Edição 71

O livro da vez

A inteligência dos pequenos

Cisele Ortiz

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Li o livro A Psicologia da Criança em 1994, quando cursava Psicologia na Universidade de São Paulo (USP). Era leitura obrigatória de uma disciplina orientada pelo professor Lino de Macedo. Na época, a ditadura brasileira valorizava o ensino voltado à formação de trabalhadores. Ler Jean Piaget (1896–1980) nos abria a possibilidade de olhar além, vislumbrando novas formas de aprender e de ensinar.

Desde então, consulto essa obra sempre que quero recordar conceitos e aspectos-chave da teoria piagetiana. O livro — pequeno em tamanho, mas denso em conteúdo — é como uma degustação de tudo que esse teórico pensou a respeito do desenvolvimento infantil. Afinal, foi com base nas contribuições de Piaget que nós, educadores, entendemos que a criança não é um adulto em miniatura e que seu modo de pensar difere muito do nosso.

Ler esse teórico exige dedicação. A ideia central da obra é que o conhecimento se realiza por meio de construções contínuas do sujeito em interação com o real. Tal conceito está presente em inúmeros trechos, como no capítulo 3. Nele, o autor detalha o surgimento da função simbólica, além de esclarecer os conceitos de jogo e de imagem mental atrelados a ela. Também discorre sobre seus estudos a respeito da evolução da linguagem e das relações dela com o pensamento. Discute, ainda, o papel do pensamento como um instrumento cognitivo a serviço da reflexão, dado que a linguagem já está construída e organizada socialmente.

A leitura do livro mostra que Piaget lançou luz sobre vários aspectos do desenvolvimento infantil, que mais tarde muitos outros pesquisadores puderam aprofundar. Hoje, felizmente, todo esse conhecimento nos permite formular propostas pedagógicas que, respeitando a forma como a criança constrói o conhecimento, a fazem avançar de forma efetiva e segura.

Cisele Ortiz é psicóloga.

Referências bibliográficas

Revista Nova Escola. São Paulo: Abril. Ano XXVIII, n. 261. Abril de 2013.

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