Edição 61

Educação

A urgência de uma Educação mais humana e cidadã

Na atualidade, passamos por várias crises que afetam a vida das pessoas. Por causa da eficiência dos meios de comunicação, as informações correm o mundo numa velocidade espantosa. Quase todas as pessoas têm acesso à Internet e às diversas mídias, e esse contexto de nossa contemporaneidade faz com que a sociedade se transforme rapidamente. Na verdade, dificilmente encontramos comunidades “isoladas” do mundo, pois, do pequeno município do interior às grandes capitais, as informações chegam com rapidez.

O acesso a esse turbilhão de informações gera a crise pela qual passamos. Mas em que consiste essa crise? Trata-se de uma crise na cultura, nos costumes, na Educação, na religião e em vários setores da sociedade em que vivemos, pois, diante de uma grande quantidade de informações contraditórias entre si, as pessoas não estão conseguindo analisar, avaliar e ter senso crítico, de forma que tudo o que a mídia apresenta torna-se produto de consumo e, às vezes, causa indigestão mental. Nesse sentido, um grande relativismo permeia as mentes humanas, uma vez que já não existem valores consolidados, porque, na sociedade do consumo, tudo é descartável. O que serve hoje amanhã já merece o lixo. Isso é válido para os bens materiais e, o que é mais grave, para os valores. Na maioria das vezes, os meios de comunicação de massa são os responsáveis por ditar ou propor a nova moda, os novos valores, a nova onda. E isso se consolida principalmente no meio juvenil, no qual o distanciamento dos pais é um dos fatores que contribui para essa realidade lamentável. Basta vermos nossas escolas. A maioria dos pais acompanha de perto os filhos até o 5º ou 6º anos, depois parece que tudo fica por conta da instituição.

Outro problema sério é a crise dos paradigmas. Há muito tempo que nossa sociedade perdeu seus referenciais. Onde podemos encontrá-los? Já não os encontramos tão facilmente. Quem são os modelos a serem seguidos no mundo da política, da religião, do esporte, da Educação? As realidades se transformam de uma forma muito rápida, e, nessas transformações, os nossos paradigmas estão se perdendo. E, como muitas vezes não sabemos o que colocar no lugar, alienamo-nos em programas televisivos nada formativos que nos despersonalizam, pois nos propõem paradigmas totalmente envolvidos por este sistema social vigente caracterizado pelo consumismo, culto ao corpo e exibicionismo, segundo os quais o que vale é a imagem, ou seja, não o que você é, mas o que você tem, uma vez que, hoje em dia, a marca da roupa, do tênis e o valor do celular que se usa são os elementos que dizem quem você é.

Esse sentimento de busca de sentido e de valor é o que caracteriza este momento de crise pelo qual passamos e que leva as pessoas a caírem num niilismo por não se sentirem preenchidas por aquilo que encontram em suas buscas. Talvez esse fenômeno explique o alto índice de depressão que marca as estatísticas, principalmente nas cidades grandes. É necessário que as pessoas se encontrem, se formem, se eduquem para a busca de ideais consistentes. Caso contrário, continuarão atingindo altos índices de doenças crônicas.

Em face das situações mencionadas, vem a grande questão: e a Educação? Ela não pode ficar alheia a essas realidades de crises sociais, principalmente porque a maioria das pessoas passa por uma escola. E essa instituição não pode se ocupar apenas com conteúdos acadêmicos, deixando de lado a formação humana e cidadã, pois não adianta termos profissionais competentes naquilo que fazem, mas desumanos e sem nenhuma formação cidadã. Se observarmos bem, na história, nem sempre os intelectuais foram aqueles que fizeram a diferença no contexto em que viveram, mas fizeram a diferença como pessoas simples pelo fato de terem sido pessoas, terem sido gente. Se fôssemos mais humanos, mais cidadãos ao desenvolver nossas ciências e nossas tecnologias, não teríamos tantos problemas no mundo. E, diante desse contexto, o que nos falta? A resposta está no título deste artigo: uma Educação mais humana e cidadã.

E se a Educação também estiver em crise? É muito comum escutarmos a afirmação de que a Educação está em crise. E muitas são as explicações. A Educação está em crise porque o salário dos professores é baixo. Isso não dá estímulo para ir à sala de aula. A Educação está em crise porque os alunos de hoje são desinteressados, não ligam para os estudos. A Educação está em crise porque os pais não participam ou acompanham seus filhos em casa. Ou seja, a tendência, nos tempos de crise, é buscar os culpados. Então, o governo não paga direito, o professor não ensina bem, os alunos não se interessam e os pais não sabem o que fazer com os filhos.

Vendo essa realidade, parece que estamos diante de um quadro desolador marcado pela desesperança. A sociedade está em crise, e o remédio para superar a crise, que é a Educação, parece que também está. Dessa forma, o sistema de Educação vigente necessita de uma transformação no que se refere à transmissão do conhecimento aos educandos.

Para que a Educação comece a surtir efeitos, é preciso ir além das fórmulas da Química, dos teoremas da Matemática, das regras da Gramática e das datas da disciplina de História, uma vez que isso não transforma vidas. Alunos não são e nem devem ser depósitos de informações, mas monumentos a serem esculpidos, cidadãos a serem formados. Para isso, é necessário um pouco mais de humanismo, de valores nos conteúdos de sala de aula para que professores e alunos não continuem sendo agredidos e até mortos dentro da escola. Essa instituição que deveria ser o centro da formação humana e cidadã está tendo o chão manchado por sangue humano.

Nesse sentido, os tempos em que estamos vivendo não devem ser motivo de desespero ou espanto, mas de alerta e de avaliação de nossas práticas em sala de aula. O que estamos ensinando? Como estamos ensinando? O que realmente serve para a vida? Com o que eu mais me preocupo, com o meu aluno ou com os resultados, com as estatísticas? Talvez a falta de um tratamento mais humanizado para com o outro dentro da escola seja a causa de tantas contradições entre a função da escola e o que está acontecendo dentro dela. Porém, tratamento mais humano não significa “passar a mão na cabeça” quando se erra, pois, antes de tudo, é necessário que aquele que cometeu algum erro seja penalizado, sendo consciente das consequências negativas e do mal que cometeu. E, além de práticas de humanidade, a escola deve ensinar aos alunos valores de cidadania através de projetos e momentos específicos. Assim, teremos uma Educação com uma perspectiva muito mais ampla, que vai além da sala de aula, do quadro e do giz. Afinal, no conceito de escola de hoje, deve estar inserida a expressão “formação para a vida”. Antes de intelectuais, a sociedade precisa de pessoas que sejam capazes de conviver entre si respeitando e sendo respeitadas, e isso a escola pode e deve ensinar.

A consequência de um ensino voltado para os valores humanos e a formação cidadã são a convivência harmoniosa entre aqueles que formam a sociedade. Surge, então, a questão: o que é um cidadão? Segundo o sociólogo Herbert de Sousa (Betinho),

Cidadão é um indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões da sociedade. Tudo o que acontece no mundo acontece comigo. Então eu preciso participar das decisões que interferem na minha vida. Um cidadão com um sentimento ético forte e consciente da cidadania não deixa passar nada, não abre mão desse poder de participação (OLIVEIRA, P. S., Introdução à Sociologia, 25. ed. São Paulo: Ática, 2004).

Uma educação que foca na formação de valores humanos também forma pessoas para o convívio social, e, nos dias de hoje, isso é fundamental, porque ter consciência de seus direitos e deveres é essencial para que o cidadão possa participar mais ativamente na sociedade. Essa consciência pode ser formada dentro da escola de forma teórica e prática, ensinando a respeitar o outro. E, se analisarmos bem, é isso o que muito falta atualmente, pois este sistema capitalista no qual vivemos proporciona o sentimento de individualismo, de competição e de egoísmo, que muitas vezes contrasta com os princípios de humanidade e de cidadania.

Sendo assim, percebemos que o papel da escola é muito diferente de tempos atrás, uma vez que ela não se limita a transmitir conhecimentos ou conteúdos de Matemática, Gramática ou outras disciplinas, mas de formação humana e cidadã. Por isso, é necessário que sejam revistas muitas práticas que ainda não são direcionadas ao ser humano, ao cidadão. Se pautarmos uma Educação voltada mais para os valores humanos e cidadãos, teremos uma sociedade melhor, com pessoas se respeitando, sabendo dos seus limites, tendo senso crítico frente ao que apresentam os meios de comunicação de massa e com modelos mais consistentes a serem seguidos. Quando se formam homens e cidadãos, formam-se paradigmas, pois a riqueza da sociedade consiste justamente na qualidade dos homens e das mulheres que a formam, e essa qualidade se constrói através de uma Educação mais humana e cidadã.

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