Edição 20

Matérias Especiais

A FAMÍLIA E A CONSTRUÇÃO DE UMA CULTURA DE PAZ

Por Carlos Alberto Emediato

“É preciso toda uma comunidade para se educar uma criança.”

Estudos de Psicologia do Desenvolvimento divulgados numa série de televisão produzida pela British Broadcasting Corporation (BBC) e exibida pela TV Cultura concluem que as crianças crescem mais saudáveis quando contam com um número maior de vínculos significativos.

Muitos que tiveram experiência de família extensa têm clara a importância daquela tia em quem confiávamos para contar nossos problemas, dos avós que nos levavam para passear.

As mães e os pais com certeza ainda se lembram ou contam no presente com a casa da avó para “deixar” as crianças para poder ir ao cinema à noite, passar férias, ou mesmo para “cobrir” os dias ou horas de trabalho quando não há escola.

A questão não é meramente prática, contudo. É uma questão de qualidade de relacionamento, de tipo de ambiente que temos ou podemos criar para o desenvolvimento afetivo, intelectual e físico de nossas crianças.

A importância de um número maior de pessoas significativas torna-se evidente nos casos em que a perda do contato com um dos pais altera o desenho convencional da família nuclear moderna, ou seja, a existência de um pai e uma mãe biológicos, vivendo com os filhos em um local independente.

Esses casos têm se tornado mais e mais freqüentes, por razões bem diversas, como acidentes, doenças, separações, filhos gerados fora de uma relação familiar, imigração, trabalho sazonal e outras causas que tornam o núcleo familiar uma unidade menos estável.

Com a transformação da família clânica ou extensa nas unidades menores da família nuclear moderna, muitas figuras foram deixando de fazer parte da relação diária das crianças. Diminuiu-se o espaço das relações primárias em favor das relações mais estruturadas ou contratuais, sendo a principal delas a escola; ou pelas relações não-pessoais, virtuais, vindas com a mídia: a televisão e, mais recentemente, a Internet. Mesmo as relações pessoais ganharam uma nova configuração com o uso ampliado dos telefones fixos e celulares.

Esse processo de mudança, especialmente gerado pela rápida urbanização e pelos avanços nas tecnologias de comunicação e transporte, aumentou a mobilidade individual e dos núcleos familiares em relação às macrounidades sociais de raiz territorial. A desterritorialização, acompanhada da desmaterialização das relações, produziu um outro formato de família e, em muitos casos, nas grandes cidades, de não-famílias, ou seja, um grande número de pessoas vivendo sozinhas ou em unidades de convivência de base não-familiar, como os grupos de colegas ou de amigos que dividem um espaço.

Múltiplas famílias
As mudanças nos padrões de relacionamento sexual e de compromisso afetivo das últimas décadas também geraram formatos distintos de “família” ou do que poderíamos chamar de “unidade básica de convivência”. Há um grande número de unidades uniparentais e também uma grande quantidade de múltiplos casamentos, que geram a existência de mais de uma família para um filho — a do pai e a da mãe —, com a presença ou não de meios-irmãos, ou seja, irmãos por parte de pai e outros por parte de mãe.

Essa situação se torna mais complexa e intrincada com a existência, às vezes, de mais de duas formações familiares dos pais que geraram filhos. Há, especialmente em algumas camadas sociais, um certo número de unidades familiares nas quais a mãe é a constante, mas os filhos são de diferentes pais, o que se assemelha a uma unidade uniparental, com a variação de que os filhos não são do mesmo pai e que, temporariamente, essa unidade conta com a presença do companheiro da mãe.

No nosso trabalho, através da Rede Global de Educação para a Paz, temos nos deparado com diversos formatos de família predominantes em diversas regiões do mundo a presença da família clânica da África, o modelo de três gerações das zonas rurais da China ou as tribos indígenas, onde as funções dos pais e demais elementos da comunidade são distintas das de nossas famílias nucleares modernas.

Muitos conhecem os estudos da antropóloga Margareth Mead que mostram as funções paternas sendo desenvolvidas pelo irmão da mãe — e não pelo pai biológico —nas tribos de Samoa. Encontramos também as aldeias criadas no formato das SOS Villages, com mais de mil unidades no mundo, agregando mães sociais e crianças, órfãs ou não, que são destinadas pelos juízes para viverem nessas instituições em formato de famílias uniparentais orga-nizadas em uma aldeia onde há um casal responsável geral. Outras tentativas de reconstituição do formato de famílias são as Casas de Lares, que funcionam como instituições assistenciais, transfor-mando-se em família adotiva nos casos em que o casal responsável adota as crianças.

São muitos os formatos de família, bem como são múltiplas as funções que desempenham. Mesmo continuando a ser a unidade básica da organização social, a família nuclear moderna ficou sem condições de preencher satisfatoriamente muitas das funções que desempenhava nos formatos anteriores.

A família continuou respondendo pelas demandas sexuais nas relações do casal, pela geração, nutrição, educação e pelo desenvolvimento afetivo dos filhos, por ser uma unidade econômica que adquire os recursos para fazer frente às diversas necessidades de seus membros, por ser um lugar de lazer, intimidade e convivência saudável. Além dessas funções, ainda há as de prover suporte para a saúde, processar as dificuldades psicológicas de seus membros, atualizar constantemente os recursos tecnológicos e culturais que permitem a todos desfrutarem das vantagens da sociedade de consumo e da informação.

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A construção da paz depende de nossa capacidade de transformar as tensões corpóreas, os bloqueios emocionais e a confusão mental.

O fracasso diante dessas expectativas e demandas — mesmo que provocado por situações de crise, de desemprego, de escassez de serviços públicos adequados — gera dificuldades para seu funcionamento e pode comprometer a performance e diminuir as chances de sucesso de seus membros.

Criando ambientes de paz
A sacralização de formas culturais específicas, como a da família nuclear moderna, gera uma série de dificuldades por considerar essas formas, que são históricas e mutáveis, boas em si mesmas. Esse processo obscurece as dificuldades vividas pelos seus membros e cobra um preço muito alto para a manutenção de seus desenhos ultrapassados. A capacidade de mudança e criação de novas formas de relações é um dos principais desafios da dinâmica transformadora da sociedade atual.

Essas mudanças, mesmo que manifestas na esfera social, têm sua fonte nas descobertas e transformações internas das pessoas. Esse movimento de autoconhecimento e reelaboração de nossos padrões psíquicos, espirituais e de comportamento nem sempre é favorecido por instituições como a família. Muitas vezes, como atores da cena familiar, ficamos na defensiva, tentando preservar formas rígidas e gastas e não nos permitindo recriar as bases fundamentais dos nossos relacionamentos.

Um dos compromissos principais da Rede Global de Educação para a Paz consiste em contribuir para a construção de ambientes e dinâmicas propiciadoras de paz, bem-estar e desenvolvimento humano. Tradições muito antigas de conhecimento têm ajudado a nos orientar na busca de referenciais para esse processo transformador. Uma dessas contribuições propõe uma hierarquia para as nossas relações mais básicas.

Primeiro vem nossa relação com a divindade, tenha ela a forma que tiver: relação com Deus, com a nossa divindade interna, com um professor ou mestre ou com a nossa consciência. Não é necessário que sejamos religiosos ou teístas, mas que tenhamos um profundo contato com a nossa fonte de sabedoria, de orientação e de referência ética, capaz de nos prover de integridade e do exercício das qualidades humanas essenciais.

Em seguida, vêm as relações com os nossos filhos e pais. Mesmo essas relações se guiam pelas primeiras e devem obedecer os critérios do desenvolvimento espiritual dos envolvidos. Em terceiro lugar, estão as relações com nossos parceiros, irmãos e amigos. Quando precisamos decidir a alocação de nossa atenção, de nossos recursos e de nossa dedicação, os dois níveis anteriores têm precedência e podem nos dar as pistas de que precisamos para ordenar nossa visão e nossos valores.

O que anda acontecendo conosco é a inversão de prioridades, na qual, muitas vezes, as relações com os parceiros prejudicam ou se antepõem às relações com os filhos e com nossas dimensões internas de crescimento. Envoltos em fantasias, convenções culturais ou na emocionalidade dos padrões de amor romântico, acabamos por estabelecer relações familiares confusas, tensas e, às vezes, violentas em relação às nossas crianças.

Temos tomado conhecimento de um crescente número de casos em que a família — criada supostamente para oferecer proteção, carinho e orientação e para abrigar os níveis mais íntimos de nossa experiência — tem se tornado local de crescente violência. Violência física mais facilmente detectável, mas, também, lugar de muita violência afetiva e intelectual, que deixa marcas profundas na conformação de nossos sentimentos e na forma com que desenvolvemos conhecimento a respeito de nós mesmos e de nosso mundo.

Costuma-se relacionar violência familiar com pobreza, o que não é verdadeiro. A violência familiar tem acontecido em todas as classes sociais. Nem mesmo é própria de países pobres. A literatura do pós-guerra dava conta de que o espancamento chegou a ser a segunda causa de morte de crianças nos Estados Unidos, e a grande maioria acontecia em casa. Dados de países do Primeiro Mundo mostram os elevados índices de violência familiar, como uma conservadora cifra oficial de 4,5% para a Suíça, que, segundo os especialistas, não retrata a verdadeira dimensão do problema, pois uma grande quantidade de casos não é relatada a autoridades médicas ou policiais.

A imprensa noticiou resultados de pesquisas feitas por universidades americanas com estudantes do Nordeste brasileiro, que constataram melhores resultados acadêmicos em alunos vindos de famílias uniparentais, quase sempre dirigidas pelas mães, do que em crianças vindas de famílias convencionais. Não se tem uma explicação firmada para esse fato, mas há hipóteses indicando que a tensão e o conflito vividos nas relações conjugais geram estados emocionais e mentais não propícios ao desenvolvimento harmonioso dos filhos, afetando o rendimento na escola.

Aceitação e multidimensionalidade
Entre as funções que a família tem tido dificuldade de cumprir, está a de propiciar o espaço de confiança e proteção para que a multidimen-sionalidade de nossa experiência possa ser exercitada.

Necessitamos de espaço para a fantasia, para o sensório, para a cumplicidade afetiva além das convenções; precisamos de uma amorosidade e de um companheirismo além do literal, além da palavra falada, presa em um sentido congelado que não permite o jogo e a brincadeira.

Somos cobrados com freqüência pelo que dizemos e pelo que não dizemos. Muitas vezes, vemos nos outros só os rótulos que colocamos, e quase sempre não elogiosos. Em toda conturbação emocional, o que há é a compreensão dos espaços, o aumento da vigilância e do cansaço mental, a falta de repouso e do contato com os níveis mais profundos da nossa experiência, acessíveis além da racionalidade instrumental dos contratos e das estruturas.

O corpo, as emoções, a mente e o espírito se nutrem de alimentos mais sutis que formam nossa ambiência, nossos espaços vitais. A casa que é composta de muitas moradas, lares formados por nossas memórias e pela imaginação criativa. Lugares dos devaneios, dos sonhos, do sono, onde podemos nos surpreender com nós mesmos e ir além de nossa auto-imagem cristalizada, comprometida.

Nem sempre a família tem sido essa ambiência. Não é uma questão de prover, mas de ser. É necessário uma amorosidade que gere uma confiança básica, que antes de aceitar o outro por ofício de pai ou de filho ou de companheiro, aceita a si mesmo de forma radical. É poder nos sentir em casa no lugar onde estivermos. Por extensão natural, vamos acolhendo os outros como se eles estivessem em casa também.

A aceitação do outro não é um esforço para fora, é um reconhecimento. É revisitar, reencontrar a experiência já conhecida em mim mesmo, das minhas diversas dimensões, da minha originalidade, da possibilidade de um comum que não é um contrato, mas um florescimento. Não nos iludamos se o tom parecer romântico ou poético, diferente do andamento de nosso cotidiano. Talvez pudéssemos jogar com a própria palavra florescimento, que é flor e cimento, suave e concreto.

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Já o amor é recomendado para sarar a indiferença. Não se fica indiferente àquilo que se ama.

A aceitação do outro não é uma coisa que se oferece benevolentemente; é quase sempre, arrogante. Ela é o desfrutar de uma ambiência comum que nos acolhe a todos, a qual eu ajudo a criar ou a destruir. Essa ambiência perpassa e não se confunde com espaços físicos nem mesmo com distâncias. Aceitar é mais um permitir, acolher, zelar pela qualidade deste campo compartilhado.

Precisamos desarmar as bombas emocionais que nos mantêm no ciclo da culpa ou de sua irmã gêmea: as acusações. Desmontar os conceitos rígidos, tanto cognitivos como morais, que nos aprisionam numa visão de mundo excludente, preconceituosa, de automatismos que disparam a toda hora, repetindo os nossos vícios e limitações.

Precisamos recriar nossos espaços compatíveis com um mundo ampliado e múltiplo, não só na sua grande diversidade cultural e biológica, mas também um mundo de uma incomensurável vastidão interna, cheio de possibilidades de aprendizagem contínua, cheio de surpresas que nascem na simplicidade de cada acontecimento.

A paz, a convivência dinâmica e enriquecedora, requer que ampliemos nossos espaços mentais, culturais, criando formas de maior intimidade com outros jeitos de ser. Requer que nosso aprendizado nos leve a transformar os padrões emocionais que regem nossa conduta de confronto e destruição. Desafia a família a ser recriada como um dos espaços fundamentais de geração desse aprendizado, que permitirá o surgimento de novas formas de solidariedade, além do vínculo biológico, da idade, do sucesso escolar ou financeiro, da religião ou da condição social. Igualdade fundamental como base da justiça.

Exercitando o ser
A construção da paz depende de nossa capacidade de transformar as tensões corpóreas, os bloqueios emocionais e a confusão mental, que acionam os mecanismos automáticos da violência desde o nível micro de nosso cotidiano, como nos estados coletivos das convulsões sociais e de guerras.

Confrontos e destruição dependem da visão que construímos do mundo, dos outros e de nós mesmos, como dependem dos valores que motivam e ordenam a nossa ação e as nossas decisões coletivas. O jogo das circunstâncias e das configurações políticas e sociais não leva a respostas inevitáveis e mecânicas. Só obedecemos ao auto-matismo que nós mesmos criamos ou que seguimos por ignorar as diversas possibilidades que cada situação coloca para nossa decisão.

Transformar nossas predisposições para a violência e a destruição não é tarefa fácil. Como não é fácil permitir que a natureza luminosa do nosso ser se expresse para além das carcaças de nossas tensões, emoções e confusões. Primeiro, porque nós, muitas vezes, acreditamos que somos essas carcaças, que elas nos definem e nos dão identidade. Segundo, acreditamos que os contratos que firmamos com nós mesmos e com os outros são substanciais e permanentes, que tanto nós como os outros somos fixos e definidos, capturados pela imagem e pelas circunstâncias que criamos para o nosso estar no mundo.

Transformar padrões que nos limitam e mantêm comprimidas nossas instituições requer exercitar as qualidades do amor, da compaixão, alegria e equanimidade, praticar a tolerância e o perdão, não levar nossas idéias e crenças tão a sério, pedir socorro ao humor e nos refugiar na inocência. Na manifestação dessas qualidades, chamadas catalisadores do ser, encontram-se forças suaves, como o zelo, o cuidado, a doçura, a leveza, a flexibilidade, a gentileza e a amizade. Eleitas como essenciais aos duros tempos em que vivemos, são sempre forças capazes de diluir as cristalizações de nossas emoções e concepções estreitas.

Qualidades se multiplicam quando vividas e repartidas
Colocando a prática de qualidades no centro de nossa vida diária e de nosso empenho transformador, poderemos ir construindo novas relações e sustentando decisões inusitadas. A construção de uma cultura de paz requer um aprendizado contínuo, ético, estético, motor, alimentar, relacional. Esse aprendizado se nutre da prática que transforma nossas tensões em corpos mais ágeis e flexíveis, constrói estados efetivos capazes de fluidez e acolhimento, destila a energia encrudescida das emoções, fazendo emergir sabedoria, saberes úteis para a vida, desmontando nossos jogos mentais repetitivos e nossa falsa sensação de realidade que os pensamentos cristalizados nos propõem.

Treinar qualidades é como exercitar os músculos; demanda decisão e disciplina, mas se alimenta da amorosidade do saber e da aspiração natural do ser em realizar sua radiância, impregnar cada célula e se expressar silenciosamente em cada gesto.

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A aceitação do outro é o desfrutar de uma ambiência comum que nos acolhe a todos, a qual eu ajudo a criar ou a destruir.

Treinar compaixão implica fazer alguma coisa útil para alguém, de forma generosa e não-condicional. Alguém, especial-mente uma pessoa ou ser vivente que não seja objeto constante de nosso cuidado. Implica alargar nossa aten-ção e ampliar nossa eficácia em benefício de um maior número de seres, seja a natureza, os animais, os humanos. Deman-da se aprimorar, se descomplicar e capacitar-se para servir melhor.

A compaixão é recomendada como ótimo e eficaz remédio contra o apego, aquela distorção do amor que afunila seu foco nos “meus”, nos poucos que gosto, na minha família. Que ao invés de incluir — e nos nutrir para que os poucos se tornem muitos e depois todos, e que estes se nutram para serem capazes de incluir mais, se fortalecer — separa e exclui, gerando o contrário do que se pretendia.

Já o amor é recomendado para sarar a indiferença. Não se fica indiferente àquilo que se ama. Costumamos chamar de amor aquele sentimento apertado no peito, misturado com ansiedade e medo. É como se nos sentíssemos seguros se tivéssemos o controle dos objetos amados; ou confiança, se as condições desejadas se tornassem estáticas, inalteradas. O mundo começa a ficar pequeno e hostil, nós nunca nos sentimos em casa.

À medida que ampliamos nossos vínculos e abrimos o canal para a mutante e criativa energia amorosa, começamos a nos sentir em casa em qualquer lugar que estejamos. Começamos a nos sentir felizes com o sucesso dos outros, diminuímos nossos índices de aversão, começamos a nos sentir participantes do jogo arriscado e surpreendente da vida. Acolhemos.

É importante notar que as qualidades não são em si sentimentos, pensamentos ou sensações. Alegria, compaixão e equanimidade não existem porque eu sinto amor, tenho sensações alegres ou pensamentos compassivos. Elas são forças do ser, virtudes, energias do espírito que se expressam nos sentimentos, nos pensamentos e nas sensações, quando eu pratico ou eu gero estados mentais, pensamentos, sentimentos e sensações corpóreas que se tornam essas qualidades ou as convido a povoar esses espaços da minha presença no mundo.

Essas qualidades afloram em nós em situações de vida nas quais relações ou ambientes propícios acionam esses fluxos de energia. É como se, através de pessoas, lugares, sons, cores e situações, entrássemos em sintonia com essas qualidades. Podemos desenvolver cada vez mais nossa acuidade para que percebamos quando e onde esse florescimento do ser acontece e em que condições esses fluxos são inibidos ou bloqueados.

Daí a importância não somente de praticarmos em nós mesmos o desenvolvimento dessas forças do ser, bem como de criarmos ambientes e relações que propiciem a transformação dos estados e das situações que alimentam as pequenas e veladas violências do cotidiano ou as grandes catástrofes sociais e humanas. Um contínuo aprendizado é a constante criação da conexão com essas qualidades, capazes de gerar mudanças na base da cultura.

Para não deixar de mencionar, a alegria é recomendada, em textos antigos, como o antídoto à sentimentalidade, aquela distorção da compaixão que confunde servir com sofrer, esvair-se, tirar de si. Essas qualidades são forças, sua prática e seu desenvolvimento empoderam as pessoas e instituições ao invés de enfraquecê-las. Esse é um critério importante. Quando estamos nos sentindo enfraquecidos por praticar essas virtudes é porque estamos confundindo fruição da energia com manipulação, falsa visão de nós mesmos ou daqueles que estamos procurando ajudar. Práticas espirituais fortalecem.

A equanimidade é que nos ajuda a não nos prendermos no ciclo da depressão ou da euforia. Muitas vezes nos exaurimos no que chamamos de “alegria”, presos no fascínio dos objetos, das pessoas ou dos estados mentais. Passados os estados de “pico”, normalmente sucede uma depressão ou exaustão por ter consumido mais que nutrido o organismo. A equanimidade nos ensina o equilíbrio de não estarmos apegados ou aversivos às diversas situações de nossa vida e podermos ter ritmo, degustar e monitorar o fluxo da vida que move cada situação e experiência. Ela nos ajuda a exercitar a liberdade com presença e vitalidade. Como nos ensina uma música: “respirar amor, aspirando liberdade” — portanto, sem nos deixar sucumbir à indiferença ou ao apego que nos limita o espaço e a criatividade.

Novos formatos de relações
Criar ambientes propiciadores de paz na família e nas diversas teias de relações pessoais e institucionais de que participamos requer construir novas formas de solidariedade além dos critérios convencionais. Se a solidariedade biológico-familiar tem sido a grande responsável pela preservação da espécie, ela é hoje insuficiente para nos tirar da crise civilizatória em que nos encontramos.

É fundamental que criemos as condições para que os filhos sejam devidamente cuidados por suas mães e seus pais, que tenham as condições econômicas e afetivas para um crescimento saudável. No entanto, as diversas situações apontadas anteriormente mostram que nem sempre essas condições existem e, muitas vezes, existem e não funcionam com a qualidade humana que esperamos. Nossas expectativas não atendidas geram frustração, ressentimentos e conflitos.

O quadro de múltiplas relações e desenhos sociais existentes vem pedir o que se costumava chamar da desbiologização da paternidade. Isso não significa que é melhor ter pais não-biológicos; não se trata disso, mas de aprendermos a não limitar nossa capacidade afetiva aos laços de sangue. Se as monarquias e aristocracias funcionavam sobre essas bases, assim como os processos de acumulação capitalista, uma sociedade solidária pede vínculos humanos mais universais, fundados na radicalidade de nossa fraternidade e na nossa capacidade de amar e nos alegrar com a vida em suas diversas formas.

Criar vínculos ou relações de intimidade crescente com o maior número possível de pessoas tem sido um ensinamento corrente de grandes professores. De difícil aprendizagem, ele nos desafia a reconstruir nossa identidade como homens e mulheres universais, cidadãos do mundo, além das barreiras biológicas, raciais, de preferências políticas, de nacionalismos curtos ou de interesses de classe.

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Como cidadãos do mundo, nós e nossos filhos vamos estar cada vez mais em contato com diversas instituições, culturas, situações interpessoais.

A interdependência — física, biológica, social e cultural — nos mostra que, além da Terra ser nossa casa comum, é a biosfera nossa ambiência vital: as questões econômicas, sociais e políticas têm afetado a todos os habitantes do planeta em graus maiores ou menores de repercussão, mas sempre como componentes interligados ao todo complexo, no qual vamos tecendo nossas relações cotidianas.

Se, nos últimos anos, fomos capazes de criar o que se chama de cérebro global — toda uma rede de comunicação e informação que interconecta pessoas e organizações em todos os cantos do planeta —, o desafio agora é criar o coração global, as novas formas de solidariedade que partam do reconhecimento de nossa fraternidade fundamental. As unidades básicas de convivência, dentre elas os diversos formatos de família, precisam se ver como formas fundantes de uma ordem social e humana capaz de sarar as feridas de nossas divisões, geradas pela falsa visão de nossa separatividade.

Nos ensinamentos sobre a prática das qualidades básicas, dos catalisadores do ser acima referidos, somos avisados de que quando as praticamos somente para nossa família e os “nossos”, elas se tornam o contrário. Mesmo que precisemos praticá-las de forma gradual, expandindo aos poucos nossa capacidade de amar, de nos alegrar, de servir e nos fortalecer — gradualismo devido às nossas próprias limitações —, na realidade, essas qualidades são universais por natureza, não se limitam a partições ou gradações, não se sujeitam a planos progressivos de implementação. As limitações são devidas à nossa incapacidade de vivê-las por inteiro e radicalmente, como se fossem muita luz para nossa capacidade de ver.

Amor, compaixão, alegria e equanimidade, se praticados de forma restrita aos nossos pequenos mundos, tornam-se apego, sentimentalidade, euforia/depressão e indiferença. Quando eu limito a natureza não-referencial, universal, dessas qualidades, eu restabeleço a separatividade e, com isso, busco acumular para nós os benefícios, eliminar os inimigos que nos incomodam, montar muralhas divisórias; assusto-me e sobressalto-me com a proximidade de um estranho.

O desenvolvimento do conhecimento sobre nós mesmos, de nossa motivação de progredir para poder servir de forma mais concreta à sociedade e de nos fortalecer com os benefícios da sabedoria é tarefa de uma educação para a paz a ser desenvolvida em todas as instituições. A criação de ambientes propiciadores dessa convivência fraterna e dinâmica requer uma fluidez capaz de enfrentar as desmontagens vindas com os processos de rápida mudança da nossa sociedade atual e de navegar criativamente no fluxo das montagens do novo, de novas relações geradoras de formatos mais transparentes à progressiva manifestação das qualidades básicas de nosso ser.

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Se quisermos ter proteção, tenhamos muitos amigos – eles são como os anticorpos contra a violência, a solidão, a falta de esperança.

A família que educa para a paz continuará a ser o espaço privilegiado.

Como cidadãos do mundo, nós e nossos filhos vamos estar cada vez mais em contato com diversas instituições, culturas, situações interpessoais. O nosso desenvolvimento dependerá mais e mais da formação de comunidades de aprendizagem que criem laços fraternos e dinamismo cognitivo. Redes de relações precisam perpassar os limites das instituições, de forma que criemos, progressivamente, um forte tecido de proteção a partir de nossas casas e de nossos laços de confiança, construídos através da formação de vínculos significativos cada vez mais abrangentes.

Diz-se que: se quisermos ter proteção, tenhamos muitos amigos — eles são como os anticorpos contra a violência, a solidão, a falta de esperança. A família que educa para a paz continuará a ser certamente o espaço privilegiado onde essa amizade, com as formas de vida e com os seres humanos, ganha profundidade e concretude. Mas ela só se fortalecerá fazendo parte de um arranjo mais amplo de relações de aprendizagem e de responsabilidade efetiva pelas necessidades da comunidade, que proverá a seus membros, de forma orgânica e saudável, as condições requeridas para um crescimento integral e uma participação ativa no mundo de dimensões planetárias.

Os desafios de uma família que busca educar para a paz, bem como das demais unidades básicas de convivência, é ser capaz de viver o dinamismo natural do fluxo de gerações e os novos desenhos que ele cria. É se articular com as demais formas de aprendizagem necessárias ao desenvolvimento de seus membros, alargando os espaços de intimidade e criação. É ser capaz de substituir o controle pelo cuidado, a fiscalização pelo zelo; promover espaços de conversa franca e verdadeira, em vez de nutrir ressentimentos e censuras. Ser um lugar de referência e de acolhimento, onde se possa resolver, de forma amorosa e criativa, seus conflitos e suas crises pessoais e interpessoais e fluir com as transições, que são mais rápidas e freqüentes do que imaginamos ou gostaríamos.

O artigo foi publicado nos anais do 38° Congresso Nacional/2001 – Tema Central: A família educando para a paz.

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