Edição 45

Projeto Didático

A leitura em sala de aula

Dileta Delmanto

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O conceito de letramento considera os graus de intimidade do indivíduo com usos e funções da escrita e da leitura. Quando alguém sabe ler, mas só consegue compreender textos muito simples, essa pessoa pode estar alfabetizada, mas tem um nível de letramento muito baixo.

Esse nível aumenta à medida que se aprende a lidar com variados materiais de leitura e de escrita. Quanto mais textos alguém é capaz de ler e entender, mais letrado se torna. É importante auxiliar os alunos a desenvolverem procedimentos que caracterizam um bom leitor, tais como:

Voltar várias vezes ao texto para localizar uma informação ou responder questões suscitadas durante a leitura.
Inferir significados das palavras pelo contexto.
Observar indicadores como título, ilustrações, subtítulos, autor, gênero, disposição espacial do texto, veículo, considerando-os como elementos para atribuição de sentido.
Ler procurando reconhecer a finalidade do texto e as intenções do autor.
Relacionar o conteúdo do texto à vivência de cada um. Nesta época de profundas transformações em que vivemos, a escola precisa, mais do que nunca, fornecer ao estudante os instrumentos necessários para que ele consiga buscar, analisar, selecionar, relacionar e organizar as informações complexas do mundo contemporâneo.
Esse papel da escola ganha relevância em um país como o nosso: para muitos, fora da escola, são poucas as oportunidades de contato com a leitura para informação, para exercer minimamente a cidadania e para entretenimento.

Por isso, entre outros papéis que deve desempenhar, a escola precisa se preocupar cada vez mais com a formação de leitores. Mas com que tipo de leitores? Que sejam capazes de mobilizar que tipos de procedimento e habilidade? Que atividades devem ser selecionadas para que os alunos desenvolvam as capacidades envolvidas no ato de ler?

Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que não basta ensinar a ler e a escrever: é necessário desenvolver o grau de letramento dos alunos, dirigindo o trabalho para práticas que visem à capacidade de utilizar a leitura (e a escrita) para enfrentar os desafios da vida em sociedade e, com o conhecimento adquirido, continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida.

Para isso, é fundamental propor trabalhos com os diferentes gêneros que circulam na sociedade1 , mas sem deixar de criar situações que permitam aos alunos desenvolverem as diferentes capacidades envolvidas no ato de ler. Além de ensinar a ler as linhas, é necessário desenvolver a capacidade de ler nas entrelinhas e de ler para além das linhas2 , isto é, devemos ensinar, avaliar e cobrar capacidades leitoras de várias ordens: capacidade de decodificação, de compreensão e de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto, como sugere Roxane Rojo³.

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Se, ao propor atividades de leitura, procurarmos contemplar essas diferentes ordens, nossos alunos serão capazes não apenas de localizar informações, mas de relacionar e integrar partes do texto, de refletir sobre os seus sentidos — captando as intenções de pistas deixadas pelo autor — de deduzir informações implícitas, de perceber relações com outros contextos, assim como de gerar mais sentidos para o texto e de valorar o que leem de acordo com seus próprios critérios.

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Parece complicado? Os exemplos apresentados a seguir mostram algumas das capacidades de leitura utilizadas no dia a dia.

Antes da leitura

Identificar as finalidades da leitura (com que objetivos se vai ler): para procurar informações por prazer, para conhecer determinados assuntos, para atualizar-se, para seguir instruções, para revisar o próprio texto.

Antecipar ou predizer: antecipar as informações que podem estar no texto a ser lido a partir do título, do tema abordado, do autor, do gênero textual; antecipar o tema ou a ideia a partir do exame de imagens (fotos, gráficos, mapas, tabelas, ilustrações).

Ativar conhecimentos prévios: incentivar os alunos a exporem o que sabem sobre o assunto/conteúdo e/ou a forma do texto.

Durante a leitura

Inferir: construir o significador de palavras ou expressões a partir do contexto da frase; tirar conclusões que não estão explicitadas, com base em outras leituras, experiências de vida, crenças, valores…

Levantar e checar hipóteses: formular hipóteses a respeito da sequência do enredo, da exposição ou da argumentação; confirmar, rejeitar ou reformular hipóteses anteriormente criadas.

Perceber as implicações da escolha do gênero e do suporte: relacionar o gênero escolhido com as intenções do autor; estabelecer relação entre suporte e organização textual.

Localizar informações (explícitas ou implícitas no texto): situar quem é o autor, de que lugar (físico/social) escreve e em que época, em que situação escreve, com que finalidade; em qual portador o texto foi publicado (jornal, revista, livro, panfleto, folheto); localizar informações importantes para a compreensão do texto ou para fins de estudo; identificar palavras-chave para a definição de conceitos; localizar informações relevantes para determinar a ideia central do texto; relacionar informações para tirar conclusões.

Depois da leitura

Extrapolar: ir além do texto; projetar o sentido do texto para outras vivências e outras realidades; relacionar informações do texto ao conhecimento cotidiano.

Apreciar criticamente o texto (estética, afetiva, ética…): avaliar as informações ou opiniões emitidas no texto; avaliar recursos estilísticos utilizados; estabelecer relação entre recursos expressivos e efeitos de sentido pretendidos pelo autor.

Dileta Delmanto
Mestre em Língua Portuguesa e autora de livros didáticos.

Fonte: Na Ponta do Lápis. Almanaque do Programa Escrevendo o Futuro. Ano III. Nº 7. Agosto de 2007.

¹ Ver Na Ponta do Lápis, n. 4, p. 6. Na comunidade virtual do Programa Escrevendo o Futuro (www.escrevendoofuturo.org.br), você encontrará muitos e interessantes textos sobre o assunto.
² Três momentos da escola clássica apontados por Ezequiel Theodoro da Silva em De Olhos Abertos (São Paulo: Ática, 1991).
³ Letramento e capacidade de leitura para a cidadania.Texto produzido para o Cenpec em 2004.

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