Edição 101

Matérias Especiais

A arte de adiar o inadiável

Rosangela Nieto de Albuquerque

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O que é procrastinação?

A procrastinação, apesar de pensarmos que é algo contemporâneo, não é um mal do nosso século, pois, em 750 a.C, o poeta grego Hesíodo já mencionava em seus poemas: “Nada deixes para amanhã ou depois de amanhã, pois o homem negligente no trabalho não enche o celeiro, nem aquele que o adia […]”.

Nas reflexões sobre a procrastinação, observa-se que, num personagem de Dostoiévski, em Notas do Subterrâneo (1864), um homem passa a escrever enfiado num buraco, “Entre a inveja e o desdém dos homens de ação”, para ele “O fruto mais legítimo da consciência é a inércia”.

Certamente, no século XXI, com as configurações temporais, por exemplo, a utilização da Internet, verifica-se um novo modelo em que alguns sites influenciam a importância do bem que se faz em não fazer nada, em que não podemos confundir inércia com procrastinação.

Os estudiosos e pesquisadores em psicologia, nos últimos 20 anos, têm se dedicado a compreender mais a respeito do ato de procrastinar e como se dão as reações em nosso cérebro. Procrastinação tem a origem latina: de pro,  “à frente”, e crastinus, “amanhã”, algo como, “para fazer amanhã”. No sentido mais simples, pode ser definida como “deixar para amanhã o que se pode fazer hoje”.

Joseph Ferrari, pesquisador e professor da Université de Paul et des Pays de l’Ádour, define dois tipos de procrastinador, o casual e o procrastinador crônico. Os casuais são significativos, também podem se comprometer e ter prejuízos; no entanto, os procrastinadores crônicos são aqueles que vivem adiando tarefas, que geram sofrimento, prejuízos em várias áreas e até problemas de saúde.

imagem_7Para Ferrari, “Dizer para um procrastinador crônico apenas: ‘Faça a tarefa’ seria como dizer para uma pessoa clinicamente deprimida: ’Anime-se’”.

“Dizer para um procrastinador crônico apenas: ‘Faça a tarefa’ seria como dizer para uma pessoa clinicamente deprimida: ‘Anime-se’”.
Ferrari

Em seus estudos, o psicólogo Daniel Gustavson, da Universidade de Colorado Boulder, enfatiza que a procrastinação pode ser genética, isto é, algumas pessoas podem nascer procrastinadoras. O pesquisador ainda identificou que a procrastinação está ligada à impulsividade, no sentido de buscar uma recompensa imediata em vez de uma recompensa melhor no futuro. Certamente, no mundo contemporâneo, a impulsividade se torna cada vez mais frequente, o que pode gerar a procrastinação.

Bem, se a impulsividade pode estar ligada diretamente às emoções, regular nossas emoções pode ser um caminho de controlar a procrastinação. Para Timothy Pychyl, “Regulação emocional é a história real em torno de procrastinação, pois, na medida em que eu posso lidar com minhas emoções, eu posso permanecer na tarefa”.

Pré-crastinadores e má-procrastinação

Fala-se muito sobre a procrastinação, mas temos também a pré-crastinação e a má-procrastinação, que certamente causam muito sofrimento ao indivíduo.

O sujeito que apresenta a pré-crastinação tem comportamento semelhante ao do sujeito que apresenta a má-procrastinação no que diz respeito aos desejos; isto é, ambos gostariam de não conviver com essas características, assim; o nível de sofrimento psíquico se eleva, chegando a se instalar alguma psicopatologia. O sujeito que pré-crastina é o ansioso e quer resolver tudo antes dos prazos, o que pode causar um Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG). O sujeito com a má-procrastinação também se incomoda e sofre, pois ele apresenta uma desorganização geral e não consegue definir qual tarefa irá procrastinar.

O jornal americano The New York Times sobre a Procrastination Research Conference (décima edição em 2017) registrou a pesquisa com resultados: 26% das pessoas adiam compromissos pessoais; 13% adiam tarefas profissionais; 61% postergam em ambas as esferas. Observa-se também que o fracasso na realização de tarefas costuma causar muito sofrimento, como angústia, ansiedade, arrependimento e autoestima baixa, gerando também prejuízos aos estudos, à carreira e aos relacionamentos.

O tema tem sido estudado em vários países e continentes. Uma pesquisa detectou que 20% da população de vários países (Israel, Áustria, Austrália, Canadá, Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Coreia, Peru, Polônia, Arábia Saudita, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Venezuela) é formada por procrastinadores crônicos.

O fracasso na realização de tarefas costuma causar muito sofrimento, como angústia, ansiedade, arrependimento e autoestima baixa, gerando também prejuízos aos estudos, à carreira e aos relacionamentos.

Por que procrastinamos?

Os estudos demonstram que a procrastinação é a lacuna entre a intenção e a ação, ou seja, há um desejo de fazer algo que é vencido pelo desejo de fazer outra coisa. Portanto, não é um ato de preguiça, pois ela não gera um desejo de fazer outra coisa, a preguiça gera o ato de não fazer nada.

O Dr. Piers Steel, professor na Haskayne School of Business, realizou estudos sobre a procrastinação, e alguns dos principais motivos da procrastinação está ligado ao perfeccionismo; neste caso, o sujeito, ao ser perfeccionista, procrastina menos. A pesquisa demonstrou como a procrastinação age psicologicamente, gerando angústia e sofrimento psíquico que podem dar origem a alguma psicopatologia.

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As pessoas que procrastinam tendem a passar um tempo, muitas vezes desnecessário, imaginando a angústia e agonia que sentirá ao praticar as suas atividades. Certamente, pensar no gasto de energia para a execução da atividade leva a um sofrimento psíquico, causando atrasos e adiamentos. Isso ocorre quando o sujeito apresenta baixos níveis de tolerância que sejam difíceis para a execução e realização de atividades, estas que possam gerar desconforto e insegurança (CONCEIÇÃO, 2011).

As principais causas da procrastinação é a aversão à tarefa que se precisa realizar, e os sintomas são: impulsividade, distração e a falta de motivação em relação ao que se tem que realizar.

Distração

É constante no mundo contemporâneo; neste, há um novo paradigma onde o foco da atenção está reduzido, culminando num nível de distração elevado.

Aversão à tarefa

Porque é algo que não gostamos ou que não proporcionará uma recompensa imediata.

Impulsividade

Quando não se aguenta esperar, se quer terminar logo e não se suporta as etapas da atividade. A impulsividade se tornou ainda mais frequente no mundo moderno. Talvez seja um dos principais motivos da procrastinação.

Motivação

É fundamental para tudo o que fazemos. Às vezes, mesmo para as coisas que gostamos, estamos sem motivação, o que pode conduzir à proscratinação.

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E o professor, procrastina?

Observa-se que 20% da população tem a característica de procrastinar, e isso não é totalmente ruim, pois a interpretação positiva sobre o assunto revela que os mestres da ociosidade podem elevar a sua criatividade. Já os estudos da psicologia enfatizam que não há vantagem na procrastinação, pois a pressão de última hora pode causar sofrimento psíquico.

A rotina do professor é extenuante, e, muitas vezes, ele não dá conta do excesso de compromissos e de atividades pedagógicas e as exigências laborais que requerem esquemas cognitivos atuantes, leituras, controle emocional, investimento em formação continuada; assim, observa-se que o professor tende a procrastinar as suas tarefas. As pesquisas enfatizam que cerca de 26% dos docentes procrastinam suas atividades.

Os efeitos da procrastinação podem ser desastrosos, causam problemas na autoestima, muitas vezes chegam a sonhos não realizados, desordem financeira, casamentos desfeitos e perda de emprego.

É um tema bastante estudado na atualidade, quando se busca orientar como vencer a procrastinação. O importante é saber lidar com ela e investir na mudança de comportamento.

Não à procrastinação

Crie uma rotina – reserve espaço para a realização das atividades importantes que exijam foco, concentração e prazos.
Escolha as ferramentas mais apropriadas para a produção – a ferramenta será fundamental na eficiência e eficácia da atividade e poderá também diminuir o tempo de realização.
Invista em autoconhecimento – verifique seus limites, suas possibilidades e habilidades.
Vá por partes – inicie pelas atividades de que mais gosta, que promovam motivação e proporcionarão vontade de concluir o todo.

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Considerações Finais

Todos nós, em algum momento da vida, já deixamos alguma tarefa para o dia seguinte. É uma atitude natural, é um traço humano que pode estar relacionado a diferentes motivos, mas, quando o “deixar para depois” se torna frequente e quase que praticado diariamente, o problema pode ser complexo. Sabemos que as causas da procrastinação também podem ser de outras origens: emocionais, psicológicas e até psicopatológicas. Mas os estudos também trazem o aspecto positivo da procrastinação, como ter mais tempo para se tomar uma decisão, se colocar uma escala de urgente primeiro e até oportunizar a criatividade.

Adiar, por quê? Deo gratias, está cientificamente provado: quem procrastina é mais criativo!

Rosângela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação, pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia, Mestre em Ciências da Linguagem, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, consultora ad hoc do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep, professora Universitária dos cursos de Graduação e Pós-Graduação, coordenadora do comitê de Ética em Pesquisa (CEP-Fafire), coordenadora de cursos de pós-graduação, analista em Gestão Educacional do Governo do Estado de Pernambuco, autora e organizadora de dez livros.

E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

Referências

CONCEIÇÃO, J. P. O. Personalidade e Procrastinação em Estudantes Universitários. Lisboa: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Faculdade de Psicologia, 2011.

DUTRA, E. M. do S. Rogers and Heidegger: Is a Gathering for a New View of the Self Possible?. Estud. psicol. (Campinas), Campinas, v. 33, n. 3, p. 413-423, Set. 2016.

FEIST, J.; FEIST, G. J.; ROBERTS, T. Teorias da Personalidade. 8. ed. Porto Alegre: Mcgraw-hill, 2015. 464 p.

GOMES, M. A; GOLINO, H. F. Relações Hierárquicas entre os Traços Amplos do Big Five. Psicologia: Reflexão e Crítica. V. 25, n. 3, p. 445-456, Belo horizonte, 2012.

GOUVEIA, V. V et.al. Escala de Procrastinação Ativa: Evidências de Validade Fatorial e Consistência Interna. Psico-USF. Bragança Paulista, v. 19, n. 2, p. 345-354, maio/agosto 2014.

HALL, C. S.; LINDZEY, G.; CAMPBELL, J. B. Teorias da Personalidade. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

LIMA, Andréa Pereira de. O Modelo Estrutural de Freud e o Cérebro: uma Proposta de Integração entre a Psicanálise e a Neurofisiologia. Rev. psiquiatr. clín., São Paulo , v. 37, n. 6, p. 280-287, 2010.

SILVA, I. B; NAKANO, T. C. Modelo dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade: Análise de Pesquisa. Avaliação Psicológica. V. 10, n. 1, p. 51-62. Campinas, 2011.

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