Edição 88

Ambiente-se

A poesia de Manoel de Barros: uma didática da invenção

Mauro Sérgio Santos

Ilustre poeta brasileiro do século XX. Ligado cronologicamente à geração de 1945. Caracterizado por alguns como pós-modernista. Por muitos também considerado o “Guimarães Rosa” da poesia brasileira. Associado às vanguardas europeias, ao antropofagismo tupiniquim. Na verdade, estamos diante de uma figura portadora de uma idiossincrasia ímpar, quase inenarrável e inclassificável. Os poemas de Barros beiram o silêncio das palavras.

Sua poesia revela o desejo de alcançar a própria coisa por meio da palavra. Há, em seus poemas, uma relação de identidade entre o que é vivido e o que é falado.

Falecido aos 97 anos, em novembro de 2014, passou a maior parte de sua vida no Pantanal brasileiro, no meio da natureza, dos animais, da vida bruta, das baixezas da vida, que são, concomitantemente, a altivez do simples.

O poeta mato-grossense fora capaz de tornar belas as coisas mais desprezíveis aos olhos humanos. O barro, o insólito, o ignóbil, os insetos, o chão, o lixo, o grosseiro e o rasteiro, inusitadamente, revelam-se aprazíveis e importantes. O insignificante é fundamental. Na inutilidade do mundo, mostra-se, pela palavra, a essência da vida. Assim, para Manoel de Barros, “[...] poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)”.

No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. Uma Didática da Invenção

Outra constante em suas mais de trinta obras é a arte para os paradoxos e as subversões poéticas. Inúmeras vezes, Manoel de Barros apresenta-se como um embusteiro da palavra. Sua verve nos leva aos descampados caminhos dos versos. Conduz-nos por trajetos impensáveis, improváveis e, aparentemente, inacessíveis. Diz o poeta:

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
 
(Livro sobre Nada)

Apenas Manoel de Barros seria capaz de transformar um “livro sobre nada” em um tratado de grandezas; de criar memórias que são inventadas; de escrever um livro de “ignorãças”, na verdade, portador de uma sabedoria que não é encontrada nas fileiras das academias, na crítica literária, nos tratados filosóficos ou nos laboratórios científicos. Nas palavras do autor:

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
 
(O Apanhador de Desperdícios)

Sua obra é um convite aos exercícios de ser criança, ao assombro, ao deslumbramento, à descomedidade, ao encanto da incerteza. Ou seja, a resgatar a capacidade de vermos o mundo com os olhos de uma criança que acaba de assistir a um passe de mágica. Trata-se de recuperar a nossa capacidade de ver o extraordinário que se faz presente no simples e cotidiano. Como o que é exposto no seguinte poema:

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
 
(Retrato do Artista Quando Coisa)

Advogado, fazendeiro e, sobretudo, poeta. Manoel de Barros é o menino do mato, o apanhador de desperdícios, encantador de palavras, o guardador de águas, o fazedor de amanhecer, o menino que carrega água na peneira.

Sua poesia é uma didática da invenção e de aprendimentos. É um inusitado concerto a céu aberto para encontrar o azul e todas as outras cores do arco-íris, os pássaros, a vida e a própria poesia. Sua Gramática Expositiva do Chão é um tratado que desvela a existência nua e concreta dos homens e dos seres e revela a face imóvel do ser, do nada, das pré-coisas.

A arte de voar fora da asa — seu conceito de poesia — destitui as coisas do seu sentido habitual. Desconstrói para construir, para fazer “delirar” o verbo, descoisificar a realidade, desinventar objetos. Em Manoel de Barros, a poesia é a linguagem que deseja o inverso do avesso, que desloca a representação da realidade, para que esta possa, de fato, revelar-se no seu sentido mais originário.

“Ando muito completo de vazios”
 
(Aprendimentos)

Mauro Sérgio Santos é professor de Filosofia, especialista em Educação pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), membro da Academia de Letras e Artes de Araguari (MG) e da União Brasileira de Escritores e autor do livro Camaleão: Metapoesia e do blog http://banquetedeletras.blogspot.com.br
Contato: mauro.filos@hotmail.com

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