunto ainda causa muitas discussões. Há muitos estudos científicos comprovando que vacina e autismo não têm relação, porém há muitos relatos de pais que garantem que há uma relação. Então será que vacinas causam autismo? Já sabemos que o autismo é genético e que há uma interação dos genes com o ambiente em que vivemos. Enquanto a discussão segue, podemos fazer a seguinte análise: caso vacinas causem autismo — o que não parece ser —, seria apenas um tipo de autismo ligado a um tipo de gene? E uma coisa é certa: vacinação não é a causadora de todo autismo do mundo. Há pessoas com autismo que nunca foram vacinadas. Não vacinar uma criança temendo que ela se torne autista é ter uma roleta russa apontada para essa criança, pois ela não estará imunizada contra outras doenças que podem matar, como o sarampo, por exemplo.

A verdade por trás disso: Estudos científicos comprovam que não há relação entre vacinas e casos de autismo.

Glúten e caseína causam autismo?

Glúten e caseína não causam autismo. O glúten é um elemento proibido para pessoas celíacas. Os celíacos são cerca de 1% da população mundial, assim como as pessoas com autismo. Porém, não são as mesmas pessoas. Nem todo autista é celíaco e nem todo celíaco é autista. O glúten e a caseína trazem muitos malefícios a qualquer pessoa que os consuma em excesso ou que tenha alguma intolerância. Uma boa alimentação é dever e direito de todos.

A verdade por trás disso: Existem pessoas celíacas, alérgicas ou intolerantes. Se a pessoa com autismo não se encaixa em nenhum desses casos, não há motivos para dietas rigorosas. Evitar alimentos ricos em gorduras trans, excesso de açúcar, muitas frituras, produtos industrializados, temperos prontos, refrigerantes e sucos de caixinha é sempre bom. Uma boa alimentação é essencial para o bom desenvolvimento de qualquer criança.

Autismo tem cura?

O autismo não é considerado doença; logo, não há cura. É visto, por muitos, como um jeito de ser. No entanto, o mais importante é entender que, por ter vários tipos de autismo, temos vários tipos de abordagem. O que pode funcionar para um certamente não servirá para todos.

A verdade por trás disso: Por ser genético e estar associado a multifatores externos, já se sabe que alguns tipos de autismo foram completamente revertidos. Outros apresentaram melhora de tal forma que a pessoa passou a levar uma vida completamente normal, mas com algumas poucas características. O que se acredita é que, em breve, o autismo será subdividido em diferentes síndromes conforme a evolução dos estudos e o conhecimento da individualidade genética.

Todas as pessoas com autismo são capazes de se desenvolver!

Todas as pessoas com autismo são capazes de se desenvolver! O problema é a expectativa versus a realidade! O desenvolvimento de cada um é individualizado. Deve haver a junção das habilidades e o respeito às dificuldades de cada um. Há pessoas com autismo que não falam uma palavra, mas que são independentes dentro de casa. Outros apresentam outras comorbidades, mas conseguem trabalho. Outros casam-se e têm filhos. Tem os que entram na faculdade e se tornam doutores aos 14 anos! E os que nunca foram a uma escola. O importante é entendermos que cada um pode se desenvolver dentro de suas capacidades. Desistir jamais!

O mito por trás disso: O que se torna mito, neste caso, é o fato de muitas pessoas com autismo no mundo apresentarem um desenvolvimento tão bom que podem levar uma vida normal ou muito perto do que é considerado normal. Porém, estamos falando de um espectro, ou seja, diversas variáveis, graus, genes, fatores externos, etc. nos mais diferentes cenários. Nunca podemos comparar uma criança com outra e dizer: “Já que este conseguiu, o meu será igual!”.

Autismo é genético?

Sim, autismo é genético! Já foram descritos centenas de genes conhecidos ligados ao autismo, e com certeza ainda serão descritos muitos outros nos próximos anos com a evolução no conhecimento da genética humana. Não temos todas as respostas, mas já temos alguns caminhos. O principal é nunca desistir de lutar!

O mito por trás disso: É mito acreditar que apenas um gene é responsável pelo autismo de todas as pessoas com TEA. Outro mito é achar que já que não tem outras pessoas com TEA na família, então não é genético. Nem toda alteração genética é hereditária, ou seja, passada de pai para filho.

Já existem tratamentos milagrosos!

Nunca existiram e nunca existirão tratamentos milagrosos. Muitas crianças com autismo já morreram por causa de pais desesperados por uma cura que nunca veio. Ainda não há nada que se possa tomar e, como num passe de mágica, curar a pessoa com autismo.

A verdade por trás disso: Existem diversos tratamentos não invasivos, que trabalham o comportamental, social, sensorial, etc., para que a pessoa possa ser inserida na sociedade. Além disso, há tratamentos para as comorbidades, tais como epilepsia, distúrbio do sono e TDAH.

Todas as informações que encontramos na Internet são verdadeiras!

Nem todas as informações que estão na Internet são confiáveis. Quando entrar em um grupo em que uma pessoa diz que curou seu filho e, se ela curou, todo mundo pode, FUJA! Não existe somente um tipo de autismo, tampouco um único tratamento para todos.

A verdade por trás disso: Existem diversas fontes de pesquisas científicas confiáveis na Internet e que trazem informações relevantes. Diversos estudos mostram testes e a eficácia em termos de porcentagem. Há uma plataforma que mostra todos os genes já encontrados envolvidos com o autismo e todos os estudos em relação a cada gene. Dá trabalho e exige muito de nós, pais, professores e profissionais de saúde, mas quem disse que a vida é fácil? ;-)

Fontes de referência para pesquisa

https://www.carautismroadmap.org/intellectual-disability-and-asd/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/

https://sfari.org

https://www.autismspeaks.org

cubos