Edição 34

O livro da vez

A caligrafia de Dona Sofia

André Neves

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Com esse maravilhoso livro, A caligrafia de Dona Sofia, André Neves sugere que a vida seria muito melhor se espalhássemos poemas pelo mundo afora. E ele, com sua carga de talento duplo e de humanidade, fez mais: espalhou muitos poemas, criou.

Dona Sofia, desenhando e escrevendo a história, provou que um poema partilhado provoca mais amor, mais amizade e que há muitas razões para também copiar e espalhar poemas.

Elias José

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Na mais alta colina entre as colinas que guardam a cidade, existe uma casa diferente de todas as outras, com paredes decoradas com poemas.

Não haveria quem não pudesse dizer que, ali, as paredes recitavam, cada canto vivo cuidado com emoção e a caligrafia em estilo que só Dona Sofia sabia… Mas, anos sempre em marcha, a velha percebeu que ficaria sem espaço para escrever os versos que tanto amava.

Com letra de caprichosa moça, a professora aposentada decidiu-se pelos cartões poéticos — prensando flores sobre o papel, colhendo palavras com sua florida caligrafia — endereçando-os a todos os moradores da pequena cidade… Eis então que a ajuda de Seu Ananias seria de grande valia, e entra em cena o protagonista desta renda palavra–imagem que André Neves teceu: a história do carteiro e da amorosa leitora de poetas. E um dia chega, e ele próprio recebe um cartão…

Como as paredes da casa de Dona Sofia, as páginas do livro se abrem, preenchidas por uma caligrafia redonda, cursiva e constante: que o leitor entre nessa casa e descubra, distraidamente ou não, os versos que falam de deslumbramentos, estradas, brilhos, firmamento, primaveras do passado e do presente. São confissões de poetas de variados públicos — agora reunidos sob uma aura romântica, embora a diversidade das escolhas —, e parecem mesmo falar a um só ouvido. Esse é um projeto sensível, um livro para ser relido, e quem se atrever a espiar mais certamente encontrará os poemas motores para essa e para outras produções do autor, como se comentassem suas cores e fulgurações, seus horizontes de leitura…

Quando finda a primeira leitura, uma névoa triste de alegria e a certeza de que “Um poema partilhado provoca mais amor, mais amizade”, como afirma Elias José, “Que há muitas razões para também copiar e espalhar poemas”, como Dona Sofia, que resgatou, dividiu e multiplicou belezas que os livros guardam.

E sua memória jamais esqueceu.

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