Edição 45

Em discussão

A dona da História

Por Fernanda Pompéu

dona01

A pesquisadora carioca Mary Del Priore, autora de mais de dois livros, formada em História e vencedora de um Prêmio Jabuti, está sempre de olho no feminino. Ela delata a ditadura do orgasmo, estuda o lugar do amor nos nossos dias e segue os passos das mulheres do Brasil desde que os portugueses aportaram por estas paragens.

Duzentos anos depois da chegada da família real ao Brasil, em 1808, a mulher brasileira tem muito a agradecer à Corte portuguesa. Essa e outras ideias são defendidas pela renomada historiadora Mary Del Priore, professora universitária, autora de livros como História do Amor no Brasil, Mulheres no Brasil Colonial e organizadora do premiado História das Mulheres no Brasil, todos da Editora Contexto. Mãe de Pedro Augusto, Paulo Fernando e Isabel — “Meus filhos são meus melhores amigos e os mais atentos interlocutores” —, ela nunca viu impedimento em ser uma profissional séria e dedicar-se aos cuidados da família. Mary também agradece a sorte de ter tido maridos que respeitaram seu trabalho de pesquisadora incansável.

Nascida no Rio de Janeiro, fez o Ensino Fundamental no tradicionalíssimo Notre Dame de Sion. Depois, passou uma temporada em um colégio interno da Suíça. A formação superior só viria mais tarde, por volta dos 30 anos. Mary fez o curso de História na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, quando os filhos estavam na escola maternal. Atualmente morando em Teresópolis (região serrana do Rio de Janeiro), ela faz longas e metódicas caminhadas antes de ligar o computador e sintonizar-se com a decifração do passado como lanterna voltada para o presente. Na entrevista a seguir, feita por e-mail, Mary Del Priore brinda as leitoras de Mulheres do Brasil com respostas inspiradas.

Negra, branca, oriental. Rica, de classe média, pobre. Doutora, analfabeta. Patroa, empregada doméstica… Quem, afinal, é a mulher brasileira?

Mary Del Priore – Independentemente de raça, gênero e classe social, a mulher brasileira é uma trabalhadora incansável. Ela mobiliza seus esforços na manutenção da família. As verdadeiras heroínas de nossa história são mulheres sem rosto. Não são rainhas ou cortesãs conhecidas. São mulheres anônimas que se dedicam à difícil tarefa de sobreviver. Os primeiros documentos da História do Brasil demonstram que as brasileiras, livres ou escravas, trabalhavam, e muito. Elas ofereciam todos os serviços possíveis em uma sociedade agrícola e de pouco consumo. Eram costureiras, lavadeiras, doceiras, lavradoras, donas de pequenos comércios e prostitutas. Com seus ganhos, mantinham famílias e agregados.

O ano de 2008 marca os 200 anos de chegada da família real ao Brasil. O que esse fato significou para a mulher brasileira?

MDP – A abertura dos portos, que se seguiu à vinda da família real, foi fundamental para que as capitais começassem a receber mais e mais professoras. A educação feminina da época era um desastre. Graças à vinda de estrangeiros, multiplicaram-se escolas, livros e bibliotecas. Os jornais da época estão cheios de anúncios oferecendo professores de Retórica, Francês, Inglês, Letras e Matemática. Também proliferaram os pensionatos, permitindo que moças do interior fossem estudar na capital. Foi uma grande mudança.

Saber como viviam e o que pensavam as mulheres do passado ajuda o cotidiano das mulheres do presente?

MDP – Conhecer a história de nossas irmãs do passado ajuda a entender o que somos e por que somos como somos. É interessante observar as transformações. Por exemplo, a partir dos anos 1970, a disseminação da pílula anticoncepcional, a urbanização acelerada do País, a entrada em massa das mulheres de todas as classes sociais no mercado de trabalho deram à brasileira uma liberdade material e sexual que, até então, a maioria desconhecia.

A passagem de um padrão a outro ocorreu sem trauma?

MDP – De forma alguma. Nos anos 1970, a mulher, ao mesmo tempo que se liberava, convivia com padrões éticos que eram os de sua avó: sonhar com o príncipe encantado, com o marido mantenedor, com a segurança e a fidelidade. Essa mulher teve que conciliar tendências, exteriores e interiores, muito diferentes.

Como era a educação das nossas tataravós?

MDP – Durante séculos, uma sólida barreira — feita de opiniões de juristas, médicos e da própria sociedade — brecava tudo que pudesse ferir as instituições básicas da sociedade, isto é, a família e o casamento. Não havia felicidade possível fora delas: marido e mulher se transformavam em papai e mamãe. O amor conjugal era feito para a procriação. Não existia espaço para paixões infecundas, amores romanescos, sentimentos fora de controle. As moças eram educadas para casar, ser donas de casa, criar os filhos e se sacrificar por eles.

dona02

E hoje?

MDP – Assistimos a uma longa evolução, que foi da proibição do prazer ao direito ao prazer. Impôs-se a ditadura do orgasmo forçado. O erotismo entrou no território da proeza. O prazer, tão longamente reprimido, tornou-se prioridade absoluta, quase esmagando o casamento e os sentimentos. Passou-se do afrodisíaco à base de plantas para o sexo com receita médica, o Viagra, por exemplo. Fomos da dominação patriarcal à liberação da mulher.

dona03

A sexualidade, de tão alardeada, virou fundamentalista? E o sexo virou consumo?

MDP – O fim do século 20 inventou um narcisismo coletivo, uma estética insólita do amor a si mesmo. A sexualidade instituiu-se como prática corrente, consagrou-se como condição fundamental para as relações sociais. Banalizada, estereotipada, ela invade nosso cotidiano por meio da tevê, do cinema, da internet. Essa sexualidade explode num todo, focando o corpo nu. Ou explode em pedaços — focalizando pernas, costas, seios, nádegas. Nas praias, ruas, academias de ginástica, há uma ditadura humilhando e afetando as mulheres que não se dobram a um único modelo. Ouso dizer que o sexo se tornou uma nova teologia. Só se fala nisso e se fala mal, com vulgaridade. Escreve-se cada vez mais sobre a banalização da sexualidade e o desencanto dos corações. Mas, ao mesmo tempo, o amor segue uma realidade sutil e importante que faz sonharem, e muito, homens e mulheres.

O erotismo tomou conta?

MDP – Trocou-se o amor pelo sexo. A imagem erotizada está em toda parte. Diferentemente de nossos antepassados, que viam erotismo no que estava oculto, nos dias atuais o erotismo precisa das imagens para ser eficiente. Passamos do amadorismo de nossos avós — ditado por constrangimentos de ordem religiosa, social e cultural — ao profissionalismo de nossos netos, obrigados ao prazer. Sendo que o erótico, graças à mídia e à imagem, tem que ter competências: seios imensos e nádegas de silicone, boca de Pato Donald, bíceps.

Perdemos sutilezas?

MDP – Antes, o erotismo era uma metáfora para o amor, não uma representação evidente ou direta do sentimento. Ele era uma forma condensada, enigmática, sugerida do sentimento amoroso. Agora, o erotismo é exercício com regras próprias e excludentes. As consequências? As historiadoras de amanhã apontarão.

Qual o desafio para as mulheres no século 21?

MDP – A liberdade amorosa tem contrapartidas: a responsabilidade e a solidão. É preciso entender que o passado não foi só feito de trevas. A tradição não é apenas, como querem seus críticos, opressiva e sufocante. Por meio dela se entende que a família, a criança e a procriação funcionam e se perpetuam como fonte de profunda emoção. Na atualidade, queremos tudo ao mesmo tempo: amor, segurança, fidelidade, monogamia e as vertigens da liberdade. Muitas vezes, a liberdade sexual é um fardo para os mais jovens. Muitos deles têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, sabedoria e melancolia — tal como viveram seus avós. Hoje, a loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, mas sem nuvens nem tempestades.

mary
Pesquisadora
Mary Del Priore

Fonte: Revista Claudia. Edição especial. Mulheres do Brasil, A Dona da História, por Fernanda pompéu. P. 92–95.

cubos