Edição 63

Lendo e aprendendo

A morte e seus significados

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Um tema sobre o qual as pessoas não se sentem à vontade para falar é a morte. A fim de suavizar o desconforto que esse assunto pode causar, utilizam- se de variados termos para se referir à morte e à relação com a pessoa no exato momento do fim de sua existência.

Não é fácil lidar com algo que mexe não só com os sentimentos, mas sobretudo com as expectativas que se nutrem ao longo da vida. A pessoa de fé, independentemente da denominação religiosa, carrega dentro de si perguntas que ainda não têm uma resposta definitiva. Muitas questões, porém uma certeza: no fim de tudo, Deus aí está. Enquanto não se chega ao fim da vida, vale a pena refletir sobre o lugar que os mortos ocupam neste mundo.

Na língua portuguesa, há diferentes palavras utilizadas para se referir à morte, bem como à pessoa morta. O sacerdote Antonio Silva, membro da congregação Padres e Irmãos Paulinos, apresenta a etimologia de alguns termos usados com frequência, porém sem que ninguém se dê conta de seu verdadeiro significado.

Ainda que se busque consolar alguém diante do falecimento de um ente querido, a morte é sempre removida da mente e das conversas da maioria das pessoas. Considerando que se trata de uma realidade da qual ninguém pode escapar, convém familiarizar-se com a morte e com tudo aquilo que lhe diz respeito, desde o vocabulário que a exprime até a busca de seus possíveis significados.

Diferentes termos para a mesma realidade

É muito importante considerar o tema da morte e revisitar o vocabulário que usamos comumente — defuntos, finados, falecidos, luto, cemitério e outros.

A palavra defunto vem do verbo defungor, da terceira conjugação latina — defungeris, defunctus sum, defungi, cujo particípio passado é defunctus. Defunto indica, então, alguém que morreu e deixou esta vida, que completou a própria função, desligou-se das obrigações, livrou-se dos compromissos. Morrer é, assim, o meio mais decisivo e solene para se livrar das funções e labutas da vida.

O termo finado vem do verbo finar, que significa terminar, expirar, morrer. Já falecido deriva do verbo falecer, do infinitivo latino fallescere, forma inicial do latim fallere, da terceira conjugação — fallo, fefelli, falsum, fallere = enganar, faltar, não cumprir, ser infiel, fingir —, a partir do qual se formou também falhar. Deste verbo, derivou-se o adjetivo latino fallax, fallacis — impostor, pérfido, mentiroso — e também o vocábulo vulgar falla, que deu lugar a falecer e desfalecer. O supino ou a forma nominal de fallere era falsus, de onde provêm falso, faltas e falácia.

É frequente o uso da palavra falecer como sinônimo de morrer, talvez como eufemismo, mas o sentido não é exatamente o mesmo. Falecer é morrer no sentido de chegar ao fim da vida, como ocorre na velhice ou em consequência de uma enfermidade, com o matiz de desfalecimento, de processo gradual. O bom uso da linguagem exigiria que não se utilizasse falecer para se referir a uma morte súbita ou em um acidente. Soa mal: “Faleceram 80 pessoas na queda de um avião”.

Luto vem do latim luctus, do verbo lugere, da segunda conjugação, que significa chorar — lugeo, luxi, lustus, lugere. Choro, sofrimento, especialmente causado pela morte de uma pessoa querida.

A concepção mitológica da morte

Necrópole era o termo grego usado pelos não cristãos para designar a cidade dos mortos; enquanto cemitério, do latim coemeterium (= dormitório), era utilizado pelos cristãos. Ambos os termos designavam o lugar onde se colocavam os mortos. Na mitologia helenística, Hipnos (o Sono) era filho de Nyx (a Noite) e gêmeo de Thánatos (a Morte). Hipnos é a personificação do sono, que induz os mortais ao sono e os coloca na condição de permanecerem suspensos entre a vida e a morte, enquanto que Thánatos é a personificação da morte em geral.

Analisando as culturas, pode-se constatar uma relação direta entre o apreço pela vida e o cultivo da relação com os defuntos. Em Madagascar, por exemplo, são estabelecidos mais ou menos dias destinados ao choro pela pessoa falecida antes de sepultá-la. Em Occhiobello, na Itália, as pessoas cuidam das capelas do cemitério de maneira tão caprichada como se fossem dependências da própria residência.

Uma verdadeira mina de informações sobre o culto dos mortos por parte dos pagãos e dos cristãos pode ser encontrada numa visita à necrópole que existe debaixo da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Na última hora, a morte

A morte constitui somente a conclusão de um processo que acompanhou a vida inteira. Viver e morrer, enquanto estamos no mundo, são as duas componentes do arco histórico da vida. É isso que os antigos diziam com a expressão latina: Feriunt omnes, ultima nectat, ou seja, Todas as horas ferem, a última mata.

O passar do tempo nos dá a oportunidade de enriquecer a nossa pessoa nos diversos campos da existência, mas, contemporaneamente, também leva a um constante desgaste por meio das dificuldades, contrariedades, doenças, etc. Poderíamos resumir assim: ao mesmo tempo, estamos vivendo e morrendo. Então, se o morrer nos é tão familiar, qual é o sentido da vida e por que existe o medo da morte?

Basta pronunciar um dos nomes da morte para que desponte o medo de morrer ou o medo da morte. Uma canção de Gilberto Gil pode levar a considerar a distinção entre morte e morrer:

Não tenho medo da morte Letra e música de Gilberto Gil – CD Fé na Festa, Universal, 2010.

Não tenho medo da morte,/ mas, sim, medo de morrer./ “Qual seria a diferença?”,/ você há de perguntar./ É que a morte já é depois/ que eu deixar de respirar./ Morrer ainda é aqui/ na vida, no sol, no ar,/ ainda pode haver dor/ ou vontade de mijar.

A morte já é depois,/ já não haverá ninguém/ como eu aqui agora/ pensando sobre o além./ Já não haverá o além,/ o além já será, então/ não terei pé nem cabeça/ nem fígado, nem pulmão./ Como poderei ter medo/ se não terei coração?

Não tenho medo da morte,/ mas medo de morrer, sim./ A morte é depois de mim,/ mas quem vai morrer sou eu,/ o derradeiro ato meu,/ e eu terei de estar presente./ Assim como um presidente/ dando posse ao sucessor,/ terei que morrer vivendo,/ sabendo que já me vou.

Então, nesse instante, sim,/ sofrerei, quem sabe, um choque,/ um piripaque ou um baque,/ um baque,/ um calafrio ou um toque./ Coisas naturais da vida,/ como comer, caminhar/ morrer de morte matada/ morrer de morte morrida,/ quem sabe eu sinta saudade/ como em qualquer despedida?

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