Edição 88

Professor Construir

A experiência formativa pela literatura: uma tentativa de (RE)CONSTRUIR a docência

René Câmara

11_professorEm tempos de hipermodernidade, a experiência está em vias de desaparecimento. Há um colapso da existência! Como diz o filósofo alemão Walter Benjamin, em um mundo transformado pelas guerras mundiais, onde o “minúsculo e frágil corpo humano” se acha com toda a ostentação dos aparatos militares da guerra mecanizada, silenciamos o que somos, ou seja, pedra rolada, coisa descartada e tola.

No campo da Educação, essa fragilidade do humano está atingindo patamares nunca antes alcançados, sobretudo no que diz respeito à formação docente. Parece que há consenso, nos cursos de Pedagogia, em recorrer a técnicas e textos específicos, como os tratados universais da fealdade humana; as maneiras de domesticar crianças hiperativas, compulsivas e impulsivas; as novas formas de se tornar um professor-show; entre outros assuntos que não, necessariamente, refletem a realidade. No entanto, a leitura de textos literários por professores parece ficar deslocada da realidade e do contexto acadêmico; aliás, não sejamos ingênuos, claro que se usa — e abusa — da literatura com a finalidade de assimilar conteúdos, principalmente quando se trabalham os gêneros textuais e suas verborragias propedêuticas. Salientemos que, nos cursos de formação de professores, são trabalhados os textos literários e as características dos respectivos gêneros.

Um professor da Universidade de Barcelona, Jorge Larrosa, esclarece que, no campo educativo, existe uma falência dos discursos mais contundentes do pensamento pedagógico. Isto é, torna-se comum falar de Educação tomando como base os discursos advindos dos saberes “(des)concertantes” para a Educação, tais como a Psicologia e a Sociologia. Há outros campos e saberes educacionais que são formas de falar dos imbróglios da própria Educação e, com isso, apresentam um pseudoprocesso formativo. Nessa relação contextual, a literatura oferece à Educação uma nova maneira de falar das agruras educacionais, pois a literatura é um dispositivo potencializador de experiências formativas para os professores.

Os descolamentos existenciais das experiências formativas contribuem para uma despotencialização da ação docente. O professor Gonçalves Filho, no seu livro conciso e claro Literatura e Educação, esclarece que a literatura é oferecida, sorrateiramente, como um objeto de conhecimento ou como prática pedagógica, como uma estratégia aberta para educar o homem. No entanto, a literatura também oferece indagações sobre a vida e o cotidiano, ela nos forma e potencializa para sermos atuantes no mundo, objetivando indagações e ressiginificando a docência.

Literatura e educação: relações de um processo formativo

Questionamo-nos por que lemos, e as respostas, muitas vezes, esclarecem-nos das experiências das viagens por lugares desconhecidos, presença de pessoas queridas, desafios a serem enfrentados, dentre outros. Certa vez, um professor da Universidade de Yale, Harold Bloom, disse-nos que ler nos leva à alteridade, seja à nossa, seja à de amigos presentes ou futuros. Segundo ele, a literatura alivia a solidão. Lemos não porque, no dia a dia, jamais nos deparamos com tantas pessoas como através da leitura, mas, sim, porque constituímos laços fraternos e delicados que tendem a diminuir significativamente, a desaparecer em detrimento do tempo, das contradições amorosas e dos desafetos familiares.

Lemos para estar em contato com os sujeitos, para exercitar nossa necessidade de prazer em viver. Se a convivência humana tem seus percalços, também o encontro com os textos podem provocar sentimentos antagônicos de angústia e prazer, assombro e descontração. Queremos saídas para formar o sujeito através da literatura, e não salvar por ela. Certa vez, Italo Calvino afirmou que o grande desafio para a literatura é o de saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos em uma visão pluralística e multifacetada do mundo.

Corroborando com o argumento de Calvino, o grande professor Antonio Candido, em um estudo sobre a importância da literatura na formação do sujeito, analisa sua força na humanidade do homem, pensando sobre o papel da literatura. Candido vê nela, primeiramente, uma função psicológica, a qual responde à necessidade universal do sujeito de buscar ficção e fantasia, encontrando, na obra literária, a satisfação pela fruição do texto.
Esse envolvimento com o universo da narrativa literária conduz o leitor a uma maior compreensão de si e do mundo, à medida que descobre novos significados sociais. A experiência da leitura torna os sujeitos cada vez mais humanos, desenvolvendo a solidariedade, a capacidade de aceitar e compreender a existência de outros pontos de vista, além de nossas críticas sobre a realidade.

É assim que, através das obras literárias, tomamos contato com a vida, com os caminhos de Swann ou ficamos ligados intrinsecamente aos Josés de Drummond nas suas verdades, vivenciamos grandes veredas da vida sertaneja de Rosa, comuns a todos os homens e lugares, de modo que são verdades da condição humana. Isso favorece a articulação entre a densidade do que se manifesta em nossa subjetividade e os fatos que tecem o contexto social.

A literatura é fonte de sentimentos, meio de apreender o conhecimento, ampliar a consciência e repensar o mundo. Além de possibilitar ao indivíduo pluralizar sua visão de mundo, a se posicionar em contextos sociais diversos. Assim, a relação entre literatura e Educação se estabelece univocamente, porque ambas transmitem suas ideias e seus saberes formativos por meio da linguagem subjetiva e de uma maneira articulada de estar no mundo. Além do texto literário que está nos guiando, as intenções pedagógicas norteiam a magia poética da vida.

A literatura contribui para o campo pedagógico trazendo em sua essência propostas de acreditar que o contato com o universo das narrativas ficcionais pode levar o leitor a um nível maior de autoconhecimento, dotar-lhe de uma melhor expressividade verbal, além de promover uma percepção mais aguçada acerca de si, ressignificando suas práticas em sala de aula.

Nesse sentido, o professor é levado por suas inquietações subjetivas e indagações recorrentes da leitura literária como uma forma complementar e prazerosa de educar-se. Buscar descobrir saberes que possam responder às suas indagações, bem como agregar valores à sua natureza humana é dar-lhe contorno aos processos formativos que a literatura traz para a Educação. No universo infinito do literário, sempre se abrem caminhos a explorar, novíssimos ou bem antigos estilos e formas que podem mudar nossa compreensão do mundo.

Calvino, ao ministrar uma das seis aulas na Universidade de Harvard, analisa um possível lugar para a literatura no terceiro milênio. Ele disse que a arte literária possibilita olhar a realidade. Quando ela — a literatura — alcança seu esplendor, (re)produz a leveza que se perdeu na vida. Ela representa um universo que não é mais aquele do viver. Calvino continuava falando — por meio da filosofia grega — que o ser humano parece que é condenado ao peso. Não se trata categoricamente de saída para o sonho ou para a irracionalidade; é preciso mudar de ponto de observação, considerar o mundo sob outro prisma, outra lógica, outros meios de conhecimento.

A literatura colabora para a vontade de viver. É constituída por uma pluralidade de significados culturais, existenciais, bem como por processos de subjetivação que possibilitam nos refazer enquanto sujeitos/atores da História. Ezra Pound dizia que a literatura é linguagem carregada de significado, a literatura só é formativa quando ressignifica singularidades ao leitor.
O docente titular da cadeira de Semiótica da Universidade de Bologna, Umberto Eco, nos diz, em seu livro Sobre a Literatura, que a leitura das obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e de respeito na liberdade de interpretação. Não obstante, as obras literárias nos convidam à liberdade da interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem e da vida. Mas, para poder seguir nesse jogo, é preciso ser movido por um profundo respeito para a intenção do texto.

A educação pela literatura contribui para o sujeito experimentar novas formas e novos processos de subjetivação. O conceito benjaminiano de experiência atribui uma linguagem literária coletiva que permite intercambiar modos de viver mais experimentados, que desembocam num processo formador, um processo pedagógico.
Nesse sentido, como a experiência da leitura pode contribuir para ressignificar a docência?

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Experiência, leitura, docência: notas benjaminianas

As relações de Walter Benjamin com a docência não se encontram em uma teoria pontual da Educação, mas, preliminarmente, em uma reflexão curiosa acerca da infância na qual ele mesmo relata suas experiências pessoais com professores. No texto Infância em Berlim, ele apresenta a infância, a singularidade da criança que se revela através de suas fantasias, seus medos, suas frustrações, alegrias e brincadeiras.

Para Benjamin, lembrar a infância não é simplesmente reviver o passado, mas uma forma de renová-lo no presente, sobretudo quando as impressões retidas pela memória operam através dos sentidos e do choque traumático de algumas experiências.

Obviamente não podemos negar o papel da escola como socializador de memórias, no entanto o que o autor mostra é que a experiência está para além da instituição escolar; a verdadeira experiência não deve ser exposta à luz do mundo público, do mundo da escola, porém precisa de segurança e de privacidade para se constituir como tal. Assim, a dialética do conceito de formação e experiência permanece nas reflexões quando o narrador da experiência é um professor, cujo cunho pedagógico está no seu discurso.

Por mais familiar que seja a palavra narrador, não será possível dizer que este nos pareça estar presente na sua atuação real. É alguém já distante de nós e a se distanciar mais e mais. Apresentar um Leskov como narrador não significa, por isso, aproximar-se, mas, pelo contrário, aumentar a distância entre nós e Benjamin.

É nessa expectativa que compreendemos ser plausível garantir que a arte de narrar ainda persista na atualidade. O que Benjamim ressalta é que já não existem, nas sociedades modernas, as condições favoráveis que permitam a transmissão da experiência no seu sentido cabal. Nessa conjuntura, pensar a Educação supõe tratar o modo das experiências que estão inseridas no presente e aquelas que largamente se acumularam ao longo do tempo e que estão imersas na vida cotidiana das famílias, dos alunos, dos professores, situados historicamente e carregados de memórias.

Socializar a experiência docente significa colocar em evidência os vínculos que os professores mantêm com suas comunidades e classes sociais por meio de uma memória latente, pulsante, sobre suas compreensões sobre a comunicação que se estabelece no espaço da sala de aula ou fora dela. As pessoas, por natureza, protagonizam vidas cheias de histórias, enquanto os pesquisadores narrativos descrevem tais vidas, coletam e contam histórias sobre elas e escrevem narrativas da experiência.

A metáfora de escavar a memória pretende construir o presente. O registro de memórias proporciona compreender o modo de ser do indivíduo enquanto sujeito que construiu suas experiências em um contexto social, cultural, familiar, escolar e em outras instâncias que contribuem para o seu modo de ser, tanto em nível pessoal quanto profissional.

A experiência benjaminiana está voltada para o coletivo, desse modo a memória é uma tessitura em que caminha a lembrança por meio do presente, uma viagem que não se pode perder, pois, além de ser necessária, é fundamental para que possamos trazer à tona as conjecturas da nossa vida e do outro na história.

Diante disso, a reconstrução da experiência precisa ser acompanhada de um novo contorno de narratividade. Ao refletir sobre tal questão, a professora Gagnebin, no livro História e Narração em Walter Benjamin, afirma que há uma experiência e uma narrativa artesanal espontânea, originárias de uma organização social situada na vida comum, na qual se opõem as formas sintéticas de narrações. No Brasil, poucas são as pesquisas em Educação que se interessam em entender a docência como possibilidade coesiva entre o coletivo e o universal com a vida concreta e singular.
Observa-se que uma das grandes dificuldades da docência constitui uma carência de espaços para trocas experienciais singulares; um espaço no intuito de aceitar a dúvida e a incerteza como horizonte e perspectivas de um novo saber. Caroline Mitrovitch, na sua dissertação de mestrado, Experiência e Formação em Walter Benjamin, reforça a ideia de que a experiência, enquanto campo do indeterminado, do provisório, do subjetivo, foi expulsa da relação pedagógica, pois não há como identificá-la, narrá-la, portanto, comunicá-la. Era possível em um dado momento histórico em que as mãos, os olhos e o espírito mantinham uma integração entre si.

Em contrapartida, hoje, há uma proliferação de informações que alimentam uma transitoriedade efêmera do conhecimento. Mais do que isso, a centralidade da informação expressa formas complexas de dissolução dos laços sociais. Por isso, os estudos de Benjamin sugerem uma apropriação da função histórica das narrativas.
Tendo em vista que as experiências docentes estão atreladas às suas trajetórias de vida, devem-se apreender alguns aspectos na formação e na atuação profissional junto à comunidade escolar. Marie-Christine Josso, no livro Experiências de Vida e Formação, contribui para pensarmos que as experiências formativas constituem um percurso de vida que não pode ser desconectado dos discursos pedagógicos. A docência começa antes mesmo do processo de formação no curso superior, desdobrando-se durante toda uma vida na qual as experiências formativas vão erguendo as balizas da ação do professor.

Considerações finais

Nesse sentido, os professores são sujeitos que produzem uma experiência significativa sobre o seu trabalho a partir do conjunto de conhecimentos oriundos de diferentes espaços de formação e da reflexão sobre sua própria prática. Por exemplo, o saber experiencial como um saber interativo, complexo, prático, existencial, principalmente por influenciar na personalidade do professor, possibilita ao docente refletir de forma crítica a sua prática, na perspectiva de amenizar as dificuldades existentes, além de ser formado pela junção de outros saberes, porém é transformado e construído no cotidiano docente.

Apoiando-nos em autores que fazem crítica a pesquisas que silenciam as vozes docentes falando sobre o professor, sua vida, suas memórias e experiências, defendemos a necessidade de conhecer e compreender os saberes e as práticas docentes a partir dos discursos dos próprios professores, concebendo-os como sujeitos produtores de conhecimento.

Construir experiências com literatura é uma forma de atuar no mundo e ressignificá-lo. Por isso, os docentes devem reescrever a história jamais acabada, para assim rememorar e reconstruir experiências através da existência, permitindo outros sopros de vida.

René Câmara é pedagogo pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE).
Contato: rene.camara@hotmail.com.

Referências

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BENJAMIN, W. Obras escolhidas I: magia e técnica, arte e política. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
______________. Obras escolhidas II: rua de mão única. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BLOOM, Harold. Como e por que ler. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 9. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 18. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

ECO, Umberto. Sobre a literatura. Rio de Janeiro/São Paulo: Bestbolso, 2011.

GAGNEBIN, J. M. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2011.

GONÇALVES FILHO, Antenor Antônio. Educação e literatura. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

LARROSA, Jorge. Linguagem e educação depois de Babel. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

JOSSO, M. C. Experiências de vida e formação. São Paulo: Cortez, 2004.

MITROVITCH, Caroline. Experiência e formação em Walter Benjamin. São Paulo: Unesp, 2011.

PROUST, Marcel. No caminho de Swann. 22. ed. São Paulo: Globo, 2003.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2010.
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