Edição 84

Profissionalismo

A prática pedagógica do professor

Maria das Mercês da Cruz e Silva

mulher_professora_livro_optNa diversidade de explicações sobre a aprendizagem do aluno, tem-se dado pouca ênfase à dinâmica da prática educativa e da avaliação e ao contexto do currículo educacional no processo de ensino-aprendizagem. Analisando a relação pedagógica da sala de aula, fica evidenciada a importância das interações aluno-conhecimento, professor-aluno e professor-aluno-conhecimento na construção do sucesso-fracasso escolar.

Analisando a prática pedagógica do professor em sala de aula, podemos verificar a importância de seu papel como educador na formação de consciências críticas e participativas. Se o seu trabalho for significativo para o aluno, irá contribuir para sua permanência na escola, pois o objetivo da ação pedagógica é ter interesse na aprendizagem do aluno.

Se nós, professores, na sala de aula, não podemos dar conta da política de ofertas de vagas e de acesso dos educandos à escola, podemos dar conta de um trabalho educativo significativo para aqueles que nela têm acesso. Trabalho esse que, se for de boa qualidade, será um fator coadjuvante de permanência dos educandos dentro do processo de aquisição do saber e consequentemente também um fator dentro do processo de democratização da sociedade (LUCKESI, 1990:12)

O inter-relacionamento professor-aluno deve ser fundamentado no incentivo à criatividade, ao debate, ao estudo, empenhados em criar a reflexão crítica. O professor, como sujeito de criação, coordenando os estudos, questionamentos e debates; o aluno, como sujeito do seu aprendizado, no exercício e desenvolvimento de seu potencial crítico e participativo.

Para isso, é necessário ao professor ter conhecimento de sua área de especialização e estar informado da realidade como um todo, para que possa proporcionar ao aluno o desenvolvimento do potencial de uma reflexão crítica.

Partindo do pressuposto de que o professor precisa ter domínio não só de conhecimentos; como também de habilidades didáticas que constituam os instrumentos técnicos e metodológicos de sua profissão, ele precisa estar preparado técnica e didaticamente para sua função educativa em sala de aula.

É importante que nós, professores, tenhamos sempre a clareza do que pretendemos avaliar, preocupando-nos com a construção do saber, levando o aluno a aprender a relacionar as ideias com os fatos.

Se a avaliação não assumir a forma diagnóstica, ela não poderá estar a serviço da proposta política — “estar interessado que o educando aprenda e se desenvolva” —, pois, se a avaliação continuar sendo utilizada de forma classificatória, como tem sido até hoje, não viabiliza uma tomada de decisão em função da construção da aprendizagem, como temos definido em outras ocasiões, nada mais tem feito do que classificar o educando num certo estágio de desenvolvimento e dessa forma não auxilia a construção dos resultados esperados (LUCKESI, 1990:31)

246093

A avaliação é um processo sistemático, não é improvisada e se insere num sistema mais amplo que é o sistema ensino-aprendizagem; é contínua, acontece ao longo de todo o processo; é integral, pois se ocupa do aluno como um todo, julgando não apenas os aspectos cognitivos, mas também os domínios afetivo e psicomotor. É uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente que deve acompanhar passo a passo o processo ensino-aprendizagem.

Todos os envolvidos no processo educacional da escola podem e devem avaliar o professor: a prática pedagógica; a escola: o projeto educacional; o próprio sistema: a produtividade da política educacional; o aluno: a construção do conhecimento.

Podemos dizer que a prática educativa na escola se torna mais democrática quando envolvemos os alunos como sujeitos do próprio processo de construção de conhecimento. Para que isso possa ocorrer, há necessidade de um maior aprimoramento no campo didático-pedagógico daqueles que se propõem a atuar como docentes.

A necessidade de competência didático-pedagógica é pressuposto essencial para o exercício da atividade magisterial no Ensino Fundamental e Ensino Médio, garantindo aos alunos um professor habilitado especificamente para as funções de magistério, com conhecimentos específicos voltados ao processo ensino-aprendizagem, visando a socialização do saber.

Podemos dizer que o perfil do professor adequado ao ensino seria o daquele que estaria preparado não só em conteúdo, mas em um conjunto de conhecimentos, técnicas e habilidades para atuar de forma consciente e coerente com a realidade do aluno. Pensamos que isso se deve tornar imprescindível para podermos chegar ao perfil do aluno que nos propomos a formar, ou seja, um aluno crítico, construtivo e participativo, consciente da necessidade de seu interesse pelas questões e pelos problemas sociais.

Nesse caso, é de maior importância que, no processo ensino-aprendizagem, as informações teóricas se completem com exercícios práticos. Teoria e prática não são compartimentos estanques, são elementos que se interagem para a produção do conhecimento do aluno.

A Educação, no contexto sociocultural atual, deve ter outras preocupações que não a reprodução de uma ideologia que mantém os interesses de uma minoria.

O aluno é um ser ativo, que pensa, que questiona os pressupostos que lhe são apresentados. E ele deve discutir, deve se colocar inteiramente dentro do assunto a ser apreciado com esta capacidade crítica que é inerente a qualquer ser humano. O professor deve ser o bom ouvinte, deve observar e conhecer o alunado, propondo metodologias compatíveis com a formação do aluno, e buscar melhorar com esse comportamento a relação ensino-aprendizagem (ARAGÃO, 1993:42).

O importante é despertar no aluno uma imaginação que produza o novo, a realização de um programa de democratização dos processos e métodos de ensino; é transformar a sala de aula num laboratório de criatividade.

O professor que domina totalmente o conteúdo da disciplina que leciona pode ser um bom professor, mas nem sempre será um educador, pois educador é aquele que dá aos alunos os instrumentos necessários ao seu desenvolvimento como elemento crítico e transformador da realidade social.

Maria das Mercês da Cruz e Silva é Mestre em Educação, especialista em Avaliação Institucional, professora universitária e diretora do Centro Educacional Guairá, Itaguaí, RJ.
Endereço eletrônico: merces.silva@yahoo.com.br.

Referências

ARAGÃO, Selma Regina. 2 Ensaios. Rio de Janeiro: UFRJ,1993.

FREIRE & SHOR, Ira. Medo e Ousadia: O Cotidiano do Professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

LOPES, Antonia O. Aula Expositiva: Superando o Tradicional. In: VEIGA, Ilma. P. A. (Org.) et alli. Técnicas de Ensino – Por que Não? Campinas: Papirus, 1991.

LUCKESI, Cipriano C. et alli. Fazer Universidade: Uma Proposta Metodológica. 6. ed. São Paulo: Cortez, 1991.

LUCKESI, Cipriano C. Prática Docente e Avaliação. Rio de Janeiro: ABT, 1990.

cubos