Edição 17

Pintando o 7

A identidade na obra de Roger Mello*

Rosinha Campos

Uma realidade é inquestionável na Literatura Infantil Brasileira atual: a presença da ilustração. É cada vez mais raro um livro para crianças em que as imagens não sejam objeto de leitura, possibilitando leituras múltiplas.

As investigações que uma história pode oferecer ficam ampliadas à medida que, para além da narrativa, elementos visuais são incorporados ao ato da leitura das palavras. Na sonoridade, no ritmo e na cadência do escritor, está a semente que vai sugerir uma outra música: a das cores, texturas e formas.

No entanto, uma postura é exigida desse profissional: ser leitor. E ser leitor é uma atitude que jamais se fecha, pois cada obra lida amplia mais e mais o universo pessoal.

Neste ponto, a obra de Roger Mello entra em foco, e três fatos chamam a atenção:

· A quantidade: em catorze anos, publica cerca de cem livros.

· A diversidade: das formas, das cores e dos espaços nos livros que ilustra.

· A qualidade: no cuidado da pesquisa e na utilização das técnicas.

Não se trata de uma obra acabada, definida e determinada por um estilo, por um traço ou por uma textura que se repita, que, de um traço primeiro, já se pressinta a seqüência de traços e formas.

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Roger é um artista ainda muito jovem, tanto quanto é jovem o seu leitor. Leitor jovem que, em cada nova leitura, busca uma nova compreensão e um novo ponto de direção para olhar o mundo. Demonstra e mostra uma inquietude que nos leva a ver e a ler sempre “com olhos de primeira vez”. Sua leitura, extremamente pessoal, das histórias que ilustra e cria, chega a ser desconcertante para seus leitores.

Desconcertante porque não nos é possível prever em que textura estará sendo tecido o próximo texto que a teia criativa de Roger tece e nos enreda.

pint01Desconcertante por não traçar um caminho, coisa aparentemente segura num mundo de medos e incertezas; ao contrário, a obra de Roger não encaminha. É sempre uma nova encruzilhada para o leitor porque é uma encruzilhada para ele, Roger/leitor.

Desconcertante porque, no caminho erudito de sua formação, de seu virtuosismo, existe a possibilidade de encontro com uma carranca, um boi de bumba, uma taça de cristal, uma gota de sangue na xícara de chá do vampiro, fazendo com que, neste encontro, aconteça algo surpreen-dente, nunca a obviedade do já visto ou a tentativa de se copiar para parecer autêntico.

Desconcertante para a identificação de estilos, correntes, escolas e modelos a que Roger Mello poderia estar ligado, para que fosse possível um estudo estrutural da sua obra.

Desconcertante para organizar este texto, porque, a cada leitura de um trabalho seu, surgem idéias, possibilidades, caminhos novos e surpreendentes.

O ecletismo de Roger Mello vai obrigando o leitor a construir sua leitura, vai proporcionando uma educação do olhar muito mais rica, porque nos traz elementos de correntes e escolas diferentes, ora colocando-os lado a lado, ora mesclando-os para deixar aparecer uma imagem nova, criativa, arrojada, corajosa e… desconcertante.

Beatriz Sarlo, teórica da arte contemporânea, afirma que: A Arte atual trabalha com a variedade. Cruza e sobrepõe realidades diferentes entre si: cultura de massa, grandes tradições estéticas, culturas populares, linguagens próximas do cotidiano, tensão poética, dimensões subjetivas e privadas, paixões públicas.

A obra do ilustrador Roger Mello parece ter servido de modelo para essa análise. Seguindo o caminho traçado por seus livros, vamos encontrando marcas de cada um dos pontos abordados acima. Se em A Cristaleira o traço naturalista encanta e provoca memórias, puxando fios de histórias pessoais, próprias, nominadas, de tempos diferentes para cada leitor, em Cavalhada de Pirenópolis, nas festas que mesclam o sagrado e o profano de nossas manifestações, atitudes sociais, desde o manto desenhado na capa, ao trabalho das anônimas artesãs bordadeiras, guardadas no imaginário de tantos e realidade na vida de alguns.

Numa primeira leitura, poderíamos pensar em uma obra sem identidade ou num autor sem identidade com a sua obra, mas, numa aparente busca de identidade artística, revela uma atitude bastante contemporânea. Roger incorpora em seu traço, em seu desenho, o que ele está desejando narrar, com os recursos que se fizerem necessários para aquele texto, aquele momento, aquela leitura. Respeita, acima de tudo, o seu espaço de leitor e não adorna… Mais do que buscar uma identidade, ele questiona essa identidade.

No caso da cultura popular, no momento em que passa a dialogar com essa forma de expressão, que para o artista não difere da erudita, absorve o desenho e o recompõe, como na Coleção Tião Parada, na qual introduz cores que não são do universo popular, criando uma linguagem outra, uma cadência, uma permissividade que rejeita censura e que busca o que faz sentido para seu primeiro leitor: ele mesmo. Em Bumba meu boi Bumbá, no qual a figura popular, elemento de presença marcante em especial no Norte e Nordeste, ganha um traço que busca o Cubismo e a Op-Art, sem deixar perdido ou diminuído o popular, a cultura que habita o imaginário da gente brasileira, de onde saiu o mote para a criação do livro.

A procura e os encontros que daí resultam estão centrados não na busca de uma identidade, mas no convite à liberdade. Liberdade a que o artista se permite, não censurando formas, escolas, referências, texturas, culturas; permitindo identificar-se, num renovado diálogo, com todas as possibilidades que o mundo contemporâneo nos proporciona, e que lhes são sugeridas pelos textos e pelas histórias que constrói, ampliando, cada vez mais, seus limites, permitindo-se leituras próprias e pessoais, construindo uma postura estética a cada novo motivo/inspiração/mote, em que sua poética se imprime de forma cada vez mais indelével.

Traz para a ilustração o posicionamento do artista contemporâneo, traz a possibilidade de dialogar com as várias formas de representar o imaginário. Ao trazer esse posicionamento para dentro do livro de literatura para crianças, Roger proporciona a ampliação do universo de estilos e formas para esse leitor novo, que carrega já, desde o berço, um mundo de informações visuais existentes na mídia, na rua, na programação infantil, enfim, nos produtos preparados na indústria cultural para o consumo de todos.

O resultado desse trabalho renovador pode ser o encontro com um leitor também novo, inserido numa sociedade que se transforma, buscando identidades, aprendendo a tradição, desde as danças ancestrais até o universo cultural globalizado. Leitor que não se deixa conduzir por preconceitos, mas está sempre pronto para ler o seu tempo com mais coragem.

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rosinhaRosinha Campos – * Recorte da Monografia Um olhar sobre os olhares de Roger Mello, apresentada no 27º Congresso Mundial do IBBY, realizado de 18 a 22 de setembro de 2000, em Cartagena, Colômbia.

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