Edição 78

Matérias Especiais

A (nova?) escrita digital

Carla Jeanny Fusca

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“Oi vm tc?”. É assim que os jovens se cumprimentam em milhares de salas de bate-papo disponíveis na Internet. Para quem não está acostumado a circular por esses ambientes digitais, oi vm tc? (Oi, vamos teclar?) nada mais é do que um convite à interação. Pode causar pavor ou identificação, dependendo do olhar daquele que observa.

São muitas as opções para quem pretende se comunicar on-line. Redes sociais como o Orkut ou Facebook, bate-papos gratuitos disponibilizados por provedores de Internet, troca de mensagens que exigem a instalação de programas específicos (MSN e ICQ, por exemplo), enfim, todas essas ferramentas fazem parte da vida de jovens em idade escolar de todo o País. Por meio delas, a comunicação se dá em tempo real e no modo de enunciação escrito — mas não de acordo com as regras preconizadas por gramáticas tradicionais da língua.

Devido a esse aparente distanciamento entre as práticas de escrita em questão — aquela aprendida na escola e a emergente em bate-papos virtuais —, criou-se um termo para designar a escrita da Internet: internetês.

O internetês é reconhecido, socialmente, por uma prática de escrita tida como caótica e assistemática em termos de linguagem. Nessa escrita, é comum que sejam identificadas características ortográficas, lexicais, sintáticas e textuais bastante distintas daquelas que um texto científico apresenta. Abreviaturas abundantes, excesso e/ou falta de pontuação, simplificações de grafia e uso de “carinhas” (emoticons) são algumas das especificidades dessa escrita.

Atmosfera de intimidade

Com a popularização da Internet e, posteriormente, dos programas de bate-papo disponíveis na rede, a escrita passou por modificações, principalmente gráficas, no sentido de facilitar o processo de digitação e manter uma interação com o outro o mais próximo possível da conversação face a face.

No caso específico da abreviação de palavras, ao contrário do que se pode pensar, existem algumas regras que norteiam a formação de abreviaturas. A mais abrangente e produtiva é a omissão de vogais silábicas em detrimento de elementos consonantais. Assim, beleza se converte em blz; você, em vc; quantos, em qts, etc. Isso significa que a prática da abreviação na Internet apresenta padrões, alguns dos quais são mais bem aceitos pela sociedade, de forma geral, do que outros.

O fato é que, mais do que abreviar palavras, o escrevente na Internet busca a manutenção de uma atmosfera de intimidade, de comunhão com o outro que, embora possa ser desconhecido, não se quer estranho nem distante. Fisicamente separados, os interlocutores reduzem as distâncias físicas por meio da abreviação de palavras: expressão da tentativa de aproximação por meio da linguagem.

O povo digita “mto mais mto erradoooo”

O critério de certo e de errado é, com frequência, atribuído à escrita na Internet, inclusive por internautas. Provavelmente, esse ponto de vista leva em consideração a escrita escolar, com a qual se tem contado desde a mais tenra idade. O fato é que, ainda que critiquem, os jovens fazem uso do internetês — até mesmo para criticá-lo…

Talvez não seja produtivo analisar a escrita digital tomando como modelo outras práticas de escrita, como a do contexto escolar. Cada prática de escrita apresenta especificidades que a caracterizam e a identificam como tal. O ambiente digital parece exercer importante influência nas modificações/simplificações ortográficas observadas na Internet. Dificilmente, em bate-papos, o internauta escreverá de acordo com os padrões previstos pela gramática. A Internet é um espaço tido como mais livre, menos cerceado pelas instituições, e a escrita tende a representar essa liberdade.

A escola, enquanto instituição, não pode simplesmente ignorar a maneira como seus alunos escrevem no dia a dia. Ela precisa compreender como se dá essa escrita e utilizá-la a favor do ensino de língua, principalmente. Em contrapartida, o jovem deve ter em mente que, em alguns contextos, o internetês pode — e deve, inclusive — ser utilizado. Em outros, essa prática de escrita deve ser deixada de lado. Nos vestibulares, por exemplo, o padrão de escrita exigido é aquele que segue, de maneira estrita, as normas ortográficas e gramaticais.

Errado não é o internetês. Errado é pensar a língua independentemente dos propósitos de falantes e escreventes, como se fosse possível separá-la da sociedade. O chamado internetês não é um código a ser decifrado, tampouco uma língua alienígena. É uma prática de escrita que materializa a tentativa de aproximação entre interlocutores em um mundo cujas fronteiras físicas encontram-se cada vez mais reduzidas.

Carla Jeanny Fusca é licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José do Rio Preto–SP, onde desenvolve pesquisa de mestrado sobre a abreviação na Internet.
Endereço eletrônico: carlajfusca@gmail.com.

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