Edição 66

Em discussão

A importância da educação musical na infância

Luiz Gonzaga M. Penteado

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Se toda criação é vibração e se vibração é som, consequentemente podemos dizer que, dentro da criação, no Universo, não pode existir silêncio.

Na verdade, quando se fala de silêncio neste mundo, trata-se apenas de uma condição relativa: é uma vibração condicionada às limitações de nossa percepção. E se supomos que, no princípio era silêncio, havia silêncio porque não havia movimento e, portanto, nenhuma vibração podia agitar o ar — um fenômeno de fundamental importância na produção do som. A criação do mundo, seja qual for a forma como ocorreu, deve ter sido acompanhada de movimento e, portanto, de som, o que sugere uma criação musicalizada (KARÓLY – BRITO, 2003, p. 17).

No princípio, o homem estava em contato e reproduzia os sons que ouvia da natureza — como o vento forte, a chuva, a água dos rios, o estalar de galhos, o canto dos pássaros e tantos outros animais — não só com a intenção de imitá-los, mas também porque essa era a música que ele conhecia. Criava a partir de suas necessidades de comunicação e também de subistência, utilizando materiais sonoros, como seu próprio corpo, emitindo sons, como as palmas, batendo as mãos.

É possível que, depois, convivendo com outras pessoas, o homem tenha sentido necessidade de comunicar-se, fazendo uso dessa “música” como meio de expressão, de interação com os outros, construindo e reconstruindo seu próprio mundo na busca de sua realização plena de ser e de estar neste mundo já naturalmente musicalizado e encontrando uma forma criativa e prazerosa de inserir-se como ser no mundo.

Ser no mundo, estar no mundo, crescer com o mundo e para o mundo. Estar aberto ao mundo e, ao desvelar das coisas deste mundo, encontrar-se consigo mesmo. Com as capacidades e possibilidades de construção. De criação e recriação, na relação com o mundo e com os seres que nele habitam.

Pois o homem expressa suas emoções, alegres ou tristes, eufóricas ou calmas, relativas ao trabalho, à religião ou a qualquer outra atividade do dia a dia. O conhecimento cresce à medida que criamos novas formas de vivenciar situações, emoções, sensações. A música propicia essas descobertas para o homem por meio de uma sonoridade rítmica e melódica presentes na vida de todo ser humano. À medida que o homem vai vivendo e experienciando, ampliam-se sua visão criativa e sua capacidade de interpretar o mundo de maneira cada vez mais criativa.

Tudo o que o ouvido percebe sob a forma de movimentos vibratórios é chamado de som. Som é tudo aquilo que soa. Os sons que nos cercam são expressões da vida, da energia, do universo em movimento. Indicam situações, ambientes, “paisagens sonoras”, os animais, a natureza, os seres humanos e suas máquinas traduzem também sonoramente a vivência, o ser-estar neste mundo.

A criança precisa ser constantemente estimulada para o desenvolvimento de sua inteligência e a exploração de sua inquietação, pois “é, por natureza, inquieta. Sente necessidade de correr, pular, brincar. Ela, tendo espaço e oportunidade, naturalmente executa seus movimentos. Cabe à escola oferecer espaço e momentos para continuar e possibilitar esse processo” (FEIL, 1985. p. 45).

Aprender a estudar deve ser um dos aspectos trabalhados com empenho e atenção pelos educadores, porque “A escuta tem grande importância na Educação Infantil, pois todos os demais conteúdos se alinham por meio da audição e da percepção” (AKOSCHKY – BRITO, 2003. p. 187), fato este que reafirma a importância de a criança experienciar os sabores do jogo, da brincadeira, da música, de maneira expressiva e criativa.

É importante lembrar que também a nossa escuta — tanto musical quanto educacional, assim como os outros sentidos — guia-se por limites impostos pela cultura, ou seja, o território do ouvir tem relação direta com os sons da nossa vivência, do nosso entorno, sejam eles musicais ou não, pois “a cultura imprime suas marcas no indivíduo, ditando normas e fixando ideais nas dimensões intelectuais, afetivas, morais e físicas, ideais esses que indicam à Educação o que deve ser alcançado no processo de socialização” (GONÇALVES, 1994, p. 13) no encontro com o mundo, com o outro e consigo mesmo.

Desde o princípio, o sentido da audição é responsável por significativa leitura das coisas deste mundo, já que sons e silêncios são portadores de informações e significados. Os sons da natureza (ondas do mar, vento nas folhagens, trovões e urros dos animais) ou os sons produzidos pelas pessoas (sons com materiais disponíveis, espirro, voz, sons que o corpo produz) traduzem informações objetivas (a presença de um animal por perto, uma tempestade), provocando também sensações, emoções e reações subjetivas.

Perceber, produzir e relacionar-se com e por meio de sons faz parte da história de vida de todos nós: ao atravessar a rua, ouvimos a buzina de um carro e ficamos atentos, ouvimos trovões e fechamos as janelas de casa, conhecemos inúmeras informações sonoras que, vale lembrar, mudam com o tempo e de uma cultura para outra. Basta pensar na diferença existente entre o ambiente sonoro de um grande centro urbano e o de uma tribo indígena ou, ainda, na paisagem sonora da época dos nossos antepassados distantes. Como será que eles reagiam à escuta de sons que não conheciam?

A sensibilidade das coisas, a percepção, a discriminação e a interpretação de situações sonoras, possibilitadoras de interações com o entorno, têm grande importância na formação e constante transformação da criança. Desenvolve a consciência de espaço e tempo como aspectos prioritários da consciência humana, da consciência da duração do eu; sua persistência no tempo vivo não cabe aos relógios, uma vez que é metacrônica, ou seja, mais que mera continuidade cronológica. É uma dimensão constituinte que, talvez, se possa chamar de intencionalidade da vida. É uma temporalidade profunda, onde Chrónos e Kairós se entrelaçam (ASSMAN, 2001, p. 229).

Muitos foram os processos da história da música na vida do homem. Ela destina-se à totalidade do homem: seus sentidos, seu coração, sua inteligência e, de acordo com Willems (1970), “Os três domínios da natureza humana: o fisiológico, o afetivo e o mental estão estritamente ligados aos elementos constitutivos da música”, que são: o ritmo, a melodia e a harmonia.

Entendemos, portanto, que a Educação Musical na Educação Infantil é de suma importância por desenvolver o ser humano em sua totalidade, pois a música engloba todos os aspectos da vida.

Luiz Gonzaga M. Penteado é Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Psicopedagogia e Gestão Educacional.

Referências

ASSMAN, Hugo. Reencantar a Educação. Rumo à Sociedade Aprendente. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

BRITO, Teca Alencar. Música na Educação Infantil: propostas para a formação integral da criança. São Paulo: Peirópolis, 2003.

FEIL, Iselda Teresinha Sausen. Alfabetização: um Desafio Novo para um Novo Tempo. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

GONÇALVES, Maria Augusta Salin. Sentir, Pensar, Agir: Corporeidade e Educação. Campinas: Papirus, 1994.

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