Edição 111

Como mãe, como educadora, como cidadã

A biografia de um menino vencedor

Quando meu pai era vivo, sempre desejou que eu escrevesse a história de sua vida, intitulada “O menino sofredor”. Eu sempre dizia que ele era um vencedor. Nunca realizei o seu pedido.

Na celebração de 7o dia de sua morte, quis homenageá-lo lendo a história do menino vencedor. Hoje sinto o prazer de passar para vocês educadores/leitores o quanto sou grata por ter tido uma família tão especial.

História de um menino sofredor “Não, pai, vamos colocar o título da história assim: a biografia de um menino vencedor.”40

No dia 2 de julho de 1931, nascia Reginaldo Francisco da Silva — o sexto de sete irmãos: Severino, Celina, Edson, Joca, Nevinha, Reginaldo e Cremilda —, filho de Manoel Francisco da Silva, um comerciante bem-sucedido, e Joana Maria da Silva.

Depois de um tempo, quando seu Manoel contraiu uma doença no estômago, numa época em que médicos e remédios eram muito escassos, Reginaldo viu e sentiu todo o sofrimento de seu pai, que, muitas vezes, já com seus 80 anos, chorava dizendo que não pôde fazer nada por ele. Naquela época, Reginaldo tinha apenas 10 anos e nunca esqueceu o sofrimento do pai.

Seu Manoel tinha posses — mercearia, propriedades, gado, etc. — e era chamado de Manoel do Ouro, pois trabalhava com um senhor que vendia ouro, porém perdeu tudo pagando suas dívidas. Teve que morar numa casa de palha sem conforto, estando, ainda por cima, doente. Tempos sofridos.

Seu pai morreu. A vida se tornou ainda mais difícil, foi necessário deixar a escola de Dona Maria. Contava, com muita tristeza, de quando teve que pegar seu banco e dizer à professora que não podia mais estudar, pois tinha que trabalhar. Lembrava que sua mãe sempre dizia: “Vá trabalhar, menino”. Desejou ser frentista no posto de gasolina, mas diziam que ele não tinha idade. Então, foi trabalhar entregando pão, colocando cimento para rejuntar o calçamento de rua e, por fim, como ajudante numa mercearia que ficava na Rua dos Tocos em Olinda, de um senhor chamado Vitalino e de sua esposa, D. Zezé, que o acolheram como filho. Nessa família, encontrou o carinho com o qual conviveu durante muitos anos.

Com o casamento de Cremilda, sua irmã mais nova, Joana — sua mãe — foi morar em Nazaré da Mata com o quarto filho, Joca. Reginaldo, todo fim de semana, quando ganhava dinheiro, levava algo para a sua mãe (um peixinho, um cobertor…). Na semana em que não pôde ir, sua mãe faleceu. Depois de sete dias, voltou a Nazaré e recebeu a notícia de que fazia uma semana que sua mãe havia falecido.

Tornou-se uma pessoa muito triste, até que encontrou alguém muito especial: Zélia, que se tornou sua esposa e sua amada. Por ser muito ciumento, passou por vários atritos familiares, mas Zélia o amava muito e, com seu amor e paciência, transformou o coração de Reginaldo, com quem viveu 51 anos.

Foi comerciante por 30 anos, ficava feliz por ser bodegueiro (dono de bodega) e contava com alegria como conseguiu o dinheiro para abrir o seu próprio negócio. Dizia que chegou numa banca de bicho para jogar o milhar e presenciou a discussão de uma senhora que não queria o milhar que o bicheiro havia colocado; ela dizia que não iria pagar. Como nunca gostou de confusão, foi logo resolvendo: “Deixe que eu fico com ele”. Para sua surpresa, o milhar saiu na “cabeça”; chegou a ganhar, no valor de hoje, de 9 a 10 mil reais. Durante toda a sua vida, nunca soube que saiu esse milhar novamente. Foi assim que conseguiu abrir sua mercearia.

Ele venceu!

Casou-se com Zélia em 2 de dezembro de 1958. Tiveram cinco filhos: Ronaldo, Eliane, Zeneide, Rinaldo e Rejane, aos quais se dedicou com bastante carinho. Acordava de madrugada para dar remédio, levava ao médico, comprava roupas, brincava na praia, levava para ver o Carnaval, organizava são-joão com sanfoneiro, pois gostava de ver seus filhos alegres. Participava e criava seus filhos dentro de uma Igreja, professando sua fé, acreditando que o Senhor tinha um plano único e perfeito para cada um deles. Fez com que tivessem uma infância muito saudável e feliz.

Ele venceu na criação dos filhos.

Naquela época, com a vinda do progresso, a chegada do calçamento e do supermercado, sua mercearia faliu. Moravam numa casa simples, sem conforto, única casa da rua que não conseguiu fazer uma reforma. Com o calçamento, a casa ficou num buraco, e, todas as vezes que chovia, entrava água na casa. Ele ficava triste, não queria ver sua família naquela situação. Muitas vezes, em plena enchente, suas varizes se rompiam, e era sangue para todo lado. Amarrava sua perna com uma atadura e voltava a tirar a água de dentro da casa, sempre protegendo seus filhos e Zélia de cobras e escorpiões.

Sua tristeza era um pouco aliviada quando sua filha Eliane pegava o violão e cantava e louvava acompanhada da mãe, que dizia: “É no meio do louvor que Deus habita”. A família sabia que o louvor era o meio pelo qual Deus transformava a vida e capacitava para fazer sua vontade e glorificá-Lo. Sua filha Zeneide sempre dizia a ele: “Pai, há de vir tempo bom para aliviar esta dor, pois em quem cultiva a semente nasce no peito uma flor”. Naquele momento, Reginaldo não acreditava muito no que ela falava, mas aos poucos foi percebendo que o nosso Deus é um Deus de promessa e cumpre o que diz, nunca abandona seus filhos e supre todas as suas necessidades.

Com o fechamento da mercearia, passou a se dedicar a todos que passavam por sua casa, a se devotar mais à Igreja, com Zélia, que naquela época era ministra da Eucaristia, e a curtir os netos. Saiu da rua em que morava há 30 anos, comprou uma casa melhor sem se preocupar com enchentes. Agora tinha que viver com uma aposentadoria.

E venceu!

Em 1993, morre seu primeiro filho — infarto fulminante, com 33 anos. Foi um choque muito grande, sofreu muito, mas superou ao assumir as netas Carolina e Juliana, levando-as para a escola, ajudando a criá-las; amou-as demais.

Ele contava sorrindo uma história que o deixou muito triste no dia em que ela ocorreu. Suas netas Carolina e Juliana foram morar em Jaboatão dos Guararapes, e, todos os domingos, ele levava a feira delas. Ia de ônibus com duas sacolas cheias; nesse dia esqueceu o saco de bombons. Quando lembrou, já estava muito distante de casa. Chegando lá, Carolina foi recebê-lo mostrando o pote de bombom vazio, esperando enchê-lo com a chegada do avô. Ele ficou triste por não ter os bombons na hora, mas logo no outro dia voltou com eles.

Amou demais!

O tempo passou, e, em 2005, teve câncer de próstata; enquanto os médicos achavam que ele não teria cura, os filhos estavam sempre juntos dele e omitiam alguns comentários fortes ditos em relação à sua saúde. Isso fez muita diferença na sua recuperação.

No Hospital Português, iniciou seu tratamento de radioterapia, quando então conheceu um grupo de treze homens, todos eles com a mesma doença; fizeram amizade. Sentia prazer em ir ao hospital para fazer radioterapia, 28 sessões; chegava diariamente às 5 horas da manhã. O grupo recebeu até o nome de GPC (Grupo Pé na Cova). Todos achavam que iriam morrer. Durante o tratamento eles riam, cantavam e achavam engraçado tudo o que acontecia. Muitos ficaram curados, inclusive Reginaldo, e o grupo mudou o nome para Grupo da Próstata Curada.

Ele venceu!

Passaram-se os anos… Outro choque: sua amada sofreu um AVC, enquanto assistiam à TV juntos. Foram 29 dias de UTI. Zélia faleceu no dia 8 de janeiro de 2010. Ele não queria mais viver, desejava ter ido primeiro do que ela. Sua saudade foi imensa, chegava a dizer que sentia falta do toque de seu pé na cama.

41Passou a morar no Recife, fez novos amigos, passeava na Jaqueira, mas nunca esqueceu seu grande amor, sua casa, suas plantas. Não conseguia voltar para a mesma casa em que morava. Algumas vezes, no fim de semana, ia a Olinda ver sua casa e seus amigos. Porém, acabava voltando para o Recife.

Aliviou um pouco a saudade quando foi acolhido pelo Sr. Pedro, um grande amigo que, nesses últimos três anos, fez de Reginaldo uma pessoa muito feliz e com vontade de reviver. Assumiu um papel de chefe e controlava tudo no setor da Revista, pois dizia que tinha o apoio do Diretor para organizar a Editora Construir.

No trabalho, dizia que queria ser amigo de todos, mas, se não assumissem seu trabalho correto e não cumprissem o horário de chegada, ele entregaria todos ao diretor. Achavam graça e, carinhosamente, passaram a chamá-lo de “Coronel”. Assim, sem que ele percebesse, todos riam e alimentavam sua ideia de chefe quando diziam: REGINALDO É MORAL.

Foram momentos maravilhosos que fizeram superar um pouco a morte de Zélia, sua esposa.

Ele venceu!

Chegou, então, a hora de Reginaldo se preparar para o seu Kairós (Tempo de Deus). Passou 70 dias na UTI, dias difíceis para os filhos e amigos que o acompanhavam sempre com paciência e pedindo que fosse feita a vontade de Deus.

Quando Zeneide chegava da visita do hospital, os seus colegas de trabalho perguntavam: “Como está Seu Reginaldo?”. Ela sempre dizia: “Está cada dia mais lindo”.

Enquanto esperávamos que Reginaldo fosse curado no corpo, o Senhor fez a cura espiritual, por isso o guardou.

Ele venceu!

Enfim, queridos professores/leitores, aqui termina a história de um menino sofredor que se tornou um homem VENCEDOR. Reginaldo faleceu no dia 20 de agosto de 2013. Viveu 30.142 dias e 723.408 horas. No entanto, muito pouco para quem vai viver a vida eterna.

Termino com um verso da música Trem bala, de Ana Vilela, quando diz: “Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”.

Eu garanto que fiz…

Zeneide Silva

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