Edição 07

Lendo e aprendendo

A Caixa de Pandora

Há muitos anos, quando este velho mundo ainda era jovem, viveu um rapaz chamado Epimeteu. Não tinha pai nem mãe; para que não ficasse só, uma menina – que também não tinha pai nem mãe – foi mandada de um país distante para morar com ele e ser sua companheira de brinquedos.

A primeira coisa que Pandora viu, assim que entrou na cabana em que Epimeteu morava, foi uma caixa enorme. E uma das primeiras coisas que perguntou foi:

- Epimeteu, que há nessa caixa?

-É segredo – respondeu Epimeteu – e peço que você não me pergunte mais sobre isso. A caixa foi deixada aqui para ficar em segurança. Nem eu mesmo sei o que existe lá dentro.

- Mas quem lhe deu a caixa? – perguntou Pandora. – De onde veio?

- Também é segredo – respondeu Epimeteu.

- Ridículo! – exclamou Pandora, fazendo beicinho. – Por mim, jogava fora essa caixa horrorosa!

- Nunca mais pense nisso – interrompeu Epimeteu. – Vamos brincar lá fora.

Correram para brincar, e, por algum tempo, Pandora esqueceu tudo sobre a caixa. Mas quando voltou à cabana, não pôde deixar de pensar sobre o que existia na caixa.

- De onde vem a caixa? – continuou perguntando a si mesma e a Epitemeu. – Que será que existe lá dentro?

- Já lhe disse cinqüenta vezes que não sei o que existe lá dentro – disse Epimeteu.

- Você poderia abri-la – insistiu Pandora – e ai nós poderíamos ver.

- Que negócio é esse, Pandora? – exclamou Epimeteu, chocado com idéias de abrir uma caixa que lhe tinha sido dada para guardar.

- Pelos menos – disse ela – você poderia dizer como é que ela veio parar aqui.

- Foi deixada na porta – respondeu Epimeteu, pouco antes de você chegar, por uma pessoa que usava uma capa muito estranha. Tinha um boné que parecia feito de penas, como se tivesse asas.

- Ah, esse eu conheço – disse Pandora. – É Mercúrio, Ele é que me trouxe aqui. Não há dúvida de que ele trouxe a caixa para mim; deve estar cheia de lindos vestidos para eu usar; ou então de brinquedos para mim e para você; ou, quem sabe, de qualquer coisa muito gostosa para nós comermos!

- Talvez – respondeu Epimeteu afastando-se. Mas, até que Mercúrio volte e diga se podemos abrir ou não, nenhum de nós tem o direito de levantar a tampa da caixa. E saiu da cabana.

- Que cara mais estúpido! – murmurou Pandora.
A menina ficou de pé contemplando a caixa. Era feita de madeira escura, muito bonita, tão polida que Pandora podia ver seu rosto espelhado nela.

No centro da tampa, havia um belo rosto esculpido. Pandora tinha olhado para esse rosto várias vezes: às vezes parecia estar sorrindo para ela: mas outras vezes tinha um ar sério que a amedrontava.

A caixa não tinha fechadura nem chave, como quase todas as caixas; estava amarrada com um cordão de ouro.

E Pandora disse consigo:

- Se eu só desatasse o cordão, poderia atá-lo de novo. Não haveria nenhum mal nisso. Não vou abrir a caixa, mesmo que o nó esteja desfeito.

Mas aí, por acaso, quando ela deu uma leve torcida no nó, o cordão soltou-se, como que por mágica. E lá ficou a caixa, sem nada a amarrá-la.

- Meu Deus! – disse Pandora. – Que dirá Epimeteu quando encontrar o nó desfeito? Vai ficar sabendo que eu é que fiz isso. Como vou fazer com que acredite que não olhei para dentro da caixa?

Ai teve uma idéia: Já que o rapaz de qualquer maneira pensaria ter ela olhado para dentro da caixa, bem que podia dar uma espiada.

O rosto da caixa sorriu para ela, como que dizendo não haver problema algum em levantar a tampa. Então ela imaginou ter ouvido dentro da caixa vozes baixinhas que pareciam cochichar.

- Deixe-me sair, querida Pandora. Por favor, deixe-nos sair. Seremos bons amiguinhos!

- Que será? – pensou Pandora. – Será que há algum ser vivo dentro da caixa? Vou só dar uma olhadinha, e aí ficho a caixa com toda a segurança. Acho que não há mal algum em dar só uma espiada.

Nesse meio tempo, Epimeteu, que estava brincando com outras crianças resolveu ir ver Pandora. No caminho, parou para colher flores – rosas, lírios e botões de laranjeira, – para fazer um buquê para ela, Epimeteu chegou à porta da cabana e entrou, pé-antepé, pois queria pegar Pandora de surpresa. Mas, assim que chegou à porta, Pandora pegava na tampa e estava preste a abrir a caixa. Se ele gritasse, Pandora provavelmente largaria a tampa. Mas Epimeteu, embora não tivesse dito isso, estava tão curioso quanto Pandora para saber o que havia na caixa. Por isso, não podia censurar a menina.

Lá fora, ribombou um pesado trovão, mas Pandora nem notou. Levantou a tampa e olhou para dentro. E, de repente, pareceu como se um exame de criaturas aladas tivesse voando da caixa e passado por ela como um rojão. Foi então que ouviu Epimeteu gritar:

- Fui picado! Pandora cabeçuda! Por que abriu essa maldita caixa?

Pandora deixou a tampa cair e procurou ver o que tinha acontecido a Epimeteu. Ouviu um alto zumbido, como se enormes moscas e mosquitos, em grande quantidade, estivessem voando pela cabana. Logo pôde ver uma multidão de horríveis seres de asas, que lembravam morcegos, dotados de compridos ferrões na cauda. Um deles picara Epimeteu. Em seguida, foi à vez de Pandora berrar de dor. Um horrendo monstrinho pousara em sua testa, e a teria picado seriamente se Epimeteu não corresse para espantá-lo.

As crianças não sabiam quase nada a respeito deles, mas aqueles seres horríveis formavam a família dos males do mundo. Havia mau humor; uma grande variedade de ansiedade; mais de cento e cinqüenta mágoas; as doenças mais dolorosas; havia tantas espécies de males que não dá para falar. Todas as tristeza e aflições que hoje atacam as pessoas tinham estado presas na caixa misteriosa, que fora dada a Epimeteu e Pandora para guardar, evitando que as crianças felizes do mundo fossem atacadas por elas. Se elas tivessem cuidado da caixa como deveriam, hoje nenhum adulto seria triste, nem criança alguma teria chorado uma só lágrima.

Os males de asa voaram pela janela e espalhou-se pelo mundo todo. E tornaram os homens tão infelizes, que durante muitos dias não se via ninguém sorrir.

Pandora e Epimeteu continuaram na cabana. Epimeteu sentou-se a um canto, de costas para Pandora. Ela pousou a cabeça na caixa e chorou amargamente.

De repente, ouviu suaves pancadinhas debaixo da tampa. Pareciam os dedinhos de uma fada, batendo delicadamente dentro da caixa.

- Quem será? – disse Pandora erguendo a cabeça. – Quem é?

E uma voz suave falou de dentro dela:

- Basta levantar a tampa que você verá.

- Não! Não! – respondeu Pandora. – Já me bastam os problemas de ter levantado a tampa uma vez. O mundo está cheio de seus horríveis irmãos e irmãs voando por aí.

- Ah! – respondeu a doce voz. – Eles não são nem meus irmãos nem minhas irmãs. Abra, querida Pandora, e estou certa de que você me deixará sair.

A voz era tão delicada e sedutora que Pandora e Epimeteu levantaram a tampa juntos. E uma criatura sorridente e resplandecente, parecendo uma fada, saiu voando. Voou para Epimeteu e tocou levemente no lugar em que um dos males o tinha picado. Num instante, a dor desapareceu. Depois beijou Pandora na testa, e seu ferimento também sarou.

- Quem é você linda criatura? – perguntou Pandora, contemplando-a maravilhada.

- Chame-me Esperança – respondeu a figura resplandecente. – Fui inserida na caixa para que pudesse confortar as pessoas, quando a família de males se espalhasse pelo mundo.

- E você ficará conosco para sempre – perguntou Epimeteu?

- Enquanto vocês viverem, prometo que nunca os deixarei. Às vezes vocês não me poderão ver e pensarão que fui embora para sempre. Mas, quando menos esperarem, verão o brilho de minhas asas sobre sua cabana.

Daí em diante, os males continuaram a voar pelo mundo, fazendo os homens sofrer; mas sempre a Esperança, a fada de asas de arco-íris, chegou para trazer a cura e o conforto.

cubos