Edição 90

Em discussão

A importância da autoestima para o professor

Beatriz Acampora

Ser professor na atualidade requer competências que estão além do saber ensinar: é preciso agregar liderança, criatividade, proatividade, resiliência, comunicação assertiva, relacionamento interpessoal, dentre tantas outras habilidades que fazem parte do encantamento que é a troca de experiências e a construção do saber. Para que todas essas competências sejam possíveis, o professor deve cuidar da sua autoestima. O autoconceito positivo é a base para a autoconfiança, tão primordial em tempos difíceis para o ensino-aprendizagem. Mas como será que anda a autoestima dos professores em uma época em que a jornada de trabalho é grande, as cobranças são excessivas e o salário é desvalorizado?

A autoestima determina e direciona os pensamentos, as emoções e os comportamentos das pessoas. O senso de valor próprio e competência e a avaliação pessoal que uma pessoa faz de si são a base para os relacionamentos interpessoais e as trocas saudáveis em sociedade.

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O mundo sofre de um grande problema: baixa autoestima. A atenção parece um artefato cada vez mais raro e caro. Alguns fatores contribuíram para isso: a cobrança social para que as pessoas trabalhem intensamente, ganhem mais dinheiro e comprem mais produtos; o avanço tecnológico, que globaliza as informações, une mundos e, ao mesmo tempo, diminui o convívio pessoal e a intimidade.

A autoestima é a fonte do nosso poder pessoal, da capacidade que todo ser humano tem de influenciar e ser influenciado nas relações sociais. Em todos os tipos de relação, a autoestima é o pano de fundo, pois ela determinará o modo como o indivíduo irá respirar, se emocionar e agir. Em situações de trabalho, por exemplo, pessoas com autoestima elevada tendem a ser mais ágeis, a falar assertivamente o que querem, a lutar pelos seus objetivos de forma clara. Uma pessoa com alta autoestima acredita em si mesma, é o que quer ser, goza a vida e assume responsabilidades sem culpar os outros ou se justificar pelas escolhas que faz.

Professores precisam ter autoconfiança para o exercício da docência. A autoconfiança consiste na previsão realista dos seus recursos internos disponíveis necessários para encarar um tipo específico de situação. Só a própria pessoa se conhece tão bem a ponto de prever possíveis atitudes, comportamentos e sentimentos diante de uma dada situação e escolher a melhor maneira de agir sem agredir a si mesmo e ao outro. Uma pessoa autoconfiante tem mais chances de promover relacionamentos saudáveis, pois uma vez que conhece quais são os seus limites, avalia suas prioridades, respeita a si mesma e as suas emoções. A autoconfiança também está associada ao desenvolvimento da alteridade, isto é, o desenvolvimento da noção de que se eu sou um indivíduo, o outro também é um indivíduo e ambos devemos ser respeitados nas mais diversas relações em nossos direitos humanos.

A autoestima é a base da autoconfiança. Uma pessoa que se compreende de uma forma positiva tende a se direcionar pela vida de um modo decisivo e deliberado. A autoconfiança atualmente é considerada uma competência ou habilidade a ser avaliada nos processos seletivos realizados pelas organizações que estão à procura de pessoas capazes de negociar, enfrentar desafios, criar possibilidades e ultrapassar fronteiras. Pessoas autoconfiantes tendem a expressar confiança na própria capacidade de superar desafios e situações difíceis, investem mais no seu desenvolvimento pessoal e profissional e são mais resilientes. Um professor com essas características se torna um exemplo positivo e tende a ser mais feliz na sua profissão.

Quando a autoestima está em baixa, a tendência é projetar nas relações com o outro o modo como o sujeito vê a si mesmo. Ao pensarmos em como isso pode afetar a relação professor-aluno e ainda servir de base para a identificação de crianças e jovens, faz-se necessário criar medidas para que haja a valorização do professor, através da criação de ambientes de trabalho mais saudáveis, treinamentos e investimentos, para que esse profissional, tão importante na nossa sociedade, tenha saúde de forma integralizada e biopsicossocial para enfrentar os desafios educacionais a que está exposto diariamente.

É importante criar espaços de convivência e discussão para compreender os próprios pensamentos, sentimentos e atitudes para que se possa viver em sociedade com qualidade, utilizando as emoções como instrumentos de crescimento. E a escola tem um papel fundamental no desenvolvimento da autoestima de todos os atores envolvidos no processo educacional.

Temos visto a luta dos professores para serem valorizados e respeitados. A autoestima na vida adulta passa também pelo mérito da vida profissional e pelo respeito nas trocas das relações que se estabelecem. Mas, quando os embates se tornam duros demais, tanto no local de trabalho quanto fora dele, a tendência é que prevaleça o sentimento de desamparo diante da indiferença dos fatos.

A escola é um forte referencial para a criança, e os professores são verdadeiros mestres que servem de exemplo. Quando o professor tem dificuldades com seu próprio autoconceito, os alunos sentem isso e podem reagir de muitas formas, que vão desde introjeção e reprodução dos valores do professor até a depreciação do mesmo. É importante ressaltar que, quando chegamos ao ambiente de trabalho, não deixamos uma parte de quem somos do lado de fora da porta, o que implica dizer que a escola é o ambiente de trabalho dos educadores e está carregada de tudo o que é levado para ela. Por isso, é importante que o professor invista na sua própria autoestima e incentive seus alunos a desenvolverem seu potencial de autoestima através de práticas que permitam a expressão do ser e a ampliação de recursos internos.

O Governo e os profissionais da educação devem investir em um ambiente escolar que gere uma atitude de confiança nas pessoas. A escola precisa ser um lugar agradável para todos os que nela circulam. O aluno precisa se sentir tão bem quanto o professor. E a confiança é a base de qualquer relação saudável.

Muitas pessoas tendem a apreender o mundo do trabalho como uma tortura, uma prisão, uma guerra a ser lutada. O trabalho também é uma projeção do nível de autoestima da pessoa. Por isso, é tão importante que cada um avalie o papel do trabalho na sua vida. Ao questionar-se “Para que eu trabalho aqui?”, uma pessoa deve ter como resultado interno algo mais do que a resposta “Pelo dinheiro”, pois o salário pode vir de outra fonte, outro local. O que as pessoas buscam no trabalho é prazer, crescimento e autorrealização, mas, infelizmente, na educação, o que começou com uma forte paixão, e até mesmo com sentimento de vocação, pode ter se tornado um grande fardo em função do modelo político atual e das condições de trabalho de muitas escolas brasileiras.

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Temos visto muitos profissionais da educação com síndrome de Burnout, depressão e tantos outros problemas de saúde que são gerados pelo estresse da profissão diante das condições oferecidas: falta de recursos para o trabalho, violência nas escolas, falta de respeito pelo professor, desvalorização da classe pelos governos e muito mais. A autoestima do professor precisa ser redescoberta através de práticas que enalteçam o valor profissional e recuperem o mérito do ensino no País. Isso deve partir de todos os envolvidos no processo educacional e da sociedade.

Beatriz Acampora é psicóloga, professora da Universidade Estácio de Sá e autora do livro Autoestima: práticas para transformar pessoas.

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