Edição 18

Lendo e aprendendo

A LIBÉLULA – Transitoriedade da vida

Contado por Inno Sorcy no Festival de Inverno, Ouro Preto, 1997.

Gostaria que vocês imaginassem um pequeno lago… Dentro desse lago, há um tufo de grama. Nesse tufo de grama, num ramo fino como uma lâmina, há um casulo.

Numa manhã, apareceu um buraquinho no casulo. Ele foi crescendo, crescendo, ficando maior, até que, de dentro, saiu um braço; e, depois, outro; uma perna e, depois, uma outra; logo-logo, saiu uma cabecinha muito bonita com dois olhos grandes e redondos. Ainda saíram duas lindas e translúcidas asas. Agora, no raminho de grama, havia uma libélula.

A libélula olhou e viu, pela primeira vez, o céu azul, o branco das nuvens, o verde da grama e a cor das flores, a altura das árvores… Estava feliz.

Começou a testar suas asas e viu que podia voar alto. O primeiro era um vôo ao topo de uma árvore. Depois descobriu que podia voar em direção ao sol e, relaxadamente, passou por uma nuvem e fez acrobacias no ar. Mais tarde mergulhou numa poça d’água, mexendo um pouquinho com as asas. Estava feliz…

A libélula, já mais segura de si, gostaria de ir um pouco mais longe! Voou e voou até chegar numa casa. Voou ao redor da casa.

Bem atrás, havia uma janela aberta, e, por curiosidade, resolveu voar para dentro desse lugar: viu panelas e panelas brilhando em prateleiras…

Descobriu que estava numa cozinha. Mas não sabia que o cozinheiro, nesse dia, estava preparando um banquete. Ela queria ver tudo em detalhes: voou para o alto e olhou lá de cima. Viu uma mesa onde havia um pote bem redondo, cheio de uma guloseima que não conhecia: “Oh! Nuvens brancas”, pensou. “Há nuvens lá em cima e aqui também.”

A libélula quis mergulhar nas nuvens… Tomou distância, mirou o alvo e… se jogou naquela “nuvem branca”. Ploft!

Foi quando descobriu que aquilo não era uma nuvem, mas algo muito grudento: um creme muito pesado para suas asas, impedindo-a de se movimentar… Quanto mais tentava se erguer, mais tentava, mais se afundava.

A libélula começou a rezar:
— Oh, Deus de todas as criaturas voadoras… por favor, me ajude; eu não sabia que isso era tão grudento… Por favor, me tire daqui… Se você fizer isso, prometo que, imediatamente, passarei a ajudar todas as criaturas voadoras, especialmente as que estiverem em dificuldades. Vou me dedicar totalmente a nobres causas. Por favor, me ajude!

Nesse momento, o cozinheiro começou a escutar uns cochichos, mas não sabia que era uma libélula rezando…

Olhou para a mesa, se dirigindo até ela. Olhou dentro do pote:
— Esse inseto horrível… essa libélula horrorosa dentro do creme, contaminando meu delicioso tempero?!, reagiu indignado.

Rapidamente pegou-a com os dois dedos, chegou até a janela e… jogou-a na grama, lá fora.
— Saia daqui e não volte, disse com raiva.

Feliz, a libélula tentou de novo voar. Ao bater as asas, pesadas de creme, caiu na grama. Assim tentou tirá-lo primeiro de suas patas de trás, de frente… e, finalmente, de todo o seu corpo. Deitou na grama e notou que o dia estava lindo. O sol estava brilhante, quente! A brisa secava-lhe o corpo…

“Ah! Acho que hoje vou tirar uma boa soneca; depois dessas experiências, mereço mesmo descansar um pouco. Amanhã de manhã vou começar, conforme prometi, a ajudar as criaturas voadoras e a dedicar minha vida a causas nobres. Hoje, vou ficar aqui quietinha. Afinal, um dia a mais… uma dia a menos… não fará tanta diferença”, pensou alto.

Assim, a libélula adormeceu…

Mas o que ela não sabia é que uma libélula somente vive por um dia…

É por isso que as pessoas dizem: — Você não pode deixar para amanhã o que deve fazer hoje.

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