Edição 109

Construindo mais conhecimento

A aplicabilidade da Teoria das Restrições na administração de uma escola de Educação Básica enquanto empresa

Vivianne Oliveira de Deus

Introdução

 

As inquietações que motivaram o presente trabalho partem da preocupação em orientar coordenadores e gestores escolares nas tomadas de decisões, sejam elas pedagógicas ou financeiras, mostrando como a Teoria das Restrições pode contribuir na administração escolar de uma empresa de Educação Básica.

Para muitos, administrar uma escola restringe-se a direcionar docentes apontando caminhos pedagógicos a serem seguidos. Mas e a área econômico-financeira, como será dirigida? Em uma empresa, famílias dependem direta ou indiretamente da receita circulante dentro da entidade. Se a mesma não é administrada de forma que ao menos mantenha sua economia constante, sem dúvida causará danos ao corpo docente, que necessita da renda, muitas vezes, para a sobrevivência, e aos órgãos públicos, pois impostos são recolhidos em diferentes autarquias. Portanto, é relevante evidenciar como, por que e para que um gestor escolar deve entender não só da área pedagógica da escola, mas também da área financeira, já que, em um círculo econômico, uma entidade que agregue tantas rendas deve ter a consciência de sua responsabilidade com a economia regional e, no caso de uma escola, consciência também com o sociocultural, pois é nesse ambiente que os primeiros atos de cidadania serão incentivados e vivenciados pelas crianças.

O gestor escolar não é apenas um profissional que só entende do setor pedagógico. O entendimento da área financeira lhe dará suporte no momento de elaborar e executar uma proposta diferente, pois ele terá informações sobre a necessidade dos educandos e educadores e também estará pronto para perceber e resolver restrições com mais possibilidades de acertos na tomada de decisão no que se refere ao orçamento escolar.

Portanto, torna-se relevante o estudo para que se perceba a importância de traçar metas no momento da elaboração do planejamento não só escolar, mas econômico-financeiro, pois este dará suporte ao administrador, no decorrer dos acontecimentos, para que compreenda oportunidades e restrições, podendo associar o que a empresa almeja com as expectativas apresentadas pelos clientes. Logo, pode aumentar a qualidade no processo operacional da escola, como também a quantidade de receita esperada.

Para tanto, elegemos como objetivos deste trabalho identificar as restrições do processo de gestão e analisar as ameaças e oportunidades inerentes ao modelo de gestão da empresa. Assim, desenvolvemos este trabalho com base no método indutivo, que, segundo Souza (2007), é um tipo de análise que tem seu ponto de partida na observação dos fatos e fenômenos ocorridos, o que, na realidade, compreende um conjunto de procedimentos, uns empíricos, outros lógicos e outros indutivos.

Portanto, diante da contribuição dos autores, o problema foi analisado com o intuito de que se encontrem explicações sobre os procedimentos comuns no cotidiano de uma escola enquanto empresa, onde limitações poderão ocorrer em determinadas ocasiões, provocando uma atenção em caráter maior com relação à tomada de decisão.

Sobre os objetivos, foram realizados em forma exploratória e descritiva. Segundo Oliveira (2004), esse tipo de estudo apoia-se sobretudo em descobertas de práticas ou diretrizes que necessitem de modificações e apresentem alternativas que possam ser substituídas. O autor defende ainda que o modo descritivo apresentará a finalidade de observar, registrar e analisar fatos sem que o pesquisador interfira nas descobertas.

Dessa forma, dividimos o presente artigo em duas seções. Na primeira, serão trabalhados os paradigmas de uma gestão escolar relatando alguns dos seus fundamentos. Na segunda, a descrição da Teoria das Restrições, apresentando a sua contribuição na administração escolar enquanto empresa para uma análise das ameaças e oportunidades, auxiliando nas tomadas de decisões.

Gestão Escolar: da necessidade de articulação da visão pedagógica e administrativa

Segundo o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE – 2008), o objetivo da política nacional deve se harmonizar com os objetivos fundamentais da própria República, fixados pela Constituição Federal de 1988, ou seja, construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalidade; e reduzir a desigualdade social.

A concepção de educação que inspira o PDE (2008) no âmbito do Ministério da Educação e que perpassa a execução de todos os seus programas reconhece na educação uma face do processo dialético que se estabelece entre socialização e individuação da pessoa, que tem como objetivo a construção da autonomia, isto é, a formação de indivíduos capazes de assumir uma postura crítica e criativa frente ao mundo.

53Percebe-se que a proposta do programa mencionado não considera as restrições que estimulam a formação dos jovens críticos, pois, mesmo em um ambiente que tenha objetivos voltados para uma sociedade mais justa, é possível que existam limitações que poderão atrapalhar o desempenho desse trabalho. Dessa forma, restrições não só direcionadas ao desenvolvimento pedagógico, como também a fatores que atinjam a área administrativa da escola enquanto entidade de ensino e empresa como um todo.

Logo, existe a necessidade de um diretor pedagógico conhecer também os acontecimentos que uma entidade de ensino poderá apresentar enquanto empresa com fins lucrativos (como também uma sem esses fins, que esteja sob a responsabilidade do estado ou município), pois caberá ao mesmo as decisões que surgirão em questões que poderão representar ou não uma restrição ao ambiente em que trabalha.

Segundo Russo (2004), gerir uma escola é tarefa equivalente à gerência de uma empresa qualquer, defendendo ainda que a administração é uma técnica constituída de um conjunto de princípios e métodos, e sua aplicação consiste em assegurar melhores resultados ou a superação dos problemas existentes.

Portanto, o conhecimento sobre os preceitos da administração de um modo geral se faz necessário para a quebra de um dos paradigmas da gestão escolar, pois o gestor dessa instituição também se torna responsável pelas tomadas de decisões da mesma enquanto empresa. De acordo com Garrison (2011, p. 04), são três os tipos básicos de atividade para administrar qualquer que seja a organização:

Planejamento, direção e motivação e controle. O planejamento envolve a escolha de uma linha de ação e a especificação de como a ação será executada. A atividade de direção e motivação envolve a mobilização de pessoas na execução de planos e gestão de operações de rotina. O controle subentende assegurar que o plano seja de fato executado e seja adaptado adequadamente na medida de alterações das circunstâncias. A informação proporcionada pela contabilidade gerencial desempenha um papel fundamental nessas três atividades administrativas básicas — mas mais particularmente nas funções de planejamento e controle.

Logo, a partir do planejamento, da direção e motivação e do controle, consegue-se uma orientação para as tomadas de decisões necessárias diante dos fatos, podendo, ainda, haver vários planos a serem seguidos conforme a realidade apresentada com o intuito de alcançar-se o objetivo estimado. De acordo com Ludícibus (2010), o processo decisório é:

O conjunto de ações que faz com que se consiga a obtenção dos objetivos desejados, definidos pelo planejamento. O processo decisório ocorre pelas tomadas de decisões já planejadas e pelas tomadas de decisões corretivas quando o controle evidencia que o caminho seguido não era o planejado.

Diante do processo descrito, nota-se a relevância do conhecimento tanto administrativo quando pedagógico do gestor escolar, pois o processo de tomada de decisão pode interligar todos os setores existentes na escola enquanto empresa, desenvolvendo, assim, restrições que podem afetar o bom funcionamento da instituição, e o responsável pela mesma necessita saber dar os comandos corretos para a resolução da questão.

Teoria das Restrições: contribuições à gestão de empresas, inclusive escolares

Na presente seção, o objetivo é mostrar que a escola, além de um espaço para a construção de saberes, é também uma empresa que necessita ser gerida com eficácia para o seu desenvolvimento econômico; logo, oportunidades e ameaças devem ser levadas em consideração nas tomadas de decisões, já que se trata de um espaço destinado a todo cidadão, tendo este o direito ao recebimento de serviços de boa qualidade.

Escolas, tanto públicas quanto privadas, necessitam de alguém que as comande, ou seja, administre dando direcionamento não só à parte pedagógica como também à entidade enquanto empresa com ou sem fins lucrativos, pois, se instituições como essas não forem bem administradas, poderão ocorrer diversos danos não só ao responsável financeiro do empreendimento, mas a toda uma sociedade.

Diante dos fatos, sabe-se que diariamente surgem desafios a serem superados, porém a organização e o planejamento para o alcance das metas podem fazer a diferença, auxiliando o gestor no processo de tomada de decisões.

De acordo com Catelli (2001), na segunda metade dos anos 1980, nos Estados Unidos da América, Goldratt desenvolveu a Teoria das Restrições. Essa teoria pode ser entendida como uma ampliação do pensamento da tecnologia da produção otimizada, pois utiliza-se em grande parte de sua teoria. A ênfase fundamental das ideias do autor é o alcance do que ele denomina meta da organização, ou seja, ganhar mais dinheiro por meio de uma adequada gestão.

Cox III e Schleier (apud OLIVEIRA, VARGAS E MAUER, 2013) dizem que a Teoria das Restrições é um processo que conduz à melhoria contínua, que pode ser introduzida em diversos ramos, do produtivo a projetos de marketing e serviços, inclusive na educação.

Ao dirigir uma empresa, limitações podem ocorrer no processo da administração dos fatos, conturbando, assim, o processo de tomada de decisão dos responsáveis pelos setores. Segundo Garrison e Noreen (2001), uma restrição é qualquer coisa que impeça a obtenção daquilo que se deseja. Essa teoria sustenta que a chave do sucesso é o gerenciamento eficaz dos fatores que limitam as pessoas e organizações, que, diante dos estudos, podem se deparar com pelo menos uma ressalva, como o elevado índice de inadimplência em um dado período, impedindo, assim, a quitação das despesas estimadas.

Com base nos autores, nota-se que um administrador deve estar sempre preparado para perceber as oportunidades e as restrições que poderão surgir já no momento do planejamento organizacional, pois é a partir desse ponto que o funcionamento da entidade vai começar suas atividades.

De acordo com Castro, Amaral, Rodrigues e Cogan (2012), a partir da premissa da Teoria das Restrições de que a empresa opera sempre com algum tipo de restrição, Cox III e Spencer (2002, p. 319) propõem um processo geral de tomada de decisão empresarial constituído de cinco passos:

1. Identificar a(s) restrição(ões) do sistema.
2. Decidir como explorar a(s) restrição(ões) do sistema.
3. Subordinar tudo o mais à decisão anterior.
4. Elevar a(s) restrição(ões) do sistema.
5. Ter Cuidado, pois, se em um passo anterior uma restrição tiver sido quebrada, volte ao passo 1, mas não deixe que a inércia cause uma restrição no sistema.

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Portanto, deve-se identificar a restrição do sistema e elaborar um planejamento de superação dessa limitação, levando-se em consideração fatores anteriormente identificados e/ou vivenciados para então explorar de modo seguro a restrição observada, tendo ainda o cuidado de analisar se todos os passos ora iniciados estão indo de acordo com o esperado; caso contrário, faz-se necessário um novo estudo para reajustar as etapas.

Segundo Cox III e Spencer (2002), cada um dos passos citados anteriormente apresentam uma característica que deverá ser analisada pelo setor gerencial da empresa. Na primeira, o autor defende que o gerente deve estudar o fluxo do processo que limita o ganho da empresa. Após feito isso, no segundo passo, a gerência deverá tomar decisões para modificar ou reprojetar as tarefas restritivas de maneira que o trabalho possa fluir com mais eficiência e eficácia. Já no terceiro ponto, evidencia-se a necessidade de dirigir todos os esforços para melhorar o desempenho do recurso, ou seja, a restrição ou qualquer outro recurso que afete diretamente a limitação. Na quarta questão, a capacidade adicional é adquirida para aumentar o ganho global da ressalva. Na última etapa, o processo de melhoria contínua é implementada, porém outras restrições poderão surgir diante da correção do fator original; logo, caberá ao gerente não deixar que a inércia limite novamente os ganhos da empresa.

Já de acordo com Garrison e Noreen (2001), para que se aumente a resistência de uma entidade, o primeiro passo é identificar o elo mais fraco, que será a restrição; o segundo é não aplicar esforços maiores do que o que o elo mais fraco possa aguentar; o terceiro seria a tentativa de melhorar o ponto fraco descoberto; e o quarto seria a análise do terceiro ponto, pois, se o mesmo desse resultado, o elo fraco teria uma evolução, passando a não ser mais uma restrição.

Logo, diante da contribuição dos autores, o gerenciamento da empresa deve conhecer bem o seu funcionamento, pois as análises para a descoberta de restrições e os estudos para a resolução da mesma irão partir do conhecimento administrativo; para que se tenha uma melhoria contínua, essa estratégia é uma poderosa arma.

A partir da meta estabelecida pela empresa, a Teoria das Restrições define parâmetros que auxiliarão a medição do grau de alcance da mesma. Assim, segundo Guerreiro (2006), são estabelecidos dois medidores propriamente ditos e uma situação necessária:

Lucro líquido.
• Retorno sobre o investimento.
• Fluxo de caixa.

O primeiro é medidor absoluto. O lucro líquido mede o quanto de dinheiro, em termos incondicionais, a empresa está ganhando. O segundo é medidor relativo. O retorno sobre o investimento dimensiona o empenho necessário para o alcance de determinado nível de lucro. O terceiro indicador, o fluxo de caixa, é considerado pelo autor muito mais como uma circunstância necessária para a sobrevivência do empreendimento do que propriamente um medidor do alcance da meta.

Portanto, baseado no autor, o lucro líquido, o retorno sobre o investimento e o fluxo de caixa são fatores fundamentais para se iniciar um estudo sobre as restrições apresentadas por uma empresa; logo, têm que ser o ponto de partida da área gerencial da instituição para a identificação das fragilidades que podem existir no desenvolvimento para o alcance das metas planejadas.

Cogan (2012) defende que a contabilidade de custo preocupa-se muito em calcular o mesmo para então tomar decisões com mais segurança, porém, para o autor, os problemas não estão nos cálculos distorcidos dos custos para a tomada de decisão, pois, perante a Teoria das Restrições, que traz a proposta de mudança do pensamento gerencial, o mundo dos custos deveria passar a ser o mundo dos ganhos, pois cada vez mais o preço dos produtos ou serviços está sendo definido de acordo com o mercado, então dever-se-ia compreender melhor onde está o maior ganho.52

Logo, a teoria em questão traz em sua proposta a maximização dos lucros. Para que se alcance a meta, a empresa precisa analisar onde está a sua maior lucratividade e onde se encontra o elo mais fraco para então traçar uma estratégia que explore corretamente as características apresentadas por cada setor.

Porém, segundo Lacerda e Rodrigues (2009), tanto o mundo dos custos quanto o mundo dos ganhos possuem uma meta em comum, que seria melhorar os resultados da organização, onde cada modelo exprime uma estratégia própria. Para o mundo dos custos, essa melhoria se dá com a redução dos custos, uma vez que estes estão sob o comando do controle interno da organização e o aumento das receitas depende do mercado. Já o mundo dos ganhos, o aumento da receita é o ponto estratégico, pois argumenta-se que esse fator é ilimitado.

Considerações Finais

Esta pesquisa teve como objetivo evidenciar como a Teoria das Restrições pode contribuir na administração escolar de uma empresa de Educação Básica.

É encontrado também, no referencial teórico, um estudo baseado em vários autores sobre a teoria, explicando como a mesma funciona e o objetivo que apresenta, ou seja, identificar, analisar e solucionar as limitações de uma empresa.

Diante do estudo, conclui-se que a Teoria das Restrições pode trazer muitos benefícios às empresas, pois, através da tese desenvolvida por Goldratt, a gerência da empresa pode perceber algumas mudanças que deveriam ocorrer de imediato.

Estudos posteriores sobre o tema desenvolvido neste trabalho seriam de extrema importância, uma vez que as crianças de hoje serão os cidadãos do futuro; logo, nosso país passará a ser administrado por eles. No entanto, se bem preparados, com escolas qualificadas e bem estruturadas, poderão fazer a diferença diante de uma sociedade com tantas desigualdades e preconceitos; portanto, para que mais empresas voltadas para a atividade operacional da prestação de serviços educacionais se estabeleçam, é necessário não só profissionais qualificados na área pedagógica, mas também no setor administrativo.

Vivianne Oliveira de Deus concluiu o Ensino Médio com especialidade no magistério. Fez graduação em Ciências Contábeis (Unifavip-Devry), pós-graduação lato sensu em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica e pós-graduação lato sensu em Psicomotricidade. É gestora pedagógica (Colégio Revelação). E-mail: vivianne.oliveiradeus@hotmail.com

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