Edição 46

Em discussão

A atuação do treinador esportivo dentro da escola

Iberê Caldas

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O treinador no momento da sua atuação.

Pensar a atuação do professor dentro da escola hoje em dia é pensar em contemporaneidade, é pensar de forma globalizada, é pensar no significado desta palavra… treinador. O que representa essa profissão ou esse personagem para as pessoas que cercam esse indivíduo dentro da instituição que trabalha com ensino, aprendizagem e cultura articulada à realidade social em que vivem os cidadãos?

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Colégio Presbiteriano Agnes Erskine – PE.

Hoje, a profissão de treinador transcende os muros da entidade escola, pois ela abrange várias classes sociais do País e sob várias manifestações do fenômeno esporte. Mas, no contexto da nossa discussão, vamos voltar nossa atenção para o profissional (treinador) que atua na escola.

Vamos discutir os valores de uma profissão tão importante, mas que, ao mesmo tempo, passa despercebida por uma grande parte das pessoas de nossa sociedade. Profissão esta que desenvolve aptidões, atitudes, mudança de comportamento, ética e moral. Valores estes que, tenho certeza, só ajudam as pessoas a melhorar, criando uma sociedade mais justa e civilizada.

Desenvolvimento

Diante dos pensamentos escritos anteriormente, vamos, neste momento, começar a falar a respeito de qual ferramenta esse profissional utiliza para desenvolver sua profissão dentro da escola, o esporte. Fenômeno que acontece sob vários prismas da sociedade contemporânea, podendo se apresentar como atividade física recreativa ou de tempo livre, o esporte como conteúdo da aula de Educação Física e o esporte que acontece como modalidade de treinamento dentro da escola. É sobre este último que aprofundaremos a discussão a respeito do treinador e seu trabalho. Modalidades esportivas conhecidas por nós, como atletismo, basquetebol, futebol, futsal, ginástica artística, handebol, natação e voleibol, entre outros, geralmente fazem parte do projeto esportivo de uma escola, seja ela pública ou privada.

O esporte, para Bento (1999), “passa pelo entendimento de alguns valores fundamentais, como a educação, formação, liberdade, igualdade e qualidade de vida. O esporte se apresenta como fenômeno antropológico que promove e disponibiliza formas muito distintas, mas todas especificamente socioculturais e historicamente datadas para lidar com a corporalidade”.

O esporte escolar, no qual o treinador desenvolve o seu trabalho, é uma das ramificações ou manifestações do fenômeno esporte, e este acontece dentro de instituições cercadas por muros e valores que desencadeiam atitudes e ações intrínsecas aos seres humanos. Trata-se de uma atividade de formação, competição, lazer e prazer, que fomenta os aspectos técnicos, táticos, fisiológicos, sociológicos, psicológicos e pedagógicos.

O handebol se desenvolve além das atividades curriculares, em regime de escolha e participação, por parte do aluno/ atleta que, assim, para além de decidir se deseja ou não praticar esporte, pode, em caso afirmativo, escolher a modalidade desportiva. Sendo o esporte uma atividade que complementa o currículo dos alunos em função das suas necessidades, dos seus interesses, num regime de participação e escolha, isto é, de vocações, este tem de ser uma ação voluntária.

O esporte escolar não deve estar somente integrado ao sistema esportivo, mas também fazer parte do sistema educativo esportivo. Isso quer dizer que o esporte escolar é um subsistema autônomo do sistema esportivo e um instrumento de intervenção pedagógica do sistema educativo (LIMA, 1992).

O esporte escolar surge pelas normas que primam pela ação normativa sobre valores e atitudes que desenvolvem as habilidades e, principalmente, a ética humana.

Para De Rose (2002), o esporte que praticamos hoje é fruto das transformações ocorridas na Europa devido à Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, perdendo o sentido aristocrático com que era praticado na Inglaterra para chegar às classes mais humildes e trabalhadoras. O maior tempo, induzido por essa revolução, fez com que aumentasse a prática de atividades físicas e proliferassem as atividades esportivas.

Hoje, praticantes do esporte são crianças, jovens, adultos e idosos; homens e mulheres na sua pluralidade e diversidade dos seus estados de desenvolvimento, de comportamento e rendimento, de condição, cognição, motivação e emoção; são, por isso, saudáveis e doentes, normais ou deficientes, cultos e incultos, negros e brancos, formados e analfabetos, ricos, pobres e remediados, solteiros, casados e divorciados. E o treinador, onde entra nisso tudo?

Ele entra quando nós afirmamos que se faz necessária a figura do profissional de Educação Física, formado ou buscando sua graduação, para trabalhar junto às crianças e aos adolescentes dentro da escola, e o esporte, sempre que corretamente orientado no plano social e pedagógico, será meio de educação e formação para os cidadãos, com imprescindíveis contributos no âmbito da promoção da saúde e do rendimento profissional das populações, da formação multilateral da juventude, da melhoria da qualidade de vida e como fator de desenvolvimento sociocultural e turístico da comunidade (FERREIRA, 1999).

Todos nós sabemos que a competição, a proeza e a performance são ingredientes que fazem do esporte um espetáculo em que é extremamente fácil ter uma participação por identificação com as pessoas. Contudo, ainda não podemos afirmar que o nosso país vive numa sociedade esportiva, mas podemos dizer que a nossa sociedade está sendo “esportivizada”, pois o que nós temos visto é o crescimento de praticantes do esporte dentro da escola e que, com certeza, serão grandes cidadãos, competentes e ativos do nosso país.

Esse esporte, enquanto modalidade de treinamento, deve funcionar sob a supervisão de professores de Educação Física (treinadores) e daqueles que dizem que, sendo o esporte escolar um ato educativo, poderão ser desenvolvidos os aspectos técnicos e táticos das modalidades que estarão sendo vivenciadas. O treinador, no desenvolvimento do seu papel, desenvolverá suas aptidões num processo que chamamos de treinamento esportivo junto aos seus atletas: “O treinamento é um processo orientado, planejado, sistemático, porém, controlado no momento e de forma exata, para assim melhorar o processo de ensino de aprendizagem do treinamento” (GRECO, 2000).

O treinamento esportivo é um processo de especialização dentro de uma modalidade, na qual, sem prejudicar o desenvolvimento de suas características físicas, psíquicas e educacionais, asseguram-lhe a obtenção do melhor resultado. Dentro do processo de desenvolvimento do treinamento na escola, o treinador deve encarar o esporte como conteúdo que permite aos jovens compreenderem ainda melhor esse intrigante mundo em que vivemos e que a todo instante surgem novas situações dentro das relações humanas.

O treinador dentro da escola muitas vezes desenvolve papéis além das suas experiências vividas ou aprendidas na universidade, mas que ele terá que aprender e executar junto aos seus atletas, com os quais vai atuar como pai, amigo, colega, psicólogo, etc. Mas qual será o verdadeiro valor que tem o treinador no desenrolar do seu trabalho e dessa relação com seus atletas, pais e dirigentes escolares?

Todos nós sabemos que o verdadeiro treinador é aquele que busca os conhecimentos científicos, éticos e morais. Muitos não esgotam suas forças para obter melhores dias para seus atletas, seja fomentando o desenvolvimento de atitudes para uma formação integral do homem, seja em busca da performance do esporte. A partir do momento que uma profissão passa a estar no domínio público, maiores e crescentes irão se fazer as exigências em relação à qualificação desse profissional e, de forma ainda mais contundente, as apreciações sobre seu desempenho. Diante disso, quais seriam as competências que deve possuir um treinador para que saiba agir pedagogicamente? Isso seria trabalhar alicerçado sob uma metodologia científica, seguindo filosofias da Educação, sendo justo e sincero com seus atletas, tendo um vasto conhecimento sobre crescimento, amadurecimento, o próprio esporte e podendo entender essa relação pedagógica entre seus atletas e em si próprio.

Segundo Dantas (1998), o treinador, antes de tudo, é um professor que irá ensinar uma determinada atividade desportiva. Para isso, é desejável que possua sólidos conhecimentos da pedagogia do esporte, da Psicologia e da cultura atual.

Normalmente se tem a ideia de que o treinador só deve se preocupar com a habilidade e a condição física do jovem atleta, o que se constitui num pensamento errôneo; tanto no esporte escolar como noutra manifestação desse fenômeno, a atitude do treinador deve ser presidida pelo fair play, devendo esforçar-se, sem descanso, para demonstrar ao competidor como, para ele, o fair play é sinônimo de integridade e dignidade.

O treinador que atua com o esporte escolar deve fazê-lo pensando em projeto e numa proposta macro, na perspectiva de conseguir, com seu desempenho, a multiplicação das suas ações. É função do treinador, também, lutar em defesa da formação de um atleta sujeito e não objeto, estimulando a relação interpessoal responsável.

Nesse mercado competitivo em que todas as profissões tentam buscar melhores e maiores espaços na sociedade, a profissão de treinador não é diferente… E hoje surge uma nova mentalidade e perfil de treinador não só para trabalhar na escola, mas para atuar em qualquer ramificação do esporte. Surge o treinador pesquisador da sua própria atividade. A habilidade de pesquisador inicia-se com o hábito de anotar e discutir tudo o que acontece, antes e depois dos treinos e jogos ou toda vez que se fizer necessário. Essas atividades ou estratégias vão sustentar tudo o que é feito no seu dia a dia, as situações extraquadra e/ou as necessidades do desenvolvimento da sua prática.

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Professor/treinador Iberê Caldas.

Esse profissional com perfil moderno deve ser, ele próprio, um indivíduo que a todo momento estuda praticando (learning by doing) ou, ainda, estuda investigando (learning by researching). Põe-se na situação de investigar fenômenos e tirar suas próprias conclusões e aplicar suas experiências e seus conhecimentos. Esse contemporâneo treinador, mesmo que intuitivamente, todo dia estará buscando formas e fases que estão estritamente ligadas com sua especificidade. Essas etapas são:

1. A busca consciente do assunto (novos assuntos relacionados à sua modalidade).
2. Registros, anotações, documentações relacionadas aos fatos (scouts, filmagens da sua prática, etc.).
3. Formulação de hipóteses para enfrentar seus futuros adversários.
4. Verificação na prática (experimentações nos treinos e jogos).
5. Descrever e discutir suas conclusões com sua comissão técnica e seus atletas (se as experimentações, as estratégias ou os métodos seguidos foram corretos ou não; avaliação constante).

O treinador deve incessantemente modificar e melhorar suas capacidades profissionais de:

Educador – Formar informando os jovens com os quais trabalha, transmitindo experiências de vida para que essas pessoas desenvolvam suas personalidades de forma correta através do esporte.

Pedagogo – Fazer com que seus seguidores tenham discernimento pedagógico de tudo que é desenvolvido.

Pesquisador – Investigar os fenômenos relacionados à sua atividade.

Metodologista – Esclarecer, explicar, ensinar didaticamente o que foi planejado e noutro momento avaliar.

Fisiologista – Conhecer os estados do metabolismo funcional do organismo relacionados ao esforço específico da sua modalidade durante os treinos e os jogos.

Psicólogo – Saber equilibrar os estados emocionais dos seus atletas e, por que não dizer?, do seu grupo.

Sociólogo – Ter o discernimento das relações psicossociais do seu grupo, valorizando o espírito de equipe.

Dirigente esportivo – Ter o conhecimento de alguns caminhos no que diz respeito a esse participante dentro de uma comissão técnica.

Demonstrante – Saber demonstrar, mas não apenas usar, essa estratégia durante os treinos no processo de ensino- -aprendizagem.

Ao treinador, não basta ser um bom técnico e um profissional reconhecido, pois, ao representar hoje um dos núcleos centrais da atenção da sociedade esportiva, tem de saber gerir a sua imagem, relacionando-se de modo equilibrado com todos aqueles que o rodeiam, em especial com os órgãos de informação.

O sucesso do treinador não se mede exclusivamente pelo número de vitórias ou derrotas que experimenta, mas, sobretudo, pelos contributos que, da sua ação, resultam no desenvolvimento do sistema esportivo, das modalidades, dos atletas, dos outros treinadores, dirigentes e de todos os cidadãos em geral (ARAÚJO, 1998).

Para Marques (2000), mesmo que os treinadores quisessem, não poderiam organizar a preparação esportiva das crianças e dos adolescentes abstraindo das condições de realidade da atividade escolar, e esta tem mesmo que ter primazia na organização, nas fases de escolaridade. Se essas experiências da prática não se adequarem ao princípio do primado da escola na estruturação das atividades, haverá, então, que encontrar condições mais favoráveis da preparação esportiva que, todavia, não poderá passar nunca pelo abandono da escola.

Conclusões

Assim, após tudo que foi descrito anteriormente sobre esse importante profissional inserido na sociedade moderna, podemos concluir e afirmar que o trabalho e a maturidade do treinador se expressarão por sua capacidade de mobilizar, formar, orientar e dirigir aqueles que com ele trabalham, como também pela capacidade e qualidade das suas reflexões, gerando ideias e apontando caminhos para o desenvolvimento próprio e dos outros.

Iberê Caldas é professor de Educação Física do Colégio Presbiteriano Agnes Erskine – PE, treinador de Handebol, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, pós-graduado em Treinamento Esportivo pela Universidade de Pernambuco – UPE, Mestre em Ciências do Desporto pela Faculdade de Ciências e do Desporto de Portugal – FCDEF-PT.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, J. M. Ser Treinador. Coleção Desporto e Tempo Livre. Portugal: Caminho, 1998.
BENTO, J. O. Desporto e sua Dominante Econômica. Coleção Desporto e Tempo Livre. Portugal, 1999.
DANTAS, E. H. M. A Prática da Preparação Física. 4. ed. Rio de Janeiro: Shape, 1998.
DE ROSE, D. e Col. Esporte e Atividade Física na Infância e na Adolescência: uma Abordagem Multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
FERREIRA, V. Cultura Desportiva. In: ARAÚJO, J. M. Ser Treinador. Coleção Desporto e Tempo Livre. Portugal, 1999.
GRECO, P. J. Treinamento de Alto Nível com Crianças e Adolescentes. Coletânea 2. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2000.
LIMA, T. O Desporto do Século XXI. Os Novos Desafios. Portugal, 1992.
MARQUES, A. A Criança e Adolescentes Atletas: entre a Escola e os Centros de Treino… Entre os Centros de Treino e a Escola. Palestra sobre Treinamento Desportivo. Recife, 2000.

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