Edição 73

Matérias Especiais

A síndrome de burnout presente nos professores das escolas municipais de Abreu e Lima – PE

Erijane Pereira Santa Rosa Gonçalves
Orientador: Prof. Dr. Iraquitan José Leite Ribeiro

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1 Introdução

O estresse vem se tornando um problema com dimensões cada vez maiores nas organizações e em especial nas instituições de ensino, quer públicas ou privadas. A docência tem se configurado como uma atividade que demanda grande esforço que está além das habilidades e técnicas que os professores detêm. Contudo, as peculiaridades das escolas, os diferentes contextos sociais nos quais os alunos estão inseridos, as necessidades e os desejos distintos do alunado atual estabelecem que o docente esteja capacitado a ir além do caráter pedagógico do ensino, uma vez que a educação escolar passou a ser responsável pelo desenvolvimento psicossocial dos alunos (SILVA et al., 2008). Toda essa problemática, que permeia a profissão de professor, consente o surgimento da síndrome de burnout, que é um fenômeno que emerge como resposta crônica aos fatores estressores ocupacionais (MASLACH et al., 2001).

O estresse é um “estado do organismo, após o esforço de agrdaptação, que pode produzir deformações na capacidade de resposta, atingindo o comportamento mental e afetivo, o estado físico e o relacionamento com as pessoas”(FRANÇA e RODRIGUES, 2008). Para Lipp (2003), o estresse é um processo, e não uma reação inusitada, pois, a partir do momento em que uma pessoa é debelada pela fonte de estresse, um longo processo bioquímico se instala provocando sintomas como taquicardia, sudorese excessiva, tensão muscular, boca seca e sensação de alerta. Silva e Coltre (2009) dividem o estresse em três estágios: sintomas físicos, psicológicos e comportamentais.

As fontes do estresse são múltiplas e atuam de forma ocasional ou contínua até afetar o equilíbrio da personalidade (FERREIRA et al., 2007). Não obstante o estresse ser uma experiência individual, existem numerosos fatores que o determinam, como: separação ou perda de um ente querido, desemprego, competição no mercado de trabalho, demissões, excesso de trabalho, adaptação às novas tecnologias, choque cultural, incerteza de um acontecimento ou uma doença (OLIVEIRA, 2006).

Burnout é um termo bastante antigo, do jargão popular inglês; refere-se àquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia (BENEVIDES e PEREIRA, 2002). Semelhantemente para Ferenhof e Ferenhof (2002), a palavra burnout tem origem inglesa e vem da junção das palavras burn, que significa queima, e out, que significa exterior.

Nos dias atuais, a definição mais aceita do burnout é a fundamentada na perspectiva sociopsicológica de Maslasch et al. (2001), sendo esta constituída de três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho. Para os autores Cotrim (2004), Wagner (2004), Codo (2002), e Carlotto (2002), a exaustão emocional é caracterizada por uma falta ou carência de energia, de entusiasmo, e um sentimento de esgotamento de recursos; enquanto na despersonalização o profissional trata os clientes, colegas e a organização como objetos; e, finalmente, observa-se uma diminuição da realização pessoal no trabalho, com tendência do trabalhador a se autoavaliar de forma negativa. As pessoas sentem-se infelizes consigo mesmas e insatisfeitas com seu desenvolvimento profissional.

Carlotto (2002) averiguou que a Síndrome de burnout (SB) tem consequências graves em decorrência dos problemas psicológicos e físicos, que, na maioria das vezes, leva à incapacidade total para o trabalho.

Na opinião de Benevides e Pereira (2002), os sintomas associados com a SB são: psicossomáticos (enxaquecas, dores de cabeça, insônia, gastrites e úlceras, diarreias, crise de asma, palpitações, hipertensão, maior frequência de infecções, dores musculares e/ou cervicais, alergias, suspensão do ciclo menstrual nas mulheres); comportamentais (absenteísmo, isolamento, violência, drogadição, incapacidade de relaxar, mudança de humor e comportamento de risco); emocionais (impaciência, distanciamento afetivo, sentimento de solidão, sentimento de impotência, desejo de abandonar o emprego, decréscimo do rendimento de trabalho, baixa autoestima e dúvida de sua própria capacidade); defensivos (negação das emoções, ironia, atenção seletiva, hostilidade, apatia e desconfiança).

A SB é um fenômeno caracterizado por sintomas decorrentes de várias causas, que podem ser de ordem psicológica ou de ordem física e, variavelmente, psicofísicas. Essa síndrome se caracteriza pelo estresse crônico vivenciado pelos professores, que são pessoas que lidam de forma intensa e constante com as dificuldades e os problemas alheios, em várias situações de atendimento (JBEILI, 2008).

De acordo com Reinhold (2004), pode-se observar várias fases na SB. A primeira é o idealismo, em que o entusiasmo e a energia são ilimitados; o profissional vê o seu trabalho preenchendo todas as suas necessidades, e a escola é tudo em sua vida. A segunda é a do realismo, em que “cai a ficha”; passa a perceber que suas expectativas iniciais foram irreais, o ensino não mais satisfaz suas expectativas, as recompensas, o salário e o reconhecimento são poucos, e consequentemente a desilusão surge. A estagnação e a frustração, quase burnout, é a terceira fase, em que o entusiasmo e a energia iniciais são literalmente convertidos em lassidão crônica, e a irritabilidade com os colegas e com os alunos contribui para sua mudança de comportamento, daí surgem os atrasos e as faltas –– o profissional utiliza-se da fuga, que é um mecanismo de defesa. A quarta fase é a apatia e o burnout total, em que o professor começa a ter a sensação de desespero, fracasso, perda da autoestima e autoconfiança; muitas vezes a depressão, a solidão, o pessimismo o fazem perder o sentido da vida. O anseio de abdicar de sua profissão é uma característica dessa fase. E, finalmente, a quinta e última fase, o fenômeno de fênix — muito raro —, por meio do qual o professor “ressurge das cinzas”, ou seja, recupera-se e livra-se do burnout.

No ambiente de trabalho que frequentamos, percebemos facilmente que a profissão docente envolve diversas situações que podem expor o professor ao estresse e à SB. Não são raros os relatos de problemas e frustrações que compartilhamos nas salas de professores das instituições de Ensino Fundamental em nosso estado. Entretanto, ainda é necessário compreender mais profundamente o que ocorre com o docente. Esta pesquisa se propõe a investigar a prevalência da síndrome de burnout nos professores do Ensino Fundamental nas escolas municipais de Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, bem como analisar as fases de estresse, considerando os sintomas físicos, psicossociais e de natureza somática e psicológica. Nossa motivação é oferecer uma contribuição para o entendimento das questões psicológicas que envolvem o trabalho dos professores do Ensino Fundamental.

Nossa população foi constituída de 49 professores da rede municipal de ensino da cidade de Abreu e Lima, que se disponibilizaram a participar do nosso estudo assinando o Termo de Livre Consentimento Esclarecido (TLCE), conforme o disposto pela Resolução nº 169/1998 (Brasil, 1977).

Para levantamento dos dados, foi confeccionado pelo pesquisador um questionário com três partes, com desígnio de obter os dados sociodemográficos, os sintomas apresentados pelos docentes nas últimas 24 horas, na última semana e nos últimos 30 dias. Para identificar a presença e a ausência da síndrome de burnout, foi usado o Maslach Burnout Inventory (MBI), elaborado e adaptado por Jbeili (2008).

A primeira parte foi elaborada para obter os dados de identificação, contendo 16 questões pessoais e dissertativas formuladas pelo pesquisador responsável. As questões, além de relatar informações pessoais, avaliaram variáveis demográficas como idade, estado civil, filhos, procurando angariar dados relativos às condições atuais de trabalho.

A segunda parte foi um Inventário de Sintomas de Stress (I.S.S.), proposto por Lipp e Guevara (1994) e formado por três quadros referentes às fases do estresse. O primeiro quadro, composto de 15 itens, refere-se aos sintomas físicos ou psicológicos que a pessoa tenha experimentado nas últimas 24 horas. Representa a fase de alerta na qual o organismo tem uma excitação de agressão ou de fuga em relação ao estressor, que pode ser entendida como um comportamento de adaptação. Reconhece-se uma situação de reação saudável ao estresse quando possibilita o retorno à situação de equilíbrio após a experiência estressante. Para estar nessa fase, o professor deverá ter assinalado sete ou mais sintomas.

O segundo quadro foi composto de 10 sintomas físicos e 5 psicológicos, os quais estão relacionados aos sintomas experimentados na última semana, sendo esta a fase de resistência; havendo persistência da fase de alerta, o organismo altera seus parâmetros de normalidade e concentra a reação interna em um determinado órgão-alvo.

E o terceiro quadro, composto de 12 sintomas físicos e 10 psicológicos, refere-se a sintomas experimentados no último mês. Alguns dos sintomas que aparecem no Quadro 1 voltam a aparecer no Quadro 3, mas com intensidade diferente. No total, apresenta 37 itens de natureza somática e 19 de natureza psicológica, sendo os sintomas muitas vezes repetidos, diferindo somente em sua intensidade e seriedade. O docente, nessa fase, deverá ter assinalado 9 ou mais sintomas.

A terceira parte é o Inventário de Burnout de Maslach (MIB). Trata-se da versão traduzida e adaptada por Jbeili (2008) do Maslach Burnout Inventory (MIB) (MASLACH e JACKSON, 1986). O MIB é um instrumento de 20 itens acerca dos sentimentos dos professores relacionados com as suas aulas, distribuindo-se por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho. A resposta é dada pela frequência com que cada sentimento ocorre nas três áreas avaliadas, numa escala que varia entre no mínimo um (nenhuma vez) e no máximo 5 (todos os dias). Para a análise dos resultados, foi utilizada uma escala do tipo Likert.

Os dados foram analisados a partir do discurso do pesquisador em consonância com a discussão dos autores citados no marco teórico, como também foram digitados em planilha eletrônica (Excel) e analisados usando o programa estatístico Statistical Package of Social Science (SPSS) em sua versão 14. As análises foram descritivas, com apresentação da frequência das variáveis estudadas conforme sua natureza.

Resultados de discussão

Dos 49 docentes participantes da pesquisa, 51,02% (25) tinham idade entre 41 e 50 anos; 34,70% (17), idade entre 31 e 40 anos; 8,16% (4), idade entre 20 e 30 anos; e apenas 6,12% (3), idade superior a 51 anos (Tabela 1). Os professores com idades entre 41 e 50 anos representaram mais de 51% da amostragem. Carlotto e Palazzo (2006) e Carlotto (2002) encontraram dados semelhantes. Neste estudo, não foi demonstrada uma relação entre a idade e a prevalência da SB.

A totalidade dos docentes participantes era do sexo feminino; esse dado vai ao encontro da tradicional feminilização no magistério, tendo em vista seus aspectos históricos. Os estudos sobre a prevalência da SB indicam em sua maioria que as mulheres são mais propensas a desenvolver a síndrome, a exemplo do que demonstraram Tibúrcio e Moreno (2009) e Carlotto e Palazzo (2006); porém são necessárias mais pesquisas sobre esta variável.

Como relação ao estado civil, a maioria dos professores participantes era casada — 63,27% (31); 24,49% (12) eram solteiros; 6,12% (3) eram separados; 4,08% (2) mantinham união consensual; e 2,04% (1) eram viúvos.

Levou-se em consideração também se o professor tinha filho e o quantitativo, tendo como resultado 73,47% (36) com um a dois filhos, 8,16%(4) com 3 a 4 filhos e 18,36% (9) sem filhos. Revelam esses dados que a maioria opta pela preferência de poucos filhos, um a dois, devido a jornada de trabalho, ajuste financeiro, ausência de creches.

Na questão referente à escolaridade, percebeu-se que a maioria — 89,79% (44) — dos professores tem nível superior completo e, destes, 75% (33) possui o título de especialização. Quanto à carga horária, 55,10% (27), 38,78% (19) e 6,12% (3) dos professores, respectivamente, trabalhavam no regime de 20, 40 e 60 horas semanais — 36,73% (18) trabalham em mais de uma instituição, e 2,04% (10) exercem outras atividades, o que demonstra a relevância de um cenário em que o professor não consegue atribuir um tempo para uma capacitação profissional continuada. Carlotto (2002) encontrou resultados semelhantes quanto à titulação e à carga horária semanal e demonstrou que essas variáveis têm relação direta com a dimensão exaustão emocional. Benevides e Pereira (2002) afirmam que quanto maior é o grau de escolaridade maiores são os níveis de estresse e burnout. Do total de professores participantes, 73,47% (36) eram estatutários e celetistas; e 26,53% (13) não responderam a questão. Com relação ao tempo de magistério, foi constatado que 44,89% (22) condiziam com o intervalo de 11 a 20 anos de docência; 34,70% (17), com o intervalo de 1 a 10 anos; e 20,41% (10), com o intervalo de 21 a 30 anos. Perpassando pelo fator da prática de atividade física, apenas 32,65% (16) atestaram praticar atividade física (caminhada, academia, ciclismo e dança). Com relação à alimentação, 51,02% (25) declararam ter hábitos saudáveis e o restante alegou não ter tempo para se alimentar adequadamente devido à jornada de trabalho. Boa alimentação e atividade física são recomendadas e importantes para uma vida saudável; se seguidas, é mais difícil que o corpo sofra desgastes e consequentemente que a doença atinja estágio mais avançado. Quanto ao hábito de fumar e consumir bebida alcoólica, surpreendentemente 100% não têm o costume de fumar e apenas 8,17% (4) bebem socialmente quando participam de algum evento social. A prática de atividade física é muito importante, pois capacita o organismo para o controle da pressão arterial, da frequência cardíaca e dos hormônios do estresse mental. Além disso, o exercício físico ajuda a regular e melhorar o equilíbrio psicológico, o humor, alivia/previne a depressão, diminui a tensão e melhora a autoestima — considerando ainda que todos esses fatores possam contribuir para a melhoria da saúde mental (SILVA et al.,2008).

Com referência ao estresse, verificou-se que, na amostra estudada, apenas 34,69% (17) pontuaram nas diferentes fases do estresse. Dessas nove ocorrências que se enquadraram na fase de alerta, três também se enquadraram na fase de resistência e as outras seis, além de na fase de resistência, também se enquadram na fase de exaustão. Os 17 professores que pontuaram nas diferentes fases se enquadraram na fase de resistência, e 11, na fase de exaustão, dos quais cinco também assinalaram resistências e os outros seis nas três fases. Houve casos de um mesmo sujeito enquadrar-se em mais de uma ou nas três fases do estresse. Esse fato ocorreu devido às repetições dos sintomas da fase de resistência e de exaustão.

Na fase de resistência, há um desprendimento e um gasto energético psicofisiológico; se o estímulo estressor persistir, aumenta o risco de desenvolver agravos relativos às outras fases do estresse. Dos 17 docentes nas fases de estresse, apenas 5 não desenvolveram exaustão. Vale ressaltar que, em exaustão, há o risco de desenvolverem a SB, o que ocasionará prejuízos sociais, comprometendo o próprio trabalho (Silva et al., 2008; Benevides e Pereira, 2002 e Moreno-Jimenez, 2002).

A fase de alerta tem início quando o indivíduo se defronta com o agente estressor, momento em que o organismo se prepara para a “luta ou fuga”, ocorrendo como consequência a quebra da homeostase. Esse mecanismo é de grande importância para a preservação da vida, a fim de que ele possa aturar em situação de urgência, constituindo uma defesa automática do corpo. Esta é considerada a fase positiva do estresse (eustresse), na qual o ser humano se energiza devido à produção da adrenalina; a sobrevivência é preservada e uma sensação de plenitude é frequentemente alcançada. Durante esse período, o organismo manifesta diversos sintomas físicos ou psicológicos (Gráfico 1).

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Na fase de alerta, os sintomas prevalentes foram: tensão muscular (dores nas costas, no pescoço e nos ombros), dor no estômago, taquicardia e mudança de apetite, insônia, diarreia, aumento da sudorese, mãos e/ou pés frios, boca seca, aperto da mandíbula e ranger dos dentes, respiração ofegante, hipertensão, aumento de motivação, entusiasmo súbito e vontade súbita de iniciar novos projetos.

A fase de resistência é aquela na qual ocorre a tentativa de adaptação do organismo frente à situação estressora. Nesta, o agente estressor é de longa duração ou de grande intensidade, o organismo tenta restabelecer o equilíbrio interno de um modo reparador. Para isso, usa as reservas energéticas adaptativas, tentando se reequilibrar. Se a reserva de energia adaptativa for suficiente, a pessoa se recupera e sai do estresse. Caso contrário, se o estressor exige um esforço de adaptação maior do que é possível para o indivíduo, então o organismo se enfraquece e se torna vulnerável à doença. Se a resistência da pessoa não for suficiente para lidar com o agente estressor, dar-se-á a evolução para a exaustão.

Em relação aos sintomas físicos manifestados pelos docentes na fase de resistência, destacaram-se: sensação de desgaste, problemas com a memória, esquecimento e cansaço constante.

A sensação de desgaste e o cansaço constante indicam que, provavelmente, a atividade originária de sua função pode caracterizar-se como atividade desgastante no que se refere às exigências físicas e à resistência do organismo. Em relação ao problema com memória, os professores afetados apresentam uma dificuldade severa, considerando que as atividades de memória são intrínsecas às exigências da função de docente. Como sintomas psicológicos, irritabilidade excessiva, pensar constantemente em um só assunto e sensibilidade emotiva excessiva destacam-se como mais frequentes na população pesquisada.

A exaustão é considerada um fator central do esgotamento profissional, caracterizada pelo desgaste emocional e pela sensação de falta de energia; mostrando associação inversa entre desempenho no trabalho e exaustão emocional, geralmente esta relaciona as excessivas demandas e os conflitos pessoais (SILVA e COLTRE, 2009). Na exaustão, o agente estressor atua de maneira muito severa, levando o organismo a uma doença ou a um colapso. Nessa fase, os sintomas mais frequentes são: insônia seguida de cansaço excessivo, taquicardia, hipertensão arterial, angústia ou ansiedade diária, formigamento nas mãos e nos pés.

Para análise dos dados referentes à exaustão (EE), considerou-se a distribuição de escores em uma escala do tipo Likert contendo cinco possibilidades de resposta com escalas 1 – Nenhuma vez, menor frequência; 2 – Algumas vezes por ano, com escore baixo; 3 – Algumas vezes por mês, com o médio; e 4 – Algumas vezes por semana e todos os dias com escore alto. Na dimensão de EE, foram considerados os itens 1, 2, 3, 6, 10, 14 e 16; na despersonalização (DP), os itens 5, 7, 15, 18 e 20; e, na realização pessoal (RP), os itens 4, 8, 9, 11, 12, 13, 17 e 19. A indicação para a SB se dá quando o resultado mostrar escores altos para EE e DP e baixo para RP.

No Quadro 1, foi apresentada a distribuição de frequência de ocorrência (n = 49) dos escores encontrados nos itens na escala de EE. Nesse caso, por tratar-se de 7 itens investigados e 49 docentes participantes, os valores máximos perfazem 343 ocorrências dos sintomas de exaustão. Da análise geral, 241 (70%) das frequências de escores (181 no escore Nenhuma vez e 60 no escore Algumas vezes por ano) foram alcançadas no escore baixo; 42 (12%) ocorrências (Algumas vezes por mês), no médio; e 60 (18%) ocorrências (42 no escore Algumas vezes por semana e 18 no escore Todos os dias), no escore alto. Considerando-se os somatórios dos escores médios e altos, observa-se 60 (30%) ocorrências com professores para EE (Quadro 1). Embora os professores participantes do estudo não tenham apresentado altos níveis na EE, é um dado preocupante por ser esta considerada precursora do desenvolvimento da SB (CARLOTTO e PALAZZO, 2006). Portanto, pressupõe-se que a população estudada apresenta um fator de risco alto para o desenvolvimento da SB. Os resultados encontrados nesta pesquisa diferem dos obtidos por Benevides e Pereira (2002); Carlotto (2002) e Mendes (2002) encontraram em seus estudos altos níveis para EE, um índice médio de DP e diminuição da RP, que caracteriza a síndrome de burnout. Para Benevides e Pereira (2002), a EE é uma das primeiras manifestações do burnout; portanto, o baixo nível encontrado dessa dimensão nos professores do Ensino Fundamental de Abreu e Lima não deixa de ser preocupante.

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No Quadro 2, referentes à dimensão de RP, foi considerada a distribuição de frequência de n = 49 e dos escores obtidos nos itens. O escore total foi de 392, por se tratar de 8 itens e 49 participantes. Os dados revelaram que os docentes assinalaram como resposta escores Nenhuma vez (190 ocorrências), seguidos de Algumas vezes por ano (69 ocorrências), perfazendo um total de 259 ocorrências (66%) para um baixo índice de realização profissional com o trabalho. Para os escores médios Algumas vezes por mês, foram encontradas 58 ocorrências; e, para o escore alto Algumas vezes por semana e Todos os dias, 33 e 42 ocorrências, respectivamente, perfazendo um total de 133 ocorrências (34%). No item 19 Penso que não importa o que eu faça, nada vai mudar o meu trabalho, obtivemos um índice elevado de 33 respostas para Nenhuma vez; 9 para Algumas vezes por ano; 2 para Alguma vez por mês; 3 para Alguma vez por semana; e 2 para Todos os dias (Quadro 2).

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Para investigar a despersonalização, os escores totais foram de 245 ocorrências, por tratar-se de 5 itens (05, 07, 15, 18 e 20) e n = 49. Destes, 17 (71%) docentes pontuaram no escore baixo; 20 (8%), no escore médio; e 51 (21%), no escore alto, que, somados, perfazem um total de 71 (29%) ocorrências, nas quais 29% dos docentes manifestam algum grau de motivação para a realização no trabalho (Quadro 3).

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Ao apreciar os valores contidos nas três escalas de dimensões em conjunto, ressalta-se que a versão original do instrumento de MBI em sua validação pondera a presença de burnout quando o indivíduo obtém escores altos para EE e DP e baixo para diminuição da RP. Por esses critérios, pode-se dizer que os docentes da amostra estudada não apresentam a SB, visto que os resultados indicam ocorrência de 18% para EE no escore alto e 70% para escores baixos de EE. Na DP, o escore alto foi de 21% e 71% para ocorrência de escores baixos.

Embora nesta pesquisa não se tenha configurado a presença da SB, houve indício de alto nível de estresse, o que é preocupante e necessita de investigação das causas para se estabelecer estratégias para prevenção. É preciso que haja atenção por parte dos dirigentes das escolas, propiciando para esses docentes formações que garantam melhor conhecimento sobre o estresse e a síndrome de burnout. Um olhar diferenciado para com o docente e o alunado, preservando a saúde mental dos mesmos, evitando acontecimentos futuros.

Conclusão

Frente à pesquisa realizada e aos dados obtidos, foi perceptível o alto nível de estresse vivenciado pelos professores. Os resultados apontam para um quadro relevante acerca da presença de estresse nas diversas fases, bem como permitem sugerir uma leitura acerca das estratégias de enfrentamento relativo ao total de professores que se encontravam na fase de resistência. A amostra estudada apresentou pontuação não condizente com a síndrome de burnout; esse dado pode estar relacionado ao fato de o professor ter bom relacionamento com a comunidade escolar e com os alunos, portanto está menos sujeito à SB. Outra característica seria a personalidade e a resistência, em que o indivíduo usa os agentes agressores como estímulo para o crescimento pessoal.

Mesmo sem apresentar a síndrome de burnout, alguns de seus preditores já puderam ser notados, devendo-se, portanto, cuidar para que esses sintomas iniciais não se somem a ponto de a SB se estabelecer. O estresse e a SB são patologias presentes entre os professores na atualidade. As pesquisas têm demonstrado acréscimo das doenças ocupacionais no contexto educacional. O conhecimento das características dessas patologias, a identificação dos sintomas e as consequências apenas não bastam.

Diante do exposto, sugerem-se novas pesquisas a fim de reunir subsídios para motivar programas que possam melhorar a qualidade de vida do professor, o que consequentemente resultaria benefícios positivos na relação professor-aluno com reflexo na aprendizagem.

Erijane Pereira Santa Rosa Gonçalves é psicopedagoga, professora do Ensino Fundamental na rede municipal do Recife e de Abreu e Lima – PE.

Endereço eletrônico: janiere_goncalves@outlook.com.

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