Edição 11

O livro da vez

A força da palavra

Bartolomeu Campos de Queirós viveu sua infância em Papagaio, cidade pequena no interior de Minas Gerais, antes de se instalar em Belo Horizonte, onde reside e trabalha. Seu interesse pela literatura e pelo ensino da arte o fez viajar muito por este país. Bartolomeu só faz o que gosta, não cumpre compromissos sociais nem tarefas que não lhe pareçam substânciais.

Com formação nas áreas de educação e arte, cursou o Instituto Pedagógico de Paris. Desde os anos 70, tem destacada atuação como educador, em vários níveis. Ministra conferências e seminários sobre educação, leitura e literatura. Tem 43 livros publicados no Brasil e vários deles traduzidos e editados em outros países. É detentor dos mais importantes prêmios literários nacionais. Atua também como crítico de arte, integrando júris e comissões de salões e fazendo curadorias e museografias de exposições. Em 1974 publicou seu primeiro livro, O peixe e o pássaro, e, desde então, vem firmando seu estilo de escrita como uma prosa poética da mais alta qualidade. O livro da vez desta edição é uma bela obra sua, que trata a fome de maneira singular, até mesmo surpreendente, De não em não.

É uma narrativa poética carregada de significados.
Mesmo muito atarefado, nos concedeu a seguinte entrevista:

Construir Notícias – Quando e como foi sua incursão no campo da literatura?

Bartolomeu Campos de Queirós – Minha relação com as crianças sempre foi de muita proximidade. Fui professor durante muitos anos. Trabalhava numa escola de demonstração do Estado. Quando comecei a escrever, os mais jovens foram os meus primeiros leitores. Com eles eu deixava meus textos e escutava suas observações. Um dia resolvi enviar um texto para o concurso João de Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte. Meu trabalho mereceu o primeiro lugar. Daí não parei mais.

CN – O seu livro De não em não aborda um tema muito atual hoje em dia: a fome. Quando e por que você decidiu escrever sobre esse tema?

BCQ – De não em não surgiu a partir de uma experiência concreta minha. Sempre, ao dirigir meu carro e parar nos sinais de trânsito, as pessoas me abordavam. Eu suspeitava que iam pedir alguma ajuda e, antes de ouvi-las, eu já dizia NÃO. Um dia, fiquei assustado com essa minha atitude. Eu nem escutava o que eles tinham para dizer e já negava! Observei que eles deviam passar o dia de não em não, de uma janela a outra, de um sinal a outro. Passei a escutá-los. Escutar passou a ser meu dever.

CN – O texto do livro traz uma narrativa poética sobre uma família com muitas dificuldades e a fome presente em seu cotidiano. Como o texto é exposto com muita propriedade no assunto, você já presenciou ou viveu alguma experiência como a descrita no livro?

BCQ – Não, eu nunca experimentei a fome, a não ser pelo olhar, pela observação. Posso imaginá-la sim! Comer é uma maneira de manter a vida, de espantar a morte. Sentir fome é ser ameaçado pela morte. Isso deve ser terrível e pode levar as pessoas a qualquer ação. Tudo por medo da morte, medo de perder a existência.

CN – Quando lemos o livro, ele dá margem para imaginarmos inúmeros espaços sociais, já que a fome está presente em tantos deles. Ao escrever o texto algum espaço específico foi utilizado para situar a narrativa? Ou o recurso de deixar o espaço do texto livre para que o leitor faça o processo de metalinguagem foi adotado propositalmente?

BCQ – Gosto sempre de deixar o texto livre, aberto, para que o leitor possa se inserir nele. Propositadamente sei que a literatura é feita de fantasia. Por si só a fantasia é uma metáfora. Assim, a liberdade de várias leituras de um mesmo texto permite a cada leitor superar o texto, ir além dele. Sei que todo leitor meu sabe mais que eu.

CN – Em todo o livro você dá um enfoque especial para o papel da mãe. Por que?

BCQ – A mãe é aquela que inaugura a vida. Ela representa o paraíso onde estivemos por longos nove meses. Nascer é perder o paraíso, é ganhar o abandono. Daí as mães serem capazes de amar gratuitamente. Elas sabem da dor de viver. Elas amam sem limites, sem fronteiras. Na medida em que se apaixonam pelos filhos elas são, em resposta, amadas por eles.

CN – Em relação ao pai, no livro sugere-se que ele ainda tem o papel de provedor na família, pois fala da seguinte forma sobre ele: “A força dos braços do pai somada aos dias inteiros de trabalho não mais afugentavam a insistência da Fome”. As famílias caracterizadas na obra ainda mantêm essa visão? Você acha que os homens hoje em dia não têm um papel maior?

BCQ – Todo pai é adotivo, como afirma Françoise Dolto. Essa adoção acontece aos poucos, na medida em que cuidam dos filhos, tentando suprir as necessidades. O pai é aquele que ama minha mãe e permite ao filho aventurar-se por outros amores. Na sociedade contemporânea nem sempre os pais podem adotar os filhos. Daí muitas crianças serem órfãs de pai vivo. Penso que os pais, impossibilitados de adotarem os filhos, se sentem humilhados e indignados.

CN – Na narrativa apresentada, o pai partiu e não voltou. Diante desse comportamento do pai, pode-se fazer uma relação com a omissão ou com a fuga das pessoas diante desse problema?

BCQ – Acho compreensível partir para não presenciar o sofrimento. Quando nossos gestos já não são suficientes, muitos se afastam para sofrer menos ou abrandar a culpa. Um olhar de fome sobre a gente fere muito. Deixa vir à tona nossa falta de cumplicidade, de solidariedade, de fraternidade.

CN – Já se sabe que a quantidade de alimentos produzida no mundo é suficiente para alimentar toda a população mundial, mesmo assim ainda existem milhões de pessoas morrendo de fome. No seu livro você fala dos “donos da fome”, quem são eles? Quem seriam os responsáveis por extinguir este problema?

BCQ – São muito poucos os donos de tudo. Eles aumentam na medida em que deixam faltar aos outros. Eles dependem da miséria para ampliar suas fortunas. Insensíveis ao sofrimento alheio, o homem operário passa a comprar o que produz. Esses senhores do mundo, vaidosos e ambiciosos pela extensão de seus bens se fecham para o social. O dinheiro passa a ser superior à vida. E como são egoístas, afoitos e inteligentes esses donos do mundo…

CN – O Programa Fome Zero do governo atual está muito na mídia. Você acha que este é um problema político, social, ético ou que aborda todos esses aspectos?

BCQ – Vejo como problemas de vários níveis. No momento, o Fome Zero é um caminho imediato e mais possível. Não se pode protelar a fome.

CN – Resolve-se o problema recebendo doação da sociedade e “dando” para quem não tem ou isso é mais um paliativo, pois a raiz do problema ainda não foi sanada?

BCQ – Sua solução definitiva no país só será resolvida quando os processos de educação desenvolverem valores mais humanos em seus alunos, quando as escolas deixarem de ser consumidoras, repetidoras, e passarem a ser criadoras. A escola está muito distante da paz. Seu trabalho tem sido de preservação do instituído e só privilegiam as ciências ditas exatas. É preciso envolver os alunos com o afeto para que, sensíveis, eles possam agir sobre a dor do mundo.

CN – Com relação ao aspecto pedagógico do livro, com que público ele deve ser trabalhado?

BCQ – Não gosto de literatura com destinatários, dirigida para um público específico. Ou é literatura ou não é! Sei que cada sujeito tem uma experiência de mundo bem singular. Daí cada leitor absorve o texto conforme sua vivência. Um texto que permite apenas uma leitura não é um texto literário. A literatura abre portas, mas a paisagem está escondida na emoção de cada leitor.

CN – Para você, qual o pior NÃO que as pessoas podem receber?

BCQ – O pior NÃO é não ser escutado. Todos os homens têm o que dizer e merecem ser ouvidos. Quando não exercemos a escuta, não confirmamos o outro como sujeito, como ser de ação. E depois escutar é superior a falar.

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