Edição 88

DPAC

A CRIANÇA ESCUTA, MAS NÃO ENTENDE – COMO APRENDER?

Rosangela Nieto de Albuquerque

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O processo de ensinagem e aprendizagem das crianças com Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC)

Como se dá o processo de ensinagem e de aprendizagem nas crianças com Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC)? Certamente, a dificuldade do processo de ensinagem para o professor se inicia pelo desafio de identificar que a criança escuta, mas não entende. Em geral, essa situação acontece tanto com a escola quanto com a família, e, à medida que essa dificuldade vai sendo percebida, pensa-se em várias possibilidades: que a criança é preguiçosa, desinteressada, agitada e até que perdeu a audição (condutiva e neurossensorial).

Com DPAC, também chamado de Disfunção Auditiva Central ou Transtorno do Processamento Auditivo, a criança escuta, mas não entende o que é falado, e isso é caracterizado pela dificuldade de decodificação dos sons (capacidade de entender o que ouviu); de codificação (capacidade de construir uma informação com base no que ouviu); de prosódia (capacidade de pronunciar corretamente as palavras); e de memória auditiva.

O DPAC afeta a capacidade de analisar ou interpretar informações que chegam através da audição e de compreender a mensagem. Há um comprometimento das vias centrais da audição, é uma neuropatia auditiva que afeta as áreas cerebrais, mas, na maioria dos casos, o sistema auditivo periférico (nervo auditivo, cóclea, tímpano) é preservado, assim não há a nomenclatura de surdez. A dificuldade se dá pelo mau funcionamento das áreas auditivas do córtex cerebral e dos caminhos que conduzem o som até essas áreas.

Causas, prognóstico, diagnóstico e tratamento

A criança com DPAC ouve claramente a fala do emissor, mas tem dificuldade em decodificar e interpretar a mensagem recebida. Na escola, como não entende o que o professor explica, muitas vezes é considerada preguiçosa, distraída, desinteressada e, certamente, apresentará problemas na aprendizagem, como dificuldade de interpretar textos, compreender o enunciado das questões e de escrever.

Há variados sintomas do DPAC, entre eles, na maioria dos casos, falta de interesse por música; extrema desatenção auditiva; presença de zumbidos ou alucinações auditivas; dificuldade para acompanhar informações auditivas complexas, localizar fontes sonoras e ouvir em ambientes ruidosos.

Os sinais e sintomas do DPAC podem variar e se confundir com outras psicopatologias, pois há diversas formas de manifestação. A criança pode apresentar desatenção e ficar muito agitada e inquieta, o que pode confundir com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH); ter dificuldade de memorização, porque não decodificou, não interpretou, não compreendeu a mensagem, e consequentemente não processou a memória da informação; apresentar cansaço ou curta atenção para sons; manifestar problema de sequência lógica ao contar uma história; não conseguir realizar uma tarefa; ter dificuldade de compreender metáforas e, às vezes, sinalizar problemas na fala, por exemplo trocar o fonema r pelo l, o que pode confundir com o diagnóstico de dislalia. Pode apresentar também inversão de letras e falta de orientação direita e esquerda — certamente esses aspectos irão proporcionar um desempenho escolar insatisfatório em virtude do comprometimento na leitura, gramática, ortografia e matemática.

Prognóstico

Os estudos enfatizam que as causas do DPAC são variadas; porém, a literatura confirma que é de origem genética e que acontece também por atraso maturacional da área auditiva do Sistema Nervoso Central. Há casos de lesões cerebrais por anóxia, traumatismo craniano e até por envelhecimento natural do cérebro, e observaram-se também complicações por outros distúrbios neurológicos.

Diagnóstico

É fundamental que o diagnóstico seja feito o mais cedo possível, pois, quanto mais jovem a criança, maior é a possibilidade de as dificuldades melhorarem por meio de atividades de reabilitação que exercitarão a plasticidade neural, e, certamente, as dificuldades no aprendizado escolar serão superadas mais facilmente.

Em indivíduos sem alteração no sistema auditivo central, o mecanismo de escuta se dá através do processamento auditivo pelas habilidades de atenção seletiva, discriminação, localização, reconhecimento do som, compreensão, integração do som aos outros órgãos dos sentidos e memória auditiva. No diagnóstico do DPAC, essa neuropatia auditiva pode atingir uma ou várias dessas habilidades, em diferentes graus, embora as mais comprometidas costumem ser as relacionadas com as funções de decodificação, codificação, prosódia e memória auditiva.

Para um diagnóstico eficaz, é necessário fazer uma avaliação completa da audição, certamente com o otorrinolaringologista e o fonoaudiólogo, incluindo a avaliação do processamento com testes especiais, além da audiometria-padrão, testes de PAC (monóticos, dióticos e de interação binaural) e de avaliação do desenvolvimento linguístico e do comportamento auditivo. Nesse contexto, o diagnóstico deve ser feito a partir dos 4 anos pelo profissional de fonoaudiologia, que infelizmente não é ofertado no serviço público brasileiro.

É importante fazer um diagnóstico diferencial de outras alterações como dislexia, transtorno de déficit de atenção e dislalia, pois os sinais e sintomas são semelhantes.

O diagnóstico, através dos exames específicos, estabelecerá quais habilidades auditivas estão mais comprometidas na criança. Estas servirão de orientação para o fonoaudiólogo usar as técnicas de reabilitação e para os professores e pais elaborarem técnicas para o desenvolvimento da aprendizagem da criança. Contribuirá para a práxis educativa do professor e orientará as atividades efetivas, os jogos pedagógicos que devem ser utilizados e os procedimentos comportamentais.

Em geral, o diagnóstico é realizado em crianças e idosos. Especialmente em crianças, o DPAC se manifesta através de dificuldades de concentração, memorização, aprendizagem, leitura, escrita e também pela troca de fonemas, e pode vir acompanhado de outros distúrbios, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Em idosos, há uma variedade de possibilidades, haja vista o envelhecimento neural.
Prognósticos

Os estudos remetem a uma neuropatia auditiva, portanto a uma dificuldade neurológica que dificulta o processamento das informações, ou “falha” na área responsável pela codificação das informações no Sistema Nervoso Central. Os estudos na abordagem biológica inferem que o DPAC é uma neuropatia auditiva hereditária.

6_dpac_2Tratamento

O tratamento consiste em um programa de reabilitação fonoaudiológica, por meio de treino e exercícios específicos para desenvolver as habilidades que estão prejudicadas. Esse tratamento, que deve ser feito o mais cedo possível, e o apoio de uma equipe pedagógica adequada oportunizarão à criança mais chances de um bom desempenho escolar. Através da propriedade da plasticidade cerebral, o treinamento irá compensar “as falhas” neurológicas no processamento auditivo.

Há várias alternativas no tratamento do DPAC; especialistas acreditam no uso do Sistema FM na escola, que permite amplificar a voz do professor, facilitando a compreensão da fala dele. No entanto, o professor, no processo de ensinagem, precisa primeiramente conhecer a neuropatia e elaborar técnicas para que a aprendizagem seja um sucesso.

Assim, na escola, ele poderá ajudar no desenvolvimento da criança com as seguintes ações pedagógicas:

- Disponibilizar o material de aula impresso antes de a aula ser ministrada.

- Repetir, quantas vezes forem necessárias, a fala sobre o assunto abordado até que a criança entenda.

- Ajudar a criança a descobrir um caminho de aprendizagem (através de recursos intelectuais) para que ela e o professor consigam sucesso na ensinagem e aprendizagem.

- Falar com entonação e articulação claras, num ritmo de pausas e com pistas orofaciais.

- Permitir à criança uma completa visualização do rosto de quem fala.

- Usar, sempre que possível, a música, pois ajudará no treinamento auditivo.

- Evitar o excesso de ruído no ambiente.

- Compreender que ocorre cansaço mental com frequência, isto é, antes de nos demais alunos.

Os profissionais da Educação (gestores, coordenadores, professores) e toda a comunidade escolar precisam conhecer a neuropatia para saber como elaborar as ações pedagógicas e a práxis educativa. É preciso compreender que a criança com DPAC não tem comprometimento intelectual e que ela não controla suas dificuldades. É importante encaminhar a criança para um diagnóstico multidisciplinar com profissionais das diversas áreas — neuropediatra, fonoaudiólogo, psicopedagogo, psicólogo — para que sejam identificadas as habilidades auditivas comprometidas, as questões pedagógicas e as condições emocionais e, assim, poder dirigir a intervenção e reabilitação. É fundamental desenvolver um trabalho fonoterapêutico pautado na estimulação dessas habilidades e, certamente, um trabalho de orientação aos educadores, fornecendo meios facilitadores para a aprendizagem da criança.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Pós-doutora em Educação), pós-doutoranda em Psicologia Social, doutoranda em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, coordenadora de cursos de pós-graduação em Educação, psicopedagoga clínica e institucional, analista em Gestão Educacional, pedagoga. Autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia como projeto social. Autora de três livros: Neuropedagogia e Psicopatologias, Psicoeducação e Neuropsicologia.
Contato: rosangela.nieto@gmail.com

Referências

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