Edição 12

Matérias Especiais

A História da criança no Brasil

No Brasil, existem crianças vivendo em cidades e outras em regiões rurais (sítios, fazendas, acampamentos, aldeias indígenas, etc.). Há aquelas que brincam nas ruas, se divertem no mar, em piscinas ou rios, sobem em árvores e jogam futebol. Outras passam a maior parte de seu tempo reclusas em apartamentos, casas, pequenos barracos, cortiços ou instituições. Muitas convivem com galinhas, cabras, passarinhos, besouros, cavalos, sapos e bois. Outras só conhecem animais domésticos, como cachorro e gato.

Muitas trabalham desde pequenas – quebram pedras, fazem carvão, capinam a roça, embalam compras em supermercados, limpam pára-brisas de automóveis, fazem carreto em feiras, etc. Outras são responsáveis por seus irmãos menores, preparam a comida e arrumam a casa. Uma parcela possui uma agenda cheia de atividades culturais e esportivas – aulas de balé, inglês, piano, natação… Existem também as que perambulam sozinhas ou em turmas pelas ruas das grandes cidades, sem moradia e sem proteção.

Há aquelas que têm oportunidades de diversão no cinema, no teatro e no circo. Mas a maioria convive apenas com o rádio e a televisão. Em muitos casos, os veículos de comunicação, juntamente com o videocassete, o computador e o videogame, cumprem o papel de “babá eletrônica”, entretendo as crianças com jogos e desenhos animados.

As brincadeiras e as informações aprendidas na televisão se propagam para os quintais, as ruas e os pátios das escolas, no horário de recreio. Os super-heróis são recriados, freqüentemente com a ajuda de bonecos, capas, espadas, máscaras, figurinhas e veículos.

Em muitas localidades brasileiras, brincadeiras tradicionais – roda, passa-anel, pular corda, amarelinha, caracol, pega-pega, pula-sela, bola de gude, pipa e outras – ainda permanecem no cotidiano das crianças. No entanto, nas grandes cidades, onde os espaços são reduzidos, há poucos parques e os adultos se concentram em seu trabalho e no lazer de consumo, então esses jogos e essas brincadeiras deixaram de fazer parte do mundo infantil. Em raros casos, algumas professoras procuram resgatar a memorização de quadrinhas, parlendas e rimas, para todos repetirem, como antigamente, nos pátios das escolas.

Nossos alunos e outras crianças

Por mais que relembremos muitas vivências que fazem parte do dia-a-dia das crianças brasileiras, é difícil dimensionar todas as realidades. Mas podemos começar por conhecer a de nossos alunos.

Quais são as suas rotinas? Quais são seus jogos e brincadeiras? Como aprenderam? Com quem? Onde brincam? Trabalham? Em quê? O que fazem quando não estão na escola?

O que fazem nos fins de semana? Ajudam nas atividades domésticas? Como é sua habitação? Vivem em casas? Apartamentos? Quartos? Barracos? Brincam em quintais? Freqüentam parques? E as ruas? Quem cuida deles ao longo do dia? Como se alimentam? Quem lhes prepara o café-da-manhã, o almoço e o jantar? Assistem à televisão? O que assistem? Ouvem rádio? O que ouvem? Lêem revistas? Quais?

É preciso conversar com a classe sobre esses assuntos, identificar as semelhanças nos costumes, destacar as diferenças, comparar com os hábitos de outras crianças, vizinhas ou de outras localidades.

É possível fazer entrevistas, localizar e ler reportagens de jornais, ler contos e histórias, pesquisar em livros e enciclopédias, pesquisar fotografias, assistir a documentários, enviar cartas e assim por diante.

O estudo da história da criança

Com o objetivo de aprofundar o estudo da história da criança no Brasil, podemos planejar e desenvolver em classe trabalhos sobre costumes de outros tempos.

Uma boa idéia consiste em entrevistar pais, avós, parentes e amigos da família e pesquisar em fotos antigas, buscando saber, por exemplo:

- Que roupas usavam?
- Como era a escola?
- Como era a convivência entre irmãos e amigos?
- Como se davam as relações de afeto e de castigo?
- Quais eram as brincadeiras e os brinquedos?
- Como eram os fins de semana, as tarefas domésticas ou o
trabalho?
- Que dificuldades e que facilidades havia para a sobrevivência?
- Como eram as festas familiares, do bairro ou da localidade?

É possível, ainda, trabalhar com histórias de outras localidades brasileiras, de outras famílias e de outras épocas. Pode-se escolher um momento, ou um local, e pesquisar, por exemplo: como viviam as crianças do início do século 20, ou as de algum período anterior; como vivem nas aldeias indígenas, nas fazendas, nas cidades e nas vilas. De acordo com o recorte escolhido, é possível selecionar fontes adequadas e levantar questões como:

- De que e como brincavam? Conheciam cantigas de roda?
Tinham brinquedos?
- Eram castigadas? Respeitavam seus pais?
- Como era sua vivência na escola?
- E os batizados? A primeira comunhão?
- Quando se transformavam em moços e moças?
- Quando começavam a trabalhar na roça?
- As da cidade trabalhavam nas fábricas?
- Que tipo de roupas vestiam?
- Brincavam na rua, nas calçadas, nos quintais?

Fotos antigas, como esta do jornaleiro (à direita), feita por Augusto César Malta no Rio de Janeiro, em 1914, dão margem a boas discussões a respeito do modo de vida das crianças daquela época. Também se pode recorrer a relatos de viajantes, gravuras, reportagens de jornais, pinturas, textos literários e outras fontes.

Os estudos históricos permitem que os alunos dimensionem os costumes e os hábitos em uma perspectiva social e temporal. Favorecem trabalhos de comparação e de identificação do que permaneceu e do que mudou ao longo do tempo. Contribuem para reavaliar as atividades do cotidiano, considerando que fazem parte de situações sociais mais amplas.

Assim, auxiliam os alunos a compreenderem que seus costumes, suas brincadeiras e seu modo de viver são específicos dos dias de hoje, mas, ao mesmo tempo, são recriações do que foi transmitido, ensinado e construído pelas gerações precedentes.

 

(Fonte: História. Geografia. Ciências. Artes. – Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação a Distância, 1998. 96 p. : il.; 16 cm (Cadernos da TV Escola. PCN na Escola, ISSN 1516-148X; n. 5. p.12, 13, 14 e 15).

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