Edição 46

A fala do mestre...

A Filosofia no universo da criança

Nildo Lage

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Falar de Filosofia é reviver a história da humanidade através de episódios abstrusos, submersos nas entrelinhas da humanidade. É recordar pessoas que pensavam além, que revolucionaram épocas. Seres que utilizaram a curiosidade como estímulo, o amor como fonte de energia e a paixão pelo belo como um instrumento para traduzir o mundo. Indivíduos que se destacaram entre os demais por serem dotados de potenciais para expressar a vida na sua plenitude.

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Falar de Filosofia é içar voo na rota da Grécia, imergir no universo das artes, da arquitetura, dos jogos, da mitologia, da religião e dos valores morais, por ser o ventre que fecundou os mais discutidos rumos da ciência humana.

Embrenhar pelas veredas da Filosofia é seguir as pegadas de Pitágoras, o grande mentor, que soube conviver com os números sem perder a harmonia com as palavras. Do velho sábio Sócrates, dominador, senhor de todos os tempos… Que valorizou a descoberta do homem e o guiou para as conquistas de valores universais… De Aristóteles, que se orientou nos filósofos pré-platônicos para alicerçar o seu magnífico sistema, por acreditar que somos aquilo que fazemos. E, como não poderia ser esquecido, o fiel discípulo Platão, que trilhou as pegadas do mestre Sócrates. Hábil e irascível, soube transitar entre o inteligível e o sensível, onde o mundo concreto era nada mais do que uma pálida reprodução do mundo das ideias… Os posteriores foram simplesmente admiradores, meros seguidores.

Pois a Filosofia, no seu emaranhado de bifurcações, forma labirintos que nos arremessam numa viagem tão alucinante que uma breve escala ao Mundo de Sofia é inevitável para abastecer-se de conhecimento e magia, encontrar respostas e esvair dúvidas.

Apesar de o velho ditado assegurar que, “de filósofo e louco, todos temos um pouco”, cada ser busca dar um tom na própria existência, e as palavras, como poderoso veículo de comunicação, fluem, se agrupam, formam ideias brilhantes e, até que se prove o contrário,

Filosofia é um assunto que não interessa só ao especialista porque — por mais estranho que isto pareça — provavelmente não há homem que não filosofe; ou, pelo menos, todo homem se torna filósofo em alguma circunstância da vida. […] o importante é que todos nós filosofamos, e até parece que estamos obrigados a filosofar (BOCHENSKI, 1977:21).

Mas como introduzir toda essa gama de conhecimentos no universo da criança?

É um passo delicado, pois significa explorar um mundo abarrotado de enigmas, de mágicas, onde uma descoberta é exclusivamente mais um passo rumo ao incógnito e onde imaginário e realidade se confundem. Fantasias e anseios não trilham o mesmo caminho que as atividades lúdicas. E o mistério intriga cada vez mais até quem ousou explorar esse universo tão fértil, superlotado de surpresas, que surpreende até os próprios pesquisadores. Piaget e Vygotsky que o digam.

Pois conviver com a intelectualidade aflorada, a ingenuidade e uma curiosidade sem extremos desafia o educador a buscar novos caminhos, fazer proezas para acompanhar o ritmo de uma geração que não para esperando os fatos acontecerem, por ser o núcleo dos próprios fatos.

Transpor essa barreira onde as ideias fervilham e a imaginação não tem freio e conduz para espaços inusitados, abordar a Filosofia é um desafio que vai além do compreender uma disciplina, pois tem em seu teor, e exala, a própria essência da sabedoria humana.

Introduzir a Filosofia na escola, principalmente nas séries iniciais, é um desafio para o educador. Exige sapiência, percepção e maturidade para executar um trabalho delicado. Pois a criança, no ápice da sua curiosidade, questiona sobre o mundo que a cerca, por surpreender-se com o novo, que a atrai, a seduz.

Para arraigar a criança do seu universo de descobertas, de dúvidas, de encontros e desencontros, são necessários estímulos das capacidades cognitivas, incentivando a arguição, sem que ela se perca no seu universo de causas possíveis, onde a imaginação faz o mundo girar na palma da sua mão e os poderes do imaginário têm solução para todos os problemas.

Para não se desviar dos objetivos, o educador deve estar atento e seguir rotas, como as traçadas pelo professor e filósofo Paulo Ghiraldelli: “As questões filosóficas estão presentes no cotidiano das pessoas desde cedo, até mesmo em frequentes perguntas aparentemente simples que as crianças fazem”.

Se o educador não trabalhar a filosofia como instrumento de interação professor-aluno, para facilitar a relação com o grupo e assim fazer jorrar a fonte de valores através da interdisciplinaridade com outros contextos; exercitar a fraternidade através de trabalhos culturais para quebrar tabus, romper preconceitos; fortalecer o elo da criança com a justiça, a solidariedade, a filosofia da contemporaneidade perderá a sua essência: o bem, a beleza, a justiça e a verdade. Converter-se-á na cadeia alimentar de consumistas insaciáveis, fazendo com que a violência e o desamor consumam bens valiosos, como o respeito, a liberdade… A própria essência humana, transformando a humanidade em seres robóticos: carentes de sentimentos, sem objetivos e sem propósitos.

Como todo processo que envolve criança, ao implantar a Filosofia no currículo escolar é fundamental que sejam traçados objetivos específicos, porque estimular a formação do caráter, do ético e até moral, é um procedimento que estabelece cautela, pois os conflitos culturais e religiosos exigem estratégias para superar as divergências, nas quais o cooperativismo deve se condensar para facilitar a superação. A partir de então, buscar atingir o objetivo da verdadeira função da disciplina no desenvolvimento crítico-reflexivo da criança, porque, numa sociedade de famílias disformes, a maioria dos pais acredita que gritos e palmadas ainda são o melhor método para educar, inconscientes de que tais atitudes asfixiam o diálogo.

A Filosofia enquanto disciplina deve nortear a capacidade da criança de expressar principalmente pensamentos, desejos contidos para motivar situações nas quais encontre estruturas que facilitem as relações interpessoais.

Afinal, ensinar a criança a exercitar o raciocínio pode ser o maior incentivo para descobrir grandes pensadores e estimular o nascimento de ideias que possam iluminar o mundo.

A Filosofia atravessou milênios rondando a escola, mas o sistema de ensino ainda mantém resistência, pois não trabalha com a realidade. Trilha pensamentos que determinam modelos- padrão de ensino e não encara a Filosofia com o olhar pedagógico e antropológico, abduzindo o pensamento filosófico na sala de aula — resistência que é mantida devido ao fato de muitos pensadores acreditarem que, na primeira infância, o pensamento e a racionalidade não estão formados.

Mas no mundo globalizado, onde o poder de persuasão abre caminhos, frases esvaecem pensamentos, perguntas exalam e pairam à procura de uma explicação lógica, porque a humanidade aprecia a Filosofia, mas não a entende como instrumento de reflexão do pensamento.

É preciso explorar esse terreno que faz germinar tantas ideias quanto à capacidade da criança de imaginar. Comenius acredita que

Não é necessário introduzir nada no homem a partir do exterior, mas apenas fazer germinar e desenvolver as coisas das quais ele contém o gérmen e fazê-lo ver qual a sua natureza. Por isso, Pitágoras preocupava-se em dizer que era tão natural ao homem saber tudo que, se fossem apresentadas com jeito a um menino de sete anos todas as questões de toda a Filosofia, com certeza responderia a todas com segurança. (COMENIUS, 1999:118).

Ainda há tempo para derrubar as muralhas das imposições e abrir um leque para que a Filosofia ventile na sala de aula através de propostas de reflexão filosófica e que o ético impere através de ações concretas, para que o educando fortaleça as suas estruturas além da sala de aula e que o espírito crítico-filosófico desperte através do raciocínio lógico.

Mas, com tantas barreiras impedindo o avanço de uma educação formadora, está sendo dificil implantar mudanças. A não ser que o sistema que se debate para educar uma sociedade pluricultural esteja intencionado a dar um basta no sociointeracionismo para adotar um novo modelo de ensino, como o sugerido pelo Papa Bento XVI, através de teses obscurantistas do criacionismo para substituir no currículo a ciência pela religião.

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