Edição 52

A fala do mestre...

A senzala fez o idioma

Casa-grande & Senzala, de Gilberto Freyre, representa uma autobiografia coletiva, linguagem romanesca com semelhanças ao roman vrai, dos irmãos Goncourt, autores de Histoire de la Société Française Pendant la Révolution (1854), que defendiam a histoire sociale, no tempo em que esta não era levada a sério na França nem em outros lugares. A Edouard e Jules de Goncourt, deve-se a expressão histoire intime. Em Casa-grande & Senzala, Freyre se coloca como espelho de si e da gente que vê entre rostos projetados. Sua metodologia rejeita os convencionalismos de uma era em que o positivismo de Comte referendava a ideologia de um Brasil republicano. Início do século XX: os eflúvios franceses persistiam e se solidificavam na legenda cívica da bandeira — Ordem e Progresso. Mais uma vez, Freyre se deparou com a incompreensão de um Brasil estampado em preto e branco, avesso a reformulações na ciência social e na literatura científica.

O livro chocou. Da linguagem coloquial e sensual, instigante, à ousadia da “técnica inovadora”. O texto era indecente, bradavam uns. O método era questionável, reforçavam os adeptos do quantitativismo. A linguagem era superlativamente literária, reclamavam os cientificistas. Trabalho inconcluso, sem arremates, finalizações. Os ecos soavam em toda parte. E a intolerância sugeriu queimar a obra, em repúdio às ideias, ao estilo, lírico em algumas passagens e aguerrido em outras; um estilo que respaldava em vivas metáforas, de ordem poética e crueza ostensiva — traçado não linear de estrutura narrativa.

Se Freyre se definiu como escritor, a ele não faltaram preocupações com a linguagem no Brasil. Remonta ao passado para entender a gênese da nossa expressão verbal. O falar abrasileirado carrega uma mistura do popular com o erudito:

Não há melhor situs de atuação que o da privacidade. Nesse átrio receptivo, tudo se dilui em mensagens invisíveis,absorvidas involuntariamente, sem reações ou decodificações mais apuradas. A negra, ao transitar nos corredores da família patriarcal, sedimentou uma simbologia de todo especial para o sistema de trocas. O estado de “imersão” evoluiu para o estado de “emersão”. Os trâmites não foram abandonados; ao contrário, foram usados na dialética objetividade-subjetividade.

Abrandamentos

A negra amaciou a linguagem, deu-lhe singeleza, tempero. Tratou-a com preciosismo, retirando-lhe a fereza das palavras e o ranço antipático das expressões: “Faça-me isso”, “Dê-me aquilo”, “Diga-me o que fez”. Amassou-a para acomodar sílabas refratárias à boca da criança, facilitando tons e semitons de complicada degustação. As mudanças se iniciaram pela linguagem infantil. Em tese, a criança dá melhor acolhida às rupturas de uma sociedade cristalizada em normas antigas. A meninada bebeu o que lhe brindaram como novo arranjo léxico. Conjugação de sílabas com recursos facilitadores. Nada de severidade. Assim, as palavras chegavam aos meninos já liquefeitas. Sem espinhos, com candura e desvelo para que nhonhôs e sinhazinhas não tivessem dificuldade de pronunciar os agrestes fonemas. Quase como uma cantiga de ninar.

Na casa-grande, a linguagem eclodiu autoritária, manifestação de hegemonia. O uso seco dos imperativos; a ordem; a imposição; a firmeza do mando. Na senzala — e sobremaneira entre negros do doméstico —, predominaram a docilidade do falar, a dolente súplica, a delicadeza do pedido, tentativa de proteger-se, por trás de uma “muralha” linguística, dos frequentes autoritarismos.

Sucedeu, porém, que a língua portuguesa nem se entregou de todo à corrupção das senzalas, no sentido de maior espontaneidade de expressão, nem se conservou acalafetada nas salas de aula das casas-grandes sob o olhar duro dos padres-mestres. A nossa língua nacional resulta da interpenetração das duas tendências. Devemo-la tanto às mães Bentas e às tias Rosas como aos padres Gamas e aos padres Pereiras. (Freyre, Casa- -grande & Senzala, 2000, p. 389).

O Brasil se favoreceu com a simbiose de códigos. O verbo se amoleceu na palavra invocativa da negra. O “me dê” no lugar do “dê-me”. A antecipação do pronome converteu a ordem em súplica social e desmontou as confrarias linguísticas em vigência. Um peso que permeou o cotidiano, enriquecendo as combinações da casa-grande. Duas tendências andaram, às vezes, em trilhos paralelos, às vezes, em estradas unificadas: a do lusitano e a da africana. Uma e outra indicando posições extremadas, que se congratulavam na musicalidade do português abrasileirado. O amálgama de duas correntes opostas — uma coloquial, a outra cerimoniosa — favoreceu a fusão de núcleos em contradição. Da senzala, advieram os ruídos da opressão, os gestos de humildade e de persuasão, tão irmanados à lógica da subalternidade. Não houve, como diria Paulo Freire, “inserção crítica”. Não se detectou tomada de consciência por parte do oprimido. Ocorreu uma “inserção doméstica” possibilitadora da infiltração de valores no campo privado.

Veio o abrandamento: “dói” passou a “dodói”, dengoso vocábulo que roga por carinho. A ama negra fez com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. [...]
As Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Nezinhos, Mandus, Manés; os Franciscos, Chicos, Chiquinhos. (Casa-grande & Senzala, 1966, p.356). Senado Nacional Robert Linder CN52.

No Brasil colônia, o lusitano portou-se, no discurso, a referendar a herança aristocrática. A gramática foi usada como escudo de uma categoria de classes, exibindo vetores de uma fala culta, a seu modo coativa, com o intuito de ratificar os ângulos da estratificação. No mundo da bagaceira, a língua escrita foi uma; a falada, outra. Essa dicotomia teve apoio dos jesuítas, que tentaram instituir a elite não só social, mas cultural. O fosso aumentava entre negros e brancos e entre homens e mulheres. Eram analfabetas, mesmo as arianas. A escrita denunciava diferenças da oralidade. Estabelecia-se a divisão entre os que escreviam o português europeu e o brasileiro, com vocábulos africanos e tupis.

Escrita e fala

Se a escrita proliferou na casa-grande só entre patriarcas, padres-mestres, mestres-escolas, capelães, ocupando lugar à parte, a língua falada se dividiu em fatias desiguais: a dos senhores e a dos nativos ou escravizados. A primeira, oficial; a outra, abaixo dos critérios de aceitação, embora fluente e influente na ciranda diária. As mães negras, as mucamas e o clima — um aliado — fizeram com a língua um trabalho de artesão. O clima enlanguesceu o homem, amoleceu a linguagem e espichou o tempo em apreciável lerdeza. A lassidão do agir associou-se à linguagem, fê-la vagarosa, farta de langor. As negras, filhas do Sol, albergaram como ninguém o sentido saudável da indolência. E os ss e os rr sintetizaram o alvo mais atingido na conversão de um português autêntico para um português vívido e mutante, sem adornos e estilismos fora dos eixos sociológicos, culturais e geográficos. O vernáculo de estufa não vigou. O hibridismo venceu o português de origem. Nem padres nem gramáticos obtiveram sucesso na imposição de indeclináveis conceitos. Cederam às pressões. Se não cederam, aceitaram-nas de mau grado, mas aceitaram-nas. A vitória recaiu na boca do povo.

Gilberto Freyre no Museu da Língua

O Museu da Língua Portuguesa lançou, em novembro de 2008, uma exposição inteiramente dedicada ao sociólogo Gilberto Freyre (1900–1987). A curadoria foi de Julia Peregrino; a cenografia, de André Cortez; e a consultoria, do antropólogo Gilberto Velho, do presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Villaça, e dos pesquisadores Pedro Vasquez e Elide Rugai Bastos.

Fátima Quintas é antropóloga, autora de Segredos da Velha Arca e organizadora de O Cotidiano em Gilberto Freyre.

Educação. Ano 11 – nº 128. São Paulo: Segmento.

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