Edição 102

A fala do mestre...

A galinha ou o porco?

Lécio Cordeio

Desde o ano passado, quando as discussões ainda nem haviam esquentado, os autores e editores de livros didáticos estamos comprometidos com a BNCC, que finalmente foi homologada no dia 22 de dezembro de 2017, mas incompleta. A Base do Ensino Médio ficou fora e segue em discussão em audiências públicas. Ao que tudo indica, será homologada no final deste ano, do mesmo modo que a Base da Educação Infantil e a do Ensino Fundamental — repletas de arestas, dúvidas, contradições. A pergunta é: quantos professores estão envolvidos e quantos estão realmente comprometidos com a BNCC? Outra: quem está procrastinando a sua implementação?

Há grande diferença entre estar envolvido e estar comprometido com algo. Quem está envolvido é coadjuvante, é espectador, participa do lado de fora, limita-se a dar pitaco. No meu dia a dia, tenho a oportunidade de lidar com inúmeros professores de todo o Brasil. Para minha perplexidade, vejo que muitos têm acompanhado a BNCC por “ouvir dizer”. Não sabem ao certo o que mudará, ou quando mudará, ou se mudará a sua prática pedagógica. Para estes, a resposta à pergunta que é tema da edição 101 da nossa Construir Notícias é claramente afirmativa: sim, o professor procrastina. E muito. Não é minha intenção questionar o envolvimento de cada um nesse processo e por que alguns preferem adiar, postergar. O objetivo é chamar a atenção para o fato de que a BNCC é uma realidade, queiramos ou não, e nos impõe uma série de desafios. Resta saber até quando ficaremos apenas envolvidos.

Em maio deste ano, fomos à Bett Educar, promovida no Transamérica Expo Center, em São Paulo, para acompanhar as mudanças implementadas pelo mercado editorial brasileiro em função da BNCC. Realizado entre os dias 8 e 11, o congresso ofereceu inúmeras palestras cujo tema era a Base e, principalmente, sua repercussão nas escolas, no chão da sala de aula. E acredite: ainda havia palestrantes confusos sobre o documento, expondo com base na sua terceira versão, em muitos pontos diferente da homologada pelo então ministro Mendonça Filho.

Muitos professores sequer consultaram a Base, passados meses da sua homologação. Professores de Ciências ainda não sabem que deverão trabalhar noções de Química e Física já no 6º ano, apesar de não serem formados para isso; os de Língua Portuguesa terão 183 habilidades para trabalhar ao longo dos anos finais do Ensino Fundamental! Entre todas as disciplinas, esse é o maior volume de habilidades. Dessas, 56 devem ser trabalhadas nos quatro anos! Pior: ainda na Língua Portuguesa, o texto fala, quase exaustivamente, de gêneros digitais, mas reserva um espaço minúsculo para a Literatura. No entanto, apesar das incongruências, o documento traz inúmeros avanços, tendo em vista duas questões fundamentais: que pessoas queremos formar e, consequentemente, que sociedade queremos construir. Para encontrar boas respostas para esses desafios, é imperioso comprometer-se o quanto antes com essa nova realidade.

O professor comprometido, diferentemente daquele que está apenas envolvido, é protagonista. Está no olho do furacão, participa ativamente, concorda ou discorda com a intenção legítima de contribuir. Nesse contexto, não resta tempo para procrastinar. Quem se comprometeu certamente já se deu conta de que a BNCC acentuou ainda mais a necessidade de interpretarmos a realidade atual tendo em vista o futuro e sua extremada automação. Salvo percalços da vida, uma criança que está no 1o ano do Ensino Fundamental hoje irá para o mercado de trabalho daqui a aproximadamente vinte anos! A pergunta é: o que podemos ensinar a essa criança hoje que lhe será útil em 2040? Esse será o tema do próximo artigo.

Meus colegas, há muitas diferenças entre envolvimento e comprometimento. Mas claro está que essa distinção deve considerar a disposição de cada um para se doar, para perder algo. Certa vez, ouvi de um grande amigo um excelente exemplo dessa definição: no café da manhã, quando temos ovos com bacon, a galinha está envolvida, o porco está comprometido. Autorreflexão: nesse contexto, você se identifica mais com qual desses personagens?

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental. E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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