Edição 54

Lendo e aprendendo

A moral da história

Paulo de Camargo e Juliana Bernardino

A transmissão de valores é uma das preocupações que todo pai tem ao educar. Como fazer isso no dia a dia? Quais valores precisam ser passados? A escola pode ajudar? É natural que dúvidas acabem surgindo, pois o assunto é sério. Sem transmitir os valores humanos universais, não há como formar cidadãos éticos e preparados para viver em sociedade. Apesar de não existirem respostas simples, é possível apontar caminhos a serem seguidos com o objetivo de amenizar alguns problemas de comportamento enfrentados atualmente pela sociedade.

Indisciplina, rebeldia, birra infantil, envolvimento dos jovens com álcool e drogas e os insatisfatórios níveis de aprendizagem estão entre as reclamações mais comuns das famílias (e das escolas). A pergunta que fica é: “Como chegamos a esse ponto?”. Para o psicoterapeuta e consultor organizacional José Ernesto Bologna, a realidade de hoje é consequência das transformações que marcaram o século XX — perda do papel da religião como fonte de moralidade, desestruturação da família e, também, nascimento de um novo status para o jovem, que passou a ser reconhecido como uma força social com vontade própria. “Ser jovem passou a ser um ideal para toda a sociedade, mesmo para os idosos”, afirma.

Muitos pais associam a Educação fundamentada na moral e nos valores com autoritarismo e acreditam que ela seja um retrocesso ao conservadorismo. Educar para os valores é convidar alguém a acreditar naquilo que apreciamos, como, por exemplo, respeitar o próximo. Não há valor que se sustente sem bons exemplos. Não adianta os pais defenderem que a criança não pode agir como se ela fosse o centro do universo se eles mesmos o fazem em seu dia a dia.

1. O que são valores?

Segundo uma das definições mais aceitas na Educação, proposta pelo biólogo suíço Jean Piaget (1896–1980), valores são investimentos afetivos. Isso quer dizer que, apesar de se apoiarem em conceitos, estão ligados a emoções, tanto positivas quanto negativas. Educar para valores é transmitir aos filhos ou aos alunos ideias em que realmente acreditamos — por exemplo, que vale a pena ouvir enquanto outra pessoa estiver falando, ou que ficar muito tempo no chuveiro pode levar à falta de água para todos, ou ainda que cada um é responsável por seus atos.

2. Quem define os valores da criança?

É claro que a família e a escola estão juntas nessa empreitada, mas a influência que elas exercem tem pesos diferentes. A escola pode dar um apoio fundamental aos pais, mas está longe de substituí-los na tarefa de educar. A família vem em primeiro lugar, pois os laços afetivos entre pais e filhos são dos mais fortes. “Hoje, sabe-se que o ambiente moral da casa tem grande importância na formação das crianças”, diz Bologna. “O papel da escola é fundamental, mas não pode ser comparado ao da família”, reforça a professora de Educação Infantil Andréa Félix Dias. Associada à família, a escola é fundamental na formação das crianças, que precisam se adequar a um conjunto de regras bastante diferentes das que têm em casa.

3. Impor valores é um ato autoritário?

Muitos hesitam em transmitir valores por acharem que estão sendo moralistas e autoritários. Mas esse é um pensamento equivocado. Todo mundo precisa ter seus valores, porque é a partir deles que derivam o caráter, as crenças e as opiniões de uma pessoa. Por outro lado, os pais não terão sucesso se tentarem impor o pacote todo aos filhos. É preciso aceitar que existem outros fatores que interferem na formação do indivíduo. Por exemplo, no caso da adolescência, o grupo de amigos, a necessidade de afirmação e aceitação no grupo e, também, a própria pulsão de ser diferente dos pais.

4. Os valores precisam ser os mesmos em todas as famílias?

Não. Os valores são relativos e, por isso, não são compartilhados da mesma forma por todas as pessoas. Existem valores que servem para uns, mas não para outros. E ninguém é melhor ou pior por isso. É importante ter clareza das próprias crenças, de seus limites e suas aspirações e saber o que embasa nossas escolhas. Tanto melhor se nossos valores caminharem em direção a ideias mais universais. “Alguns valores estão presentes na maioria das culturas, como a coragem, a perseverança, a compaixão”, diz José Bologna, que complementa: “Do ponto de vista da educação, é melhor buscarmos esses valores mais estáveis”. Os professores também precisam ter isso bem claro. Questões como ética, moral e valores devem ser trabalhadas dentro das escolas, mas de forma nenhuma podem ser tratadas como verdades inquestionáveis. “Acima de tudo, as individualidades precisam ser respeitadas”, ressalta Bologna. “Por exemplo, professores podem procurar mostrar o quanto o deslumbramento pelo consumo e pela beleza física tem poucas chances de realmente corresponder a um ideal de felicidade factível. Todavia, se os alunos permanecerem achando que os shoppings são o melhor lugar do planeta, eles têm todoo direito de fazê-lo”, concorda o psicólogo Yves de La Taille.

5. Os pais podem pedir o apoio da escola?

Sim. Hoje em dia a Educação requer informação e apoio, e a escola pode ser um braço direito nessa questão. O problema é que muitos pais pedem socorro aos professores, mas nunca abrem mão de suas próprias soluções. “Cada vez mais, quando a escola toma medidas disciplinadoras, a primeira providência dos pais é passar a mão na cabeça dos filhos, justificando seus atos e posicionando-se contra a escola”, reclama a diretora de um colégio de elite na zona sul de São Paulo.

6. As escolas estão preparadas para transmitir valores?

De maneira geral, sim. As escolas estão preparadas para se unir aos pais na Educação para valores. Cada vez mais as instituições tentam aliar o ensino de conteúdos ao trabalho com valores. E não apenas em disciplinas como Educação Moral e Cívica. Assuntos como gravidez precoce, por exemplo, estão sendo trabalhados nas mais diversas situações escolares. É o que educadores chamam atualmente de Temas Transversais, que podem cruzar as aulas de biologia, de português, de artes, entre muitas outras. Além disso, para dar conta não apenas dos conteúdos tradicionais, mas também das grandes questões que envolvem valores, as escolas vêm trabalhando com os extensos projetos pedagógicos que buscam ir além do curso e concretizar as ideias no cotidiano das crianças e dos jovens.

7. A família deve ter os mesmos valores da escola?

Sim. é grande a importância de se escolher uma escola afinada com os valores da família. Pais que querem ver seus filhos como operadores do mercado financeiro não devem procurar escolas antroposóficas. Pais conservadores, que vão buscar os filhos nas festas, não se darão bem em escolas liberais. Educar e formar pessoas requer diálogo. Para que este seja produtivo, é importante que parta de conceitos compartilhados.

8. Como separar os papéis da escola e da família?

A criança precisa perceber claramente que as regras são definidas por aquele que está no comando: na escola, o professor; em casa, os pais. “Família e escola precisam definir muito bem os seus códigos de conduta e têm o dever de fazer com que sejam seguidos pelos jovens”, afirma Flávio Gikovate, diretor do Instituto de Psicoterapia de São Paulo.

9. Por que os adolescentes contestam os valores da família?

Geralmente porque, nessa fase, a influência do grupo é muito forte. Os adultos precisam entender que, na adolescência, a palavra principal não é formação, e sim transformação.
“Os jovens colocam os valores em dúvida e querem testá-los, o que é fundamental para o seu amadurecimento”, diz o psicólogo e educador Paulo Gaudêncio. Isso, segundo ele, fará com que a escola e a família percam a importância, enquanto crescerá muito a importância do grupo de convívio. Bologna considera importante também levar em conta que, entre os valores principais da juventude, estão a imitação (dos amigos), a cumplicidade (com os amigos) e a transgressão de limites. Os pais não devem se incomodar com isso, o que não significa que não precisem ficar atentos.

10. Qual a melhor maneira de garantir o caráter?

É preciso dar o exemplo! Isso mesmo. Além de conhecerem bem os seus valores, os adultos precisam praticá-los em seu dia a dia, nas pequenas e nas grandes atitudes. O mesmo deve acontecer nas escolas. Se não for assim, os jovens ficam sem ter onde se segurar, onde apoiar suas crenças. Professores que cobram disciplina, mas chegam atrasados e não cumprem acordos; pais que cobram postura de cidadãos, mas levam a vida com “jeitinhos” ou, bem mais comum, que fazem promessas e não as cumprem: tudo isso pode abrir caminho para a formação de pessoas que dão mais valor à imagem que à palavra.

cubos