Edição 66

Lendo e aprendendo

À mestra Clarice com carinho

Moacyr Scliar

clarice

Clarice Lispector era surpreendente em tudo, inclusive nos títulos que dava às suas obras. Exemplo é a curta (155 páginas) novela publicada pela primeira vez em 1969 e que se chama Uma Aprendizagem, ou O Livro dos Prazeres.

A história é enganadoramente simples. Loreley, Lori, professora primária de família abastada, está apaixonada pelo professor de Filosofia Ulisses. Ela não é uma mulher inexperiente; teve vários casos. Mas fica claro que o seu sentimento por Ulisses é algo transcendente, que exige uma profunda transformação pessoal, processo no qual Ulisses funciona como seu mestre. Trata-se de descobrir o amor completo, total, que existe para além da atração meramente sexual. Uma trajetória que explica inclusive os míticos nomes dos personagens. Na mitologia germânica, Loreley é uma espécie de sedutora sereia das águas. Já Ulisses é o indômito navegador que não hesita em aventurar-se por caminhos desconhecidos (e que, a certa altura, é tentado pelo canto das sereias, mas dá um jeito de resistir a elas).

Essa descoberta, Clarice denomina de “uma apren-dizagem”. O que Lori precisa aprender? O que é que ela não sabe? Clarice responde: “Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceitado o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e segurança por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe”.

Esse é o problema. E como se resolve? “Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro.” E conclui: “Aprendi que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer”. O que está nos dizendo Clarice? Está enfatizando o valor da entrega, do amor como antídoto para a falsidade e a hipocrisia. “Não temos amado acima de todas as coisas.” O primeiro mandamento fala em “amar a Deus acima de todas as coisas”. Não só Deus, diz Clarice, amar a tudo e a todos, entregar-

-se; não adianta amontoar “coisas e segurança”, não adianta buscar alegrias catalogadas, estereotipadas.

É preciso falar no que realmente importa, por arriscado que seja. Apesar dos riscos, apesar dos obs-táculos, apesar dos pesares, deve-se viver, deve-se comer, deve-se amar, deve-se morrer — morrer, sim; é parte da vida.

É claro que o livro descreve uma aprendizagem. E é muito significativo que essa aprendizagem implique prazeres: o prazer da entrega, o prazer de amar, mas também o prazer da própria aprendizagem. Aprender com prazer é o princípio básico de toda a pedagogia. É isso que Clarice nos ensina. E é isso que todos os verdadeiros mestres sabem e praticam.

Moacyr Scliar é escritor e médico, autor de, entre outros, O Texto, ou: a Vida (Bertrand Brasil) e Enigmas da Culpa (Objetiva).

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