Edição 61

Reunião de Pais e Mestres

A escola que desejo para o meu filho

Ricardo Lengruber Lobosco

Educação é, para muitos, sinônimo de trabalho escolar, de aulas e de recursos bem elaborados. Penso diferente. Educação é o que transforma o ser humano no que ele deve ser. Somos humanos porque transcendemos o universo da natureza e mergulhamos no mundo dos sonhos. Sim, somos humanos porque sonhamos, porque imaginamos, porque conseguimos construir mundos inteiros sem dar um passo. O que nos difere dos animais não é, simplesmente, a capacidade racional. É, isto sim, a possibilidade de, pelo uso da razão e dos sentidos, transformar o mundo que nos cerca e fazê-lo nosso, totalmente diferente, segundo nossas necessidades. Isso é cultura. Isso é Educação.

Educação é, por causa disso, o conjunto de ações que favorecem o despertar dessa qualidade exclusiva dos seres humanos: a criatividade. Qualquer coisa que não promova a criação não é Educação.

Vale, assim, pensar a Educação que usufruímos no cotidiano escolar. Aprendemos Língua Portuguesa porque queremos nos expressar melhor e, por intermédio do que há de mais sofisticado na cultura humana — a linguagem —, transformar nosso mundo. Porém, preferimos os substantivos, os verbos, as orações, as regras e as ortografias em detrimento da leitura desinteressada. Valorizamos mais procurar “o que o autor quis dizer” do que apreciar Lobato como quem ouve Brahms ou Villa-Lobos.

Aprendemos Matemática e Ciências porque consideramos razoavelmente importante transitar bem no arraial dos números. Mas, mesmo os engenheiros mais bem formados e dedicados visceralmente à sua ciência, não usam as “equações do segundo grau” como fazem os alunos nos bancos escolares, que só usam caneta, papel e memória dilatada para saber fórmulas sofisticadas. Porque são responsáveis e inteligentes, usam calculadoras e computadores, que, aliás, são resultado dos inteligentes sonhos humanos. E não erram. Fico imaginando um projetista de estruturas prediais errando seus cálculos por puro preciosismo acadêmico, em vez de entregar-se aos benefícios da tecnologia moderna.

Aprendemos História e Geografia porque queremos compreender melhor nossa sociedade. Mas parece minimamente estranho saber o nome dos afluentes da margem direita e os da margem esquerda do Amazonas. Ou, por exemplo, saber o ano em que nasceu Tiradentes. Ou, ainda, a diferença entre um monte e uma montanha. Prefiro acessar a Internet ou ler enciclopédias atrás desses conhecimentos acumulados pelo tempo. Esses recursos são mais competentes do que a maioria esmagadora da literatura didática. Na escola do meu filho, prefiro que se desenvolva sua criatividade ou, ao menos, não a impeçam de florescer. Curiosidades amenas — se assim desejar —, ele as buscará por conta própria.

Creio que o problema esteja no currículo escolar. O engessamento das disciplinas proíbe qualquer voo mais ousado. Apesar da boa vontade e criatividade dos bons mestres, fica praticamente impossível permitir às crianças que descubram o prazer que há na construção de mundos novos. Isso porque, na escola — tal como ela se nos apresenta —, não há essa chance. Ficou proibido construir possibilidades novas que comprometam o cumprimento dos “objetivos propostos no plano de curso”.

Da maneira como pensamos a Educação, está decretada a mediocridade humana. Ficaremos a meio caminho da vida como nos foi dada pela natureza e da vida como sonhamos. Permaneceremos estacionados.

O vestibular é a coroação suprema dessa mediocridade. Tudo gira em torno dele e para ele. Mas é preciso lembrar que vestibular não é assunto de Educação. Vestibular é problema político. Porque não há vagas para todos nas universidades, criou-se a perversa necessidade da avaliação.

O problema — ou a vantagem disso tudo — é que o ser humano não se acomoda facilmente. A vida aspira a subir mais alto e a mergulhar mais profundamente. Se não for a escola o lugar em que podemos encontrar tais possibilidades, o faremos fora dela: na rua, no cinema, na roda de amigos…

Queria que meu filho estudasse numa escola onde pudesse aprender as línguas dos outros, para compreender melhor seus semelhantes, por mais distantes que estivessem. Gostaria que aprendesse sobre o canto dos pássaros, para respeitar mais o mundo que o cerca e aprender a ouvir música de boa qualidade. Ficaria muito feliz com uma hora de contação de histórias divertidas que o levasse a visitar mundos imaginários. Adoraria saber que ele passou uma tarde inteira brincando enquanto ouvia o Quebra-Nozes. Eu me sentiria tranquilo ao saber que ele se interessou por culinária ou por jardinagem.

Acho que é isso. Em vez de ser o lugar onde se recebem informações, a escola do meu filho deveria ser a oportunidade de transcendência, de ser ele mesmo.

LOBOSCO, Ricardo Lengruber. A Escola em que  (Des)Acredito. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009.

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