Edição 54

Matérias Especiais

A escola dos meus sonhos

Nildo Lage

 

A escola dos meus sonhos não é a maior do mundo, edificada no centro de um bosque verdejante, com pássaros encantadores, riachos de águas cristalinas…
nem de paredes com matizes, com desenhos fascinantes… um gigantesco parque de diversões para brincar com os meus colegas na hora do recreio…

A escola dos meus sonhos não é abarrotada de computadores com jogos emocionantes, equipada com um moderno laboratório de pesquisa… nem um ambiente onde eu tenha liberdade para fazer o que quero ou estudar somente quando sentir vontade.

A escola dos meus sonhos é bem grande, tão grande que atinge a dimensão das minhas curiosidades, os moldes das minhas necessidades de crescer…

A escola dos meus sonhos… é um espaço acolhedor, onde eu me sinto bem em estar, sou recebido com carinho, respeitado como cidadão… uma escola que me ajuda a dar asas ao meu desejo de aprender, que proporciona condições para desenvolver o meu potencial e oportunidades para expor minhas ideias… para aprender errando, discutindo… para encontrar nos estudos a estrutura para evoluir, ser alguém, ter o meu lugar na sociedade, no mundo…

A escola dos meus sonhos não tem muralhas com cerca elétrica, alarmes, câmeras, janelas com grades, professor de disciplina para me monitorar nos intervalos, docentes estressados… A escola dos meus sonhos… não tem gestor ditador nem aplica conteúdos que não me ajudarão no meu crescimento humano.

A escola dos meus sonhos… retém valores necessários à formação do cidadão crítico, do profissional atuante e não é uma instituição que me trata como robô com manual de instruções para me encaixilhar nos protótipos de uma sociedade deformada, carente de denodos e desprovida de princípios.

A escola dos meus sonhos… não me proporciona diversão, mas me dá regozijo por fazer parte do seu quadro, e esse quadro é complementado por professores que cumprem as suas funções de compromissados com a Educação, por gestores que exigem que os conteúdos aplicados transformem informações em conhecimentos; esses teores servem de base, de referência para me proporcionar um futuro promissor.

O despertador dos fatos dispara, é hora de cair na real e, acordado, com os olhos bem abertos, vejo que a escola dos meus sonhos é um mito simplesmente, um devaneio daqueles que acreditam que aplicações financeiras e força política conseguem edificar a escola ideal.

Essa utopia pode até mudar de tom, de cor, de formato… se aqueles que fazem Educação decidirem amenizar o clima de tensão e fizerem da escola um ambiente de inclusão, de formação de cidadãos através da aplicação de conteúdos que exalem valores e princípios.

A escola que temos é um terrível pesadelo para o sistema de ensino: violência, descaso… repúdio. A escola que deveria proporcionar bons sonhos está se convertendo num marasmo para muitos, pois lutas sanguinárias estão se tornando rotina; desrespeito, abusos impostos pelos dominantes são cada vez maiores. Já os investimentos para a melhoria no salário dos professores, as capacitações, os fomentos de programas, a adequação dos prédios têm um progresso lento, sustentando um dos mais baixos índices das Américas, pois, cada vez mais, a escola se distancia do objetivo de proporcionar uma educação transformadora.

Mas o sistema sonha, sonha… sonha tanto que chega ao delírio de entrar em cadeia nacional para mostrar suas peripécias e dizer que a Educação “vai bem, muito obrigado!”.
Infelizmente, a nossa educação é avaliada pelas cifras investidas, e não por meio de dados que salientam avanços.

A resposta ao descaso está ao nosso alcance. Basta voltarmos o olhar e fazermos um paralelo entre a escola de hoje e a do século anterior para entendermos as evoluções na Educação. Assim, vislumbraremos um progresso imperceptível, apenas com o acréscimo de poucas ferramentas, como o uso das tecnologias — computador, internet, TV, pen drive —; com o livro didático, que nem sempre atende às expectativas de professores e alunos — mas que recheiam as escolas —; com algumas melhorias no espaço físico; e com o professor, que perdeu autonomia.

As técnicas, os métodos e a postura são os mesmos, foram apenas pincelados para mudarem de cor, de nome, pois os “fazedores de Educação” se prendem às teorias do “seu sicrano” e do “seu beltrano”, que não dão tempo para analisar o aluno, que, arremessado do seu universo, vê-se perdido no planeta “sala de aula”, consciente de que teorias são importantes, mas a vida daqueles que buscam na escola uma formação não é uma fórmula pronta, com estética para se encaixar num molde universal.

Esses fracassos são alertas de que é preciso rever as tendências educacionais que dão nós na cabeça dos educadores preocupados com aqueles que passam parte da vida na sala de aula para fortalecer suas bases; muitos chegam ao abandono por não encontrarem auxílio nas dificuldades.

Leitura de mundo, desacertos da vida: culpa das tendências?

Educar requer maturidade, buscas, pois não existe fórmula mágica. Teorias são simplesmente teorias, e muitos, principalmente coordenadores sem paixão pelo seu trabalho, tentam encaixar a escola nesse molde disforme, muitas vezes ultrapassado, impondo que professores sigam essas tendências, permitindo que o ranço continue impedindo o avanço.

Como o milagre da atuação do Conselho Escolar não acontece, a proliferação dos problemas se intensifica, fazendo com que a responsabilidade dos órgãos competentes passe longe dos corredores da sala de aula, que, com a perda de autonomia do professor e o alastramento da indisciplina, está se tornando uma atmosfera cada vez mais difícil de respirar.

O mundo evoluiu numa velocidade tão alarmante que a escola se distancia da sociedade e se perde pelos caminhos que antes acreditava serem trilhas seguras; a escola de paredes e grades está perdendo terreno para a “escola da vida”. Seus atrativos são fantásticos: portões amplos, corredores iluminados e mestres com “habilidades e competências” para transformar seus alunos em doutores na arte de ser delinquentes, pois a tradicional continua estagnada no tempo, com técnicas e princípios que não educam, e, mesmo com os avanços da ciência, que buscam caminhos alternativos para sanar problemas emergentes, estamos distantes de termos uma educação que cumpra metas para que a escola atinja as suas funções sociais.

A explicação de tantos fracassos chega a galope, pois os acontecimentos transitam por corredores, pátios, salas… e não é preciso mergulhar no tempo para entendermos: há
pouco mais de uma década, pedagogos e psicólogos eram os senhores que retinham as teorias e técnicas educativas. Atualmente, simplesmente coordenam um grupo de formadores de opinião que não assimilam a dimensão da responsabilidade diante daqueles que passam por sua regência.

Como a nova moda determina que ninguém retenha o saber — pois cada um tem a sua participação e a capacidade de construir o próprio conhecimento —, na maioria dos casos o pedagogo é nada além de um conselheiro com velhas ideias em constante conflito com educadores, que, por estarem no mesmo nível de escolaridade e de estabilidade profissional, não admitem ser guiados como marionetes.

As tradicionais Atividades Complementares (AC) acontecem sob o olhar de uma supervisão que sabe o que quer e como o professor deve atingir suas metas. Esse conforto não instiga a abertura de novos caminhos, e essas divergências tornam-se a pedra fundamental dos confrontos, das discórdias, dos descumprimentos de propósitos, o que impede os progressos. E, com o surgimento de novos especialistas no campo educacional, deu-se início à corrida para entender a febre das tendências.

No novo contexto que visa à qualidade, um dos maiores desafios é ser supervisor, pois a missão de administrar problemas e transformá-los em soluções exige mais do que idealismo. É preciso assumir a responsabilidade de direcionar trabalhos pedagógicos, motivar um corpo docente acostumado a sentar à espera das atividades prontas com ideias que abram passagem para integrar a escola à sociedade e, através desse intercâmbio, fazer com que a unidade de ensino atinja as metas sociais, políticas e econômicas da Educação. E a imposição política de colocar os “protegidos”, mas despreparados, educadores? Onde entra?

Na fase de estruturação, alunos, professores, governo e pais não falam a mesma língua. E cada um tem um pretexto convincente para explicar o não cumprimento dos seus deveres. O mercado de trabalho está recebendo profissionais despreparados e terá que capacitá-los para garantir a qualidade de seus serviços e produtos para não ser esmagado pela concorrência.

Ante o desequilíbrio, a escola se depara com dificuldades para cumprir o seu papel na aplicação dos valores humanos, pois, mesmo inserida nesse contexto, lança barreiras que a impedem de atingir seus objetivos. Jamshed Bharucha, Doutor em Psicologia Cognitiva pela Universidade de Harvard, dos EUA, tocou na ferida, despertando o sistema de ensino para uma nova era na arte de ensinar, pois demoliu mitos: “Quanto mais aprendemos sobre como nosso cérebro processa e armazena novas informações,
mais descobrimos que nosso sistema educacional está errado”. Essas descobertas instigaram novas pesquisas e estudos, nos quais filósofos, pedagogos e psicólogos entendem que a sala não é o único local de aprendizagem. É preciso levantar da arteira, abandonar o lápis e o caderno, ultrapassar o portal e explorar as fontes que jorram a cada passo como técnicas infalíveis.

Mas conduzir a escola por um caminho que atenda às necessidades, em meio a um furacão de instabilidade, é realmente um sonho que se torna cada vez mais distante de se realizar, pois educar uma sociedade deficiente de valores exige uma escola que descarte teorias frívolas, conteúdos evasivos e métodos ultrapassados através de reformas condizentes às necessidades da clientela.

Enquanto a escola permitir ser administrada sob interesse político-partidário e a Educação continuar com professores desmotivados e descompromissados com o ofício de ensinar, a escola dos meus sonhos continuará a ser apenas um sonho.

Sonho que muitos não tiveram força para realizar e foram arremessados para outro mundo sem ter a oportunidade de vê-lo concretizado, como o incansável Freire… “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo e torná-lo sério com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a Educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

Gestão Escolar: sem valores ou sem alternativas?

Se perguntarmos quais os ingredientes da escola ideal, com certeza iniciaremos uma contenda acirrada entre alunos, professores, governo, sistema de ensino, gestores e especialistas em Educação. Os olhares diferenciados conduziriam a escola por caminhos distintos, uma vez que alvos e propósitos dispersariam os verdadeiros objetivos da escola, pois sonhos adversos submergem nos conflitos administrativos, nas lutas daqueles que tentam fazer a diferença e são interrompidos no meio do caminho.

O sistema sonha com uma escola onde o aluno não necessita ser domado nem punido, na qual o professor seja um ícone capaz de transformar vidas nas suas dependências…
Dependências que são comandadas com mãos de ferro por um preceito denominado governo… Nessas garras, a Educação se debate, esperneia e devaneia em uma escola tecnológica, mas a realidade exibe outro enredo, no qual os alunos ainda não têm conhecimento nem do que é energia elétrica em pleno século da tecnologia, quando a energia solar ilumina os pontos mais isolados do planeta, mas, num país tropical, onde o sol, fonte inesgotável de energia, brilha o ano todo, ela não é utilizada. Esses transeuntes passam por suas dependências, alheios ao próprio tempo e inconscientes
do que buscam.

Os dados são tão alarmantes que uma pesquisa está sendo desenvolvida para medir o Índice dos Valores Humanos – IVH, a fim de averiguar a que ponto estamos permitindo que a nossa essência se esvaia levando deveres, direitos… a própria responsabilidade pela vida, na corrida desembestada para conquistar divisas e acompanhar os passos do progresso.

Como edificar a escola dos meus sonhos?

Sabemos que não existe, e dificilmente existirá, a escola perfeita. Tudo que pode ser feito é converter esse ambiente num espaço de inclusão, mas fazer da escola uma área de inserção, transformadora de sonhadores em cidadãos construtores.
É uma missão difícil, pois é vista da ótica de três especialistas que raramente falam o mesmo dialeto — gestores, professores, alunos — e intermediada por uma política especializada em abrir abismos e lançar barreiras.

Os gestores com visão crítica, na maioria das vezes nomeados pelo sistema, acreditam que um decreto proporciona poderes para resolver os problemas mais delicados da escola e, à sua maneira, fazem mudanças, ajustam falhas, pois, no olhar de gerente, atingir a meta “qualidade” é manter o índice do Ideb almejado e reduzir as reprovações. Cumprindo esses intentos, acreditam estar administrando a escola dos sonhos, ou melhor, realizando os sonhos daqueles que buscam números como sinônimo de qualidade.

Já os professores — peritos em insatisfação, uma vez que nunca estão satisfeitos com salários e condições de trabalho — edificam a escola com salas digitalizadas, onde distribuir apostilas, livro didático, papel, lápis, borracha, caneta, escrever fórmulas no quadro são coisas do passado… não lhes pertencem mais.

Como o alvo é a comodidade, a praticidade, a escola dos meus sonhos deve, no mínimo, facilitar a minha vida, com salas informatizadas, com avaliações elaboradas pelo aluno
no computador individual e com notas transferidas instantaneamente para o seu pen drive, que, ao ser inserido no PC, informará a média de cada um através de um revolucionário programa.

As dúvidas? Os alunos deixam no link da escola ou no seu e-mail alternativo. Mas o maior obstáculo de quem põe a mão na massa, além dos salários e das condições de trabalho, é a “perversa” política. Gostariam que influenciasse na Educação de forma positiva, e não através de atitudes que, na maioria das vezes, salientam abuso de poder.

Com tantos impedimentos, a escola futurista não evolui em tempo real para acompanhar os passos de uma sociedade cada vez mais eletrônica, cuja placa-mãe armazena dispositivos que atraem o futuro a cada reset(ada) do tempo. O seu progresso é tão lento que ainda não conseguiu se livrar sequer do quadro de giz. Daí as dificuldades para inserir as tecnologias de ponta disponíveis para o sistema de ensino, pois, em plena era digital, computador e Internet ainda são bichos estranhos para muitos professores, que, sem intimidades com esses “monstrengos”, se ajeitam como podem para ludibriar seus alunos, colocando remendo novo em tecido velho.

E o maior interessado, o aluno? Sem ele não tem salário, não tem escola… Como é a escola dos sonhos na visão de quem a busca como esperança de uma vida melhor?

No raio X do aluno, a escola tem tantos obstáculos que é mais fácil dizer o que não quer para que se aproxime do que almeja. O primeiro item é se desfazer do código penal: Transtorno do Professor Estressado – TPE, aquele que já entra na sala advertindo, esbravejando, como se o ofício fosse a razão da sua infelicidade, e sai sem explicar o conteúdo, anunciando uma avaliação na aula seguinte com ar de “senhor da verdade”, a ponto de se achar no direito de punir com um ponto a menos simplesmente porque aquele aluno encontrou dificuldades para elaborar a pesquisa nos padrões exigidos. Salienta-se outro grave problema: a avaliação. As notas são “distribuídas” pelo volume de informações, e não pelo que o aluno absorveu de determinado conteúdo.

Essa sentença abala o otimismo, afeta a motivação, restringe os horizontes da aprendizagem, mantendo alunos perdidos na sala de aula à procura de respostas, obrigados a responder o que não lhes convém e a cumprir normas inexplicáveis.

E finalizaria com uma escola com professores que pelo menos ouvissem a voz dos alunos sem questionar sua cultura, sua religião, seu jeito de ser, como se tudo em sua vida estivesse errado, fora do lugar, que ensinasse com liberdade, e não os punisse com injustiça para despertar o prazer de estudar.

Para isso, é preciso colocar o aluno no centro do universo, para protagonizar o enredo “aprendizagem” com a responsabilidade de construir a base ambicionada para sua vida pessoal e profissional. É nesse momento que o professor-investigador, que impele, provoca o seu aluno a ir além, deve definir ações através de projetos reais, em que transformar realidades seja mais importante do que o ato de ensinar e repassar experiências.

Professores carentes de sonhos, sociedade carente de valores…

Infelizmente, nossas escolas estão repletas de professores carentes de sonhos e barrotados de problemas e deficiências técnicas, pelo fato de o sistema não lhes proporcionar subsídios, e muitos não dispõem do kit básico, denominado ética, para que a democracia respire nesse ambiente e possa amenizar o clima entre gestores, educadores e alunos, que se encaram como rivais.

Essa incapacidade de sonhar de muitos asfixia a própria sensibilidade de se tornarem mediadores eficientes, e isso os impede de evoluir para atingir o nível de educadores, como sonha Frei Betto: “Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a história do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas”.

O sistema se preocupa em edificar escolas modernas, com aparências futuristas, mas não vislumbra que escola contemporânea é aquela que, de olho no amanhã, ajusta as falhas do ontem sem perder o contato com o hoje e que esse espaço é ministrado pelo humano cognominado professor, que necessita de capacitação, motivação, respeito, equilíbrio, autonomia e suportes técnico e pedagógico para aplicar uma boa aula.

Somente assim as muralhas e as grades serão lançadas por terra. A escola assumirá a sua função social e cumprirá a missão de formar cidadãos providos de valores, pois será
um corpo livre de influências político-partidárias, pessoais, preparada para absorver informações e repassá-las àqueles que a frequentam com a esperança de construir um mundo melhor através do conhecimento adquirido, pois a sociedade será formada por cidadãos coerentes, suprindo deficiências dos tempos modernos, como a violência e o desrespeito com o outro.

Mas educar em tempos hodiernos requer educadores humanos dotados de ideologias para que possam contextualizar o ensino na sociedade do consumo. Algumas escolas são tão carentes que falta até Plano Político-Pedagógico para que os trabalhos tenham um direcionamento e ganhem cunho educacional.

Onde estamos errando?

Será na lei da estabilidade que resguarda professores estáveis, e, por isso, muitos não cumprem as metas com seus alunos? Será no sistema de ensino que se mostra incapaz de gerir problemas, permitindo a proliferação da violência, da indisciplina no ambiente escolar? Será nas faculdades e universidades, que não prepararam os seus alunos para enfrentarem os desafios da profissão e, ao assumirem uma sala de aula, repassam métodos do tempo de escola que, nesse intervalo, permaneceu estagnada?

A passividade da escola é de uma dimensão espantosa diante dos problemas sociais, comportamentais e éticos, pois a escola dos meus sonhos se prende a um discurso pedagogicamente correto e pratica ações grosseiramente incorretas, a ponto de ser injusta: não cumpre metas, não busca alternativas e, como na política, nela imperam as falácias, pois há um medo de tomar resoluções drásticas e provocar mudanças.

Como não existem ações que eduquem, cai nas garras da indisciplina, da violência… das jogatinas internas… provocando tamanha desordem que o desrespeito ganhou proporções que levam ao vandalismo… a depredações… transformando o ambiente escolar num cenário desolador.

As consequências desse descaso recaem no alvo mais vulnerável: o aluno, e é lastimável encarar uma turma do quarto ano que, para somar dois mais dois, é preciso pedir auxílio aos dedos… Não lê, às vezes consegue escrever no quadro, mas não lê o que escreve.

O alemão Friedrich Froebel, criador dos jardins de infância, foi um dos maiores defensores de um ensino sem coações, por acreditar que:

“A Educação é o processo pelo qual o indivíduo desenvolve a condição humana, com todos os seus poderes funcionando em harmonia completa, com relação à natureza e à sociedade. Além do mais, era o mesmo processo pelo qual a humanidade, como um todo, elevando-se do plano animal, continuaria a se desenvolver até sua condição atual. Implica tanto a evolução individual quanto a universal.”

é preciso edificarmos essa escola, para desmoronar um sistema falido, ignorar as utopias para suprir a carência de profissionais responsáveis, éticos, educados, honestos e atrair para a sala de aula ferramentas que eduquem por meio de métodos que não excluam; com educadores conscientes do seu papel transformador de pessoas, não de mundo, pois o mundo está em constante processo de transformação, e seu aluno é mais um com trajetória traçada. Para que essa trajetória seja direcionada para um caminho de vitórias, é preciso que a Educação prepare humanos para acompanharem essa metamorfose; de gestores que façam da escola “tecnológica” um local de acesso desejado e de administradores que não usem a escola como cabide de emprego para cumprir promessas políticas.

Todos os envolvidos no sistema educacional têm consciência da sua responsabilidade e de que é necessário fazer mudanças emergenciais para sairmos do caos. Mas têm medo de mudar, de mexer na ferida, nas práticas, nos métodos, nas tendências… Na verdade, é preciso mudar quase tudo para que a escola se aproxime do mínimo de que a Educação necessita para cumprir o seu papel.

Essa realidade é nada além do resultado de uma Educação que não evolui, pois séculos após séculos se debate na edificação do saber com fórmulas concluídas, pois essas não conseguem abrir mão dos dogmas que dificultam a construção de um conhecimento que amplie os horizontes do educando. O mínimo que se atinge é uma formação que não
chega a promover o desenvolvimento de habilidades.

Com o olhar no futuro e os pés no passado, a escola dos sonhos não tem ritmo para acompanhar os passos de uma sociedade capitalista que tem ambição de sair do lugar-comum para não ser espezinhada pela globalização. A obsessão de atingir esse objetivo a impede de formar cidadãos autônomos, conscientes das suas responsabilidades na sociedade, preparados para arrostar os desafios do mundo, e isso exige uma escola que eduque para a vida, e a que temos impele seus alunos para a escola da vida.

Essa mudança só irá acontecer quando a escola dos sonhos cair na real, através de gestores responsáveis e conscientes do seu papel de mediador; quando o governo deixar de encarar a Educação como obrigação do Estado, que investe a sua cota acreditando que está fazendo tudo; quando o professor deixar “cair a ficha” de que repassar informação é pouco, é preciso assumir o desafio de ensinar com responsabilidade profissional; quando pais perceberem que Educação não é apenas aprender a ler. Educação é a junção dos elos de valores, princípios… Gerados especialmente no seio da família. Valores que devem ser resgatados e inseridos no contexto educacional para fortalecer a formação humana, e não para delegar à escola a responsabilidade para educar o seu filho.

O que impressiona é que o olhar do sistema entrevê uma evolução inédita, um salto tão culminante que surpreendeu o próprio Ministério da Educação – MEC, que chegou a apresentar gráficos ressaltando a redução da distância das aplicações entre o Ensino Superior e a Educação Básica, salientando o acréscimo do Investimento Público Direto por Estudante.

Os números deixaram o Governo eufórico, impelindo o nosso presidente a acreditar que tais aplicações transformarão o Brasil numa potência econômica. “Nós temos o compromisso de entregar novas 214 escolas técnicas. Nós vamos chegar a 354 escolas técnicas no Brasil, o que é importante, mas ainda é pouco diante das necessidades que o Brasil tem de investimento na Educação, sobretudo no Ensino Médio.

Entretanto, uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas – ONU,salientou que o Brasil desceu 12 posições no ranking: caiu de 76º para o 88º lugar entre 128 países. Eu penso que isso vai dar um avanço extraordinário na formação da nossa juventude”, garante o presidente Lula, o homem que faz.

Esses números são inquietantes, pois os critérios da pesquisa mostram que o índice que mede a estrutura em que as crianças chegam à quarta série — ou quinto ano — desabou mais de 5% entre 2005 e 2007, provando que, mesmo com os investimentos, a qualidade do nosso ensino está desacelerando.

Nessa constante marcha à ré, o Índice de Desenvolvimento Educacional – IDE, mostra que o Brasil assumiu um dos mais baixos níveis entre os países do Mercosul. Pegando uma carona na fala de Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”, pois esse quebra-cabeça armado pela jogatina dos números Governo x Sistema de Ensino contradiz as pesquisas que apresentam dados de que, mesmo o Governo dando prioridade à Educação, os investimentos não acompanham o crescimento econômico, e essa defasagem está levando o País a um patamar que preocupa todos os envolvidos na Educação, pois a escola não consegue reverter esse quadro para despertar a Educação do pesadelo da repetência.

Como aparência é tudo e relatórios bastam, a escola dos meus sonhos continua imponente para o País, mas imergida no seu inferno de problemas, debatendo-se com dificuldades para desobstruir barreiras. E se o sistema quiser avançar, terá que arraigá-la desse mar de desordens e edificar escolas reais sobre bases de valores inerentes à formação humana e adotar mecanismos capazes de transformar problemas sociais, políticos e familiares em alternativas para atrair denodos e transformar seres humanos.

É emergente abrir os olhos desse sistema que só evolui ante a ótica do Governo, para reencontrar os valores da Educação desraigados através do tempo, pois, somente assim, conseguiremos nos livrar da cegueira da ignorância. E isso só acontecerá quando resolverem educar com responsabilidade, pois ainda não chegaram à ilação de que um país sem educação decente não pode ser considerado uma nação, mas uma fábrica de marginais. E, por incrível que pareça, a fábrica de marginais evolui com tamanha agilidade que o cidadão está sendo educado para não reagir e para obedecer ao toque de recolher dos malfeitores que adotaram uma técnica educativa fatal: a violência.

Essas deficiências estão transformando o Brasil num país de marginais. Marginais que dão ordens à própria polícia, ditam regras aos cidadãos e reprimem através de terror. Terror absorvido no submundo de uma sociedade de direitos, em que deveres não existem, evidenciando a eficiência da escola da vida, que supera as necessidades deixadas pelas falhas da escola tradicional que não forma.

Apesar de admitirem que ninguém consegue crescer sem uma estrutura e que a Educação é a base que sustenta o homem pelo sinuoso caminho da realização, permitem que a essência da Educação se esvaia, desconhecendo que o conhecimento para mudar a vida é o mesmo que todos buscam para mudarem de vida.

Para atingir essa meta, gestores, administradores e até educadores que têm a escola privada como seu “porto seguro” para garantir um futuro promissor aos filhos devem direcionar um olhar para a escola pública e deixar de encará-la como um problema sem solução, com a apologia de que “fiz a minha parte, o resto que se dane!”.

Para que isso não aconteça, deve-se impedir que o vírus das influências políticas que infectam o ambiente escolar prolifere e a única política que predomine seja a educacional, exercida por gestores que ambicionam melhorias, que exigem o cumprimento de metas, e que essas metas sejam a garantia da estabilidade de professores que não têm interesse de se darem ao luxo de serem titulados de educadores. Somente assim atingiremos os propósitos da Educação: a formação humana
e, a partir daí, a escola dos meus sonhos começará a ganhar formato, tom, cor, vida, existência… Nessa evolução, aprender a aprender talvez seja o maior desafio daqueles que necessitam fortalecer as estruturas com a consciência de que ensinar é instruir, para, assim, educar para a vida.

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