Edição 94

Matérias Especiais

A gratidão que transforma para além da sala de aula

Isabela Nóbrega

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É tarde de quarta-feira. Uma música ao fundo sinaliza que alguém tem urgência em falar comigo: interrompo a correção de um livro, atendo o celular e tão logo sou surpreendida com a notícia de Pedro, meu filho de 13 anos, com a famosa frase: “Mãe, amanhã só entro na escola acompanhado da senhora”. Calei-me por alguns segundos, respirei e disparei: “Pedro, o que você aprontou?”.

Entre tantas desculpas e ainda na ligação que durou em torno de uns 10 minutos que me pareceram uma eternidade, Pedro tentava justificar que estava sendo injustiçado e que o fato de se juntar com colegas de classe para brincar no horário da aula não seria nada demais. Já incumbida da missão, fiquei reflexiva por alguns instantes e tentando ensaiar algumas frases prontas que tentassem, ao menos, justificar minha ida ao colégio.

Chegava eu com Pedro, no dia seguinte, à escola e, com um largo sorriso no rosto, daqueles que te desconcertam por inteira, fui recebida pela professora, que muito gentilmente me saudou: “Bom-dia, mãe! Pedro é sua cara! Só um instante e já conversamos”.

Enquanto ela recebia os outros alunos e os acomodava na sala de aula, fui para um cantinho do corredor observá-la. Ela chegou, conversamos rapidamente, tempo suficiente para eu lhe dar total liberdade para exigir de Pedro respeito às regras da escola, mesmo que isso gerasse alguma punição, como ficar sem recreio, por exemplo. Ela, meio que surpresa, me confessou que tem certo receio de corrigir os alunos dessa forma, já que hoje pra tudo se tem um nome (assédio moral, bullying, etc.) e que os pais geralmente chegam agressivos na defensiva do filho, culpando quase sempre o professor, sem contar que fazem o possível para não solicitar a presença deles na escola, pois, em sua grande maioria, sempre chegam chateados porque são retirados de seus afazeres diários, dizendo que é obrigação do professor saber lidar com isso.

Mas isso não a abatia. O seu carinho e gratidão pela profissão exalavam amor naquele espaço, isso pude constatar e sentir. E como senti! Seguindo o rito de despedida, agradeci, dei-lhe um abraço apertado, sorri e fui embora.

Enquanto dirigia a caminho da empresa, fiquei pensando no quão árduo é o ofício do educador. No quanto precisamos ser mais parceiros daqueles a quem confiamos nossos filhos diariamente. Em tempos de ingratidão, ser grato nunca sai de moda. Precisamos de professores gratos, alunos gratos, pais gratos. Mesmo quando o cenário é oposto ao que deveria ser real, aquela professora me dava uma lição de vida. E aquele sentimento acomodado se espalhou. Lá vem trabalho para conter o fluxo. É você quem decide: vai conter ou deixá-lo seguir? O fluxo segue, a opção lhe foi dada: você escolhe a ponte ou o atalho? Em dias de tanto desrespeito e ingratidão por esse profissional, dedico este artigo a você, educador, e por que não chamá-lo de lapidador de identidades, já que executa essa tarefa com tanto afinco?! Já dizia Padre Reginaldo Manzotti: “Que não haja o disfarce do ódio, mas a realidade do amor”.

Isabela Nóbrega é jornalista e editora de livros didáticos de Educação Infantil e Ensino Fundamental dos anos iniciais. E-mail: isabelanobrega@editoraconstruir.com.br.
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