Edição 81

Lendo e aprendendo

A Matemática, sempre a Matemática!

Magnus Cesar Ody

Rebeca é uma aluna prestativa e atenciosa. Dia desses fez um sinal para conversarmos. Disse então: “Professor: eu tenho muita dificuldade em Matemática. Até hoje eu não aprendi direito tudo isso. Faço as tarefas, venho às aulas, mas não compreendo e não sei quando usar”.

Rebeca pode ser um exemplo dentre muitos estudantes que encontram na Matemática uma barreira de aprendizagem. A nós, professores, cabe refletir sobre a relevância dos conhecimentos matemáticos na vida e o papel que estamos desempenhando. No caso da Rebeca, quais habilidades e competências em Matemática seriam necessárias para ela exercer a cidadania? Quais dificuldades ela encontra hoje e encontrou na trajetória escolar?

Faz parte da vida

A Matemática não é lugar de poucos, ao contrário, faz parte de todos nós, está presente em diversas situações do cotidiano quando fazemos uso dela para resolver problemas. Não se desenvolveu e nem foi criada para ser uma disciplina fechada em seus enunciados. Foi constituindo-se pela sobrevivência do ser humano e para a vida em sociedade.

Em diversos momentos na escola (e fora dela), encontramos a Matemática “pronta”, com suas fórmulas e enunciados dispostos como se fossem estar ali por toda a vida. Ao aluno, cabe a missão de decifrar seus enunciados e aplicar os cálculos necessários para a resolução de um problema.

O que está em jogo é a aprendizagem do aluno, que deve ser focada na competência individual e relacional, com o objetivo de atingir a autonomia. Esta, por sua vez, necessita de tempo, avaliação contínua e um conhecimento do ser humano em suas diferentes formas de aprender e comunicar a aprendizagem.

A Neurociência vem desvendando, por meio dos estudos do cérebro, que é possível compreender as diferentes maneiras de como o ser humano pensa e aprende. Marta Relvas descreve que é possível uma educação mais justa e menos excludente (do professor e do aluno) quando compreendemos a teia que envolve a cognição, a memória, as inteligências, as diferentes habilidades, os comportamentos e as emoções.

A Psicopedagogia vem contribuindo efetivamente, a partir do estudo das bases neurobiológicas e biopsicológicas, para a formação dos professores e também para as intervenções pedagógicas com os alunos.

Pensar e aprender

Todo ato de pensar é complexo (ou seja, algo que é tecido junto). Pensar Matemática também é complexo e exige esforço e habilidades de raciocínio e pensamento. É mais difícil aprender Matemática sem relação com o dia a dia, sem atividades práticas, sem manipulação e sem o uso de diferentes modos de ler, escrever e calcular.

O pensamento matemático é responsável pelas ações que tomamos a respeito de um fato ou ação. Está ligado às estratégias e ao planejamento na solução de um problema. Abrange um ciclo de investigação formado por alguns passos, tais como: a problematização (questionamento); o planejamento; diferentes modos de pensamento; a produção, a interpretação e a busca de soluções para o problema; e o comportamento diante dos resultados obtidos.

Utilizamos o conhecimento matemático diariamente tanto para resolver problemas quanto para auxiliar na interpretação de informações. Necessitamos do pensamento nas ações mais simples, em que são exigidas as operações elementares (adição, subtração, multiplicação, divisão, proporcionalidade, conhecimento espacial), e nas ações mais complexas, como interpretar um gráfico ou tabela, compreender como é realizado o cálculo do coeficiente eleitoral nas eleições, o cálculo de uma área, dos juros cobrados por uma instituição.

Seria viável (re)construir um currículo dinâmico, valorizando os conteúdos historicamente constituídos, relacionando-os com o uso da tecnologia, da resolução de problemas, da modelagem e dos jogos. Entretanto é fundamental compreender que aprender Matemática não é somente sinônimo de saber calcular. É também ler, escrever e comunicar a Matemática, explorando diferentes modos de pensamento e linguagem. O conhecimento que temos do mundo é reflexo da interpretação que é feita da realidade. A Matemática, assim como as demais áreas da ciência, auxilia nessa interpretação, valorizando a cultura, o contexto e o ser humano no mundo.

Talvez seja uma maneira de construir habilidades e competências em Matemática capazes de desmistificar o medo de aprender.

Magnus Cesar Ody é pesquisador, Mestre em Educação em Ciências e Matemática, professor das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat).
Endereço eletrônico: magnusody@faccat.br

 

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