Edição 78

Matérias Especiais

A escola conectada com a vida do aluno

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Se a Educação é decisiva para os rumos de qualquer sociedade, o seu agente principal, o professor, merece atenção especial. Com apoio, valorização e infraestrutura, será mais fácil enfrentar os desafios que batem à porta dos mestres numa sociedade em constantes e aceleradas mudanças. Carlos Eduardo de Oliveira Klebis, professor e supervisor de ensino na rede pública de Valinhos, SP, ajuda-nos a refletir sobre a relação entre professor e aluno e nos diz por que “Ser professor é interessante”.

Mundo Jovem: Para a escola e o professor, é importante perguntar quem é o aluno?

Carlos Eduardo: Acho que esta é uma pergunta que muitas vezes as escolas não se fazem. “Quem é o aluno?” é uma pergunta que tem que ser feita não só de forma genérica, mas em cada sala de aula, em cada região do País, em cada realidade social diferente, porque essas pessoas são diferentes. Às vezes os próprios materiais didáticos de ensino não se questionam sobre isso. Assim, muitas vezes percebemos que há um descompasso entre o que a escola oferece e o que de fato é a cultura com a qual esses jovens estão mais em contato. Não se pergunta do que ele gosta, o que ele escuta, quem ele é.

MJ: Então os currículos devem considerar a cultura dos jovens?

CE: A singularidade do ser humano está expressa em qualquer faixa etária. É preciso que professores e escolas procurem definir melhor de que maneira abordar a cultura desse jovem e como usar isso para construir pontes entre aquilo que a escola pretende e aquilo que o sujeito deseja ou espera da escola.

Muitas vezes, no Ensino Médio, temos uma sensação de que é possível aprender quase tudo, e o jovem se percebe como alguém que ainda não sabe muita coisa, mas que é capaz de aprender qualquer coisa, desde que tenha acesso a isso e se interesse por isso. Mas os interesses são muitos. E quando a escola “decola”, quando ela se separa da vida cultural dessas pessoas, ela se torna um espaço artificial. Trabalha conhecimentos que não são percebidos pelos jovens como conhecimentos que se conectam com a sua vida cotidiana ou com o seu universo de interesses, de expectativas.

MJ: Mas os conteúdos podem ser adaptados para cada realidade de forma diferente?

CE: O que ensinar é uma coisa predefinida culturalmente, nós temos uma matriz curricular do Ensino Médio. Mas há certas coisas que não estão nessas matrizes e são demandadas pelos jovens, coisas que eles querem conhecer e conversar.

O currículo deve ser permanentemente revisto. Ele não pode ser estático, fixo. Ele não pode também ser construído somente em função do mercado de trabalho ou das expectativas da universidade. Ele tem que ser construído em cima de uma proposta da formação humana. Se pensarmos em função do mercado, o mercado vai começar a ditar o que a escola tem que oferecer. Tem muita coisa importante para a formação humana que não é importante para o mercado e vice-versa.

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MJ: E os aspectos metodológicos?

CE: Percebemos que os professores no Ensino Médio, especialmente no primeiro ano, muitas vezes recebem alunos que são desconhecidos até na própria escola. Porém, o planejamento é feito antes da chegada desses alunos. Por exemplo, em Literatura, os textos geralmente são escolhidos em função daquilo que é mais fácil, do que já foi trabalhado; o mesmo texto e da mesma forma. Assim, perde-se uma oportunidade muito importante de conhecer o que os alunos novos estão trazendo, o que já leram, o que gostariam de ler, que tipo de história, quais assuntos estão pulsantes nos seus discursos.

Com essa metodologia de fazer planejamento anterior, em alguns casos o professor fica “amarrado”, ele acaba tendo que dar sequência ao planejamento porque é cobrado, inclusive, pela família do aluno. Pessoalmente, percebi que essa estratégia pode não dar certo. Já fiz um planejamento para alunos do 6o ano, que eu presumia serem alfabetizados, mas fui impossibilitado de dar sequência ao plano. O professor, às vezes, presume que o aluno já vem mais ou menos pronto. E daí, obviamente, não há projeto que se sustente apoiado num plano virtual, concebido à revelia daquilo que realmente é a cultura da qual esse jovem participa.

MJ: Na relação entre professor e aluno, o que é importante?

CE: O professor tem que ser educado. Se o aluno está tendo uma atitude inapropriada e o professor reagir com gritos ou expulsão, o aluno detestará cada vez mais o professor. Porque o aluno não tem maturidade suficiente para perceber que aquele gesto tinha o objetivo de fazer com que a sala toda prestasse atenção e aprendesse. O aluno toma como uma coisa pessoal: “O professor não gosta de mim, e, se ele não gosta de mim, também não vou gostar dele”.

A escola, que é um microcosmo da sociedade, tem certas práticas muito esquisitas. A expulsão, por exemplo: se o aluno apresenta problemas na escola, esta o expulsa. Não temos esse mecanismo na sociedade, não podemos expulsar pessoas. Penso que a escola precisa achar uma forma de lidar com esse aluno. O professor que tem uma boa relação com os alunos é aquele que procura dialogar com eles. Se houver um fechamento, as coisas tendem a piorar. Então, eu acho que ler livros, discuti-los, deixar os alunos falarem, é importante. É importante ouvir para também ser ouvido.

MJ: Como professor, quais foram os aprendizados que te marcaram?

CE: Os alunos trazem coisas novas — músicas, leituras —, que são objeto da cultura contemporânea e pouco me interessariam se não fosse por essa relação. E como eles têm uma relação muito forte com essas coisas, eu preciso conhecê-las. Conhecer o que estão vendo e complementar que aquilo tem relação com outras coisas ampliam, enriquecem a forma como eles vão ler aquilo daí pra frente. O professor tem que ter uma abertura de querer aprender também.

O professor de Ensino Médio, por exemplo, tem que entender de música e de artes, de um modo geral, que são atrativas para essa faixa etária. Tem que procurar entender um pouquinho os posicionamentos políticos e ideológicos, as questões de relacionamento dessa faixa etária para poder dialogar com eles, para poder, inclusive, quando solicitado, conversar e aconselhar. Ninguém procura conselho com alguém que está totalmente distante.

Muitas vezes o amigo que procuramos é aquele que nos compreende, porque partilha o nosso universo cultural de forma mais abrangente. Agora, o professor que fica lá, distante, no seu pedestal e que minimiza o drama que o aluno está vivendo — se o aluno está chorando por causa de namorado, por exemplo — precisa compreender que aquela pessoa está passando por uma fase dolorosa, emocionalmente complicada. O professor deveria ter a sensibilidade de conversar sobre essas questões de forma respeitosa, generosa.

MJ: É um relacionamento bem familiar?

CE: Uma criança não precisa ser infantilizada. Um adolescente não precisa ser negligenciado e infantilizado também. A postura artificial não é bacana. É legal o professor realmente se preocupar com as questões que o jovem traz e conversar com ele de forma franca, como alguém que já foi jovem e já passou por algumas situações semelhantes. Hoje, existem outros elementos que o professor precisa conhecer para compreender melhor o jovem. Conhecer as redes sociais, como os jovens se relacionam através delas, o que elas trazem de bom, o que pode ser problemático…

A escola é um espaço de informação. Mas não é só isso. É um espaço também para uma abordagem sensível, que faz com que se “quebre o gelo” e aproxime as pessoas.

MJ: Os professores têm que se “contagiar” para trabalhar numa mesma visão dentro da escola?

CE: Se a equipe de professores se fortalece num comportamento acomodado ou insatisfeito, quando aparece um professor que mantém o entusiasmo e começa a puxar um e outro, isso começa a se tornar positivo e contagia os demais. Em qualquer relação social, quando encontramos uma pessoa que produz ideias, que se envolve com as coisas, que faz e acontece, nos empolgamos também e procuramos assumir uma postura de apoiar e de ajudar.

 

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