Edição 19

Lendo e aprendendo

A MENINA DOS FÓSFOROS

Era a véspera do ano-novo. Aquela pobre menina que andava pelas ruas, a tiritar, nem sequer tinha sapatos! Alguém lhe dera um par de chinelos, mas um deles perdera-se no escuro, e o outro, ao saltar-lhe do pé, apanhara-o logo um menino, que o guardou para fazer dele um barco.

Desde manhãzinha que a menina andava vendendo fósforos pelas ruas. Fazia tanto frio que ninguém parava para comprar fosse o que fosse.

Pobre menina! Se ela regressasse à água-furtada onde morava, sem ter vendido nenhum fósforo, o pai brigaria com ela. Talvez mesmo lhe desse uma surra, pois era um homem muito severo.

As pessoas apressavam-se nas ruas a caminho de casa, onde as esperava um bom braseiro. A pobre menina é que não tinha onde se aquecer. Os flocos de neve caíam-lhe sobre os anéis do cabelo e entravam-lhe pelos olhos.

O vento era cada vez mais gelado. Recolhendo-se a um portal, a menina riscou um fósforo para se reconfortar um pouco ao calor da pequenina chama. Tch!… Na noite ergueu-se uma chama clara, tão clara como se fosse uma grande luz. Que coisa estranha! Pareceu à menina que se encontrava sentada junto de um belo braseiro ornado de bolas de cobre. Como era bom aquecer-se um pouco! Estendeu as mãozinhas roxas de frio e ia estender também os pés quando a chama se apagou. O braseiro desaparecera: de novo nada mais havia do que a neve glacial e o vento sibilante.

A menina acendeu resolutamente um segundo fósforo. Tch!… Num instante, a parede da frente ficou iluminada e tornou-se transparente como uma gaze. E que lindo era o que se via através dela! Era uma sala, no centro da qual havia finas porcelanas e, numa travessa, um pato recheado. Meu Deus, como cheirava bem esse pato guarnecido de castanhas e maçãs! E eis que de repente ele salta da travessa com a faca e o garfo espetados nas costas, como que dizendo: “Vamos, come-me!”.

Bruscamente, tudo desapareceu. O fósforo ardera por completo. Com os dedinhos entorpecidos, a menina acendeu muito depressa outro fósforo. Oh! Que magnífica árvore-de-natal surgiu então diante dos seus olhos! Essa árvore era mil vezes mais bela do que aquela que tinha visto havia pouco através da porta envidraçada de uma loja. Centenas de velas cintilavam nos seus ramos, e, em redor, figuras de cores vivas animavam-se e sorriam.

De súbito, as luzes da árvore-de-natal pareceram elevar-se, e a menina seguiu-as com os olhos, deslumbrada, porque se confundiam com as estrelas no céu. Sim, haviam se transformado em estrelas. Uma delas caiu, traçando um longo risco luminoso. A menina lembrou-se então de que a avó lhe contara outrora que, quando se vê uma estrela cair, deve-se pensar que uma alma voa para o céu. Mas a avozinha, que contava tão lindas histórias e que era tão terna para com sua netinha, morrera havia muito tempo. E agora a mãozinha da menina, arroxeada de frio, apenas segurava a ponta de outro fósforo apagado.

Pobre menina! Resignou-se a acender outro fósforo ainda. E então viu algo maravilhoso! Viu a sua própria avó com um ar tão meigo e tão radioso que não pôde conter um grito:

— Oh, avó, leva-me contigo, antes que se apague o fósforo! Não te vás embora, não desapareças como o braseiro de cobre, como o pato recheado, como a bela árvore-de-natal!

Começou a acender todos os fósforos que restavam da caixa. E os fósforos espalhavam uma luz tão clara que parecia dia, um luminoso dia de verão. E a avó parecia cada vez mais radiosa no meio daquela grande luz. E então — ó maravilha! — pegou a sua netinha pelo braço e voou com ela ao Paraíso, lá onde não há fome, nem frio, nem sofrimento, pois é a casa de Deus.

No dia seguinte, dia de ano-novo, as pessoas encontraram estendida na rua uma menina com uma caixa de fósforos completamente queimados. Mas ninguém suspeitou que a alma daquela menina, na véspera, à noite, tivera deslumbrantes visões e entrara feliz no ano-novo, com sua querida avozinha.

Minha primeira biblioteca – Histórias da minha infância – Editora Verbo – pág. 41–43.

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