Edição 79

Lendo e aprendendo

A dieta da próstata

Misael Wanderley

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Não adianta fugir do assunto. Em se tratando de Urologia, ela é a campeã, a vedete, primeiro lugar em importância nos debates, a preferida (inter) nacional. Sim, não apenas por aqui. No primeiro semestre deste ano, em três congressos internacionais de que participei, a próstata, e principalmente o câncer de próstata, dominou a preferência da audiência. Auditórios sempre lotados, catalisando a atenção de todos os participantes afins, dos mais jovens aos mais experientes. Por tudo que representa, a alta prevalência do câncer que a atinge a partir da maturidade, pelos tabus e mitos que envolvem seu tratamento, como a possibilidade de afetar aspectos da masculinidade, do controle da urina (esta uma sequela cada vez mais rara, diríamos até de exceção nos dias de hoje), enfim, a próstata tem ganhado status de top model com direito inclusive a uma dieta específica! “Poodhie”?! Como diriam aqueles de sotaques “alegres”.

Pode, respondo eu, e deve!

Há muito se conhece a relação de fatores ambientais e dietéticos e a ocorrência do câncer de próstata. Uma explicação simplista para isso pode ser observada na incidência baixa da doença nos asiáticos quando comparados aos habitantes do Ocidente e uma incidência similar nos descendentes destes mesmos asiáticos, que migraram para a América, por exemplo, a partir da segunda geração.

Pesquisas de alimentos que podem contribuir com a gênese do câncer de próstata e também de alimentos que têm efeito protetor contra o aparecimento da malignidade apresentam resultados controversos e são motivo de debates calorosos com publicações em diversos meios de comunicação tanto científicos como na chamada imprensa leiga — diga-se de passagem, muito mais lida e acessível ao público. De uma maneira geral, diz-se que o que faz bem ao coração faz bem à próstata. Dieta rica em gordura animal, consumo excessivo de carnes vermelhas e laticínios que contêm altos índices de cálcio estão relacionados a taxas mais altas e ao câncer de próstata mais agressivo. Existe forte evidência de que o consumo exagerado de açúcar e o sedentarismo aceleram o crescimento de células malignas, dieta e comportamento que aumentam a incidência de doenças cardiovasculares, o que é bem comum na vida ocidental, e estão ligados a uma incidência mais alta de câncer de próstata.

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Alguns agentes antioxidantes e vitaminas estão sob pesquisa em relação ao câncer de próstata. Em 2001, iniciou-se o estudo SELECT com cerca de 35 mil homens tomando vitamina E e selênio com o objetivo de prevenção da doença. Resultado: em 2008, seus autores aconselharam os participantes a pararem de tomar essas substâncias, pois não havia evidência de seu benefício. Em 2001, nova análise foi feita, e surpreendentemente a ingestão de vitamina E foi associada a uma maior incidência de câncer de próstata, em torno de 17%, quando comparada ao placebo. Outra análise do estudo feita este ano associou níveis sanguíneos mais altos de selênio a um risco dobrado de desenvolvimento do câncer de próstata na forma agressiva.

Assim, o conselho mais atual é: vitamina E e selênio não previnem câncer de próstata, mas, ao contrário, podem estar associados a um aumento de sua incidência, principalmente na forma mais agressiva da doença. Alimentos ricos em ômega-3 — um ácido graxo poli-insaturado encontrado em alimentos como salmão fresco e alguns óleos de peixe, castanha e ovos ­­— estão entre as substâncias mais pesquisadas pelos efeitos antioxidantes e anticancerígenos que possam exercer. Uma controvérsia surgiu quando os pesquisadores do estudo SELECT, já citado, relacionaram um aumento de 44% no risco de desenvolvimento do câncer de próstata de baixo grau em pacientes com níveis altos de ômega-3 e câncer de próstata, o que manteve tal discussão em aberto. Diante de tanta informação a favor ou contra este ou aquele alimento, uma coisa é ponto comum em qualquer dieta para diabético, hipertenso ou para a nossa vedete do momento, a próstata: o segredo está no equilíbrio, numa dieta simplesmente balanceada e sem exageros. Pois tudo demais, até água, tem seus efeitos deletérios. O coração e a próstata agradecem.

Misael Wanderley é urologista.
Endereço eletrônico: misael@smftgi.com.br.

Revista Algo Mais. Recife: SMF-TGI. ano 9. n. 101. Agosto 2014.

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