Edição 30

Matérias Especiais

A Pílula de Lobato

A fábula

pilula_lobatoÉ a história de uma velha senhora que tinha como seu único amigo, inseparável companheiro, um macaquinho encantador que ganhara de presente de seu filho.

Amava seu macaquinho como se humano fosse e chegava, até mesmo, a tratá-lo de forma humana, como trataria a um neto. Seu desgosto, falha da natureza segundo pensava, era que seu querido macaquinho não falava.

Isso a entristecia, e mais ainda ficava triste ao lembrar sua infância, quando lera em um livro de Monteiro Lobato que Emília falara através de uma pílula falante. Resolveu procurar por toda parte a tal pílula, e tanto procurou que, através da Internet, conseguiu finalmente comprá-la, administrando-a, com um pouco d’água, a seu adorável macaquinho.

Pois não é que foi só engolir a pílula que o macaquinho passou a falar e, com palavras confusas e simiescas, mas, claramente, falou:

— Corra, senhora… corra que o forno vai explodir!

Empolgadíssima com o sucesso, a velha senhora ficou eufórica, quase não acreditando no milagre que presenciava. Tão eufórica ficou que, aos pulos, comemorou:

— Consegui, consegui… meu macaquinho fala… meu macaquinho, finalmente, fala…

E, assim dizendo, correu com seu beijo de encantamento. O macaquinho, porém, prevendo a explosão, saltou pela janela no exato instante em que o forno explodia, derrubando a casa e soterrando a amável senhora.

Ao perceber o imenso estrago e ver sua dona esmagada, o macaquinho tratou de refugiar-se em árvore próxima e, lá do alto, com sabedoria, refletiu:

— Deus do céu… parecia uma professora, louca para eu falar. Passou toda a vida procurando ensinar-me e, quando consigo, não me dá ouvidos…

Em busca de uma contextualização em nosso cotidiano escolar

Muitos professores reclamam que os alunos, hoje em dia, não sabem se expressar com clareza, não demonstram lucidez na interpretação de um texto, ignoram os fundamentos primários da comunicação escrita ou verbal. Os alunos passam horas e horas nas escolas, recebem, além de aulas de Língua Portuguesa, muitas outras e, apesar de tudo isso, escrevem mal, falam de forma concisa, não sabem expressar seus sentimentos, suas emoções, seus pensamentos. E isso a despeito de serem estimulados em todas as aulas.

Mas será que a escola abre um espaço verdadeiro e autêntico para o aluno se expressar? Será que não se ministram apenas aulas expositivas? Será que as salas de aula não são de tal forma abarrotadas que inexiste a individualidade?

Será que as provas convidam esse aluno a refletir, a usar habilidades operatórias diferentes, a distinguir a análise da síntese, a descrição da comparação? Será que a facilidade da correção não transforma testes de escolhas múltiplas ou falsos/verdadeiros em ferramentas habituais de medida?

Será que, tal como na fábula, os professores não estão insistindo para que o aluno fale, mas, se isso acontece, jamais ouvem?

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Fonte: ANTUNES, Celso. Casos, fábulas, anedotas ou inteligências, capacidades, competências. Local: São Paulo. Editora Vozes, 1937.

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