Edição 14

Professor Construir

A voz — instrumento de trabalho do professor — necessita de cuidados

A voz é um código de expressão da alma, pois revela nossas impressões mais profundas através de seu timbre, seu volume, sua forma de emissão. Quando trabalhamos com a voz de alguém, colocamos em jogo o seu esquema de valores, toda sua filosofia de vida e toda a sua cosmovisão (Coelho, 1994).

A voz é considerada um dos mais poderosos meios de interação humana e, na profissão de educadores, é a principal ferramenta de trabalho dos professores. Inspirada nesse princípio, Dra. Hélida Maia, fonoaudióloga, atuando há seis anos na prevenção da saúde vocal com os professores das redes pública e particular de Brasília, considera que os professores, em sua rotina de trabalho, ficam vulneráveis ao tempo e ao uso da voz. Logo, necessitam de um tratamento de caráter profissional e preventivo.

A especialista tem como base as pesquisas que apontam um aumento significativo no número de professores com distúrbios vocais, provocados pelas condições de sua rotina de trabalho e por desinformação sobre o uso profissional inadequado. Dentre os fatores mais agravantes dos problemas de distúrbios da voz, ela aponta: a desinformação sobre seu uso e abuso, doenças associadas a disfonia e alergias respiratórias e o alto nível de estresse a que eles são submetidos no desempenho da profissão.

Em sua experiência na área, Dra. Hélida Maia encontra como a patologia mais freqüente em professores os nódulos de pregas vocais (vulgo calos). O grande vilão do aparecimento destes é  o esforço fonatório. O professor acredita que falar é um ato de esforço, o que não pode ser. Assim como acredita que a rouquidão é normal para a sua profissão. Eles  precisam saber que a rouquidão por mais de 10 dias é preocupante, não é reflexo só da dor de garganta ou gripe e pode caracterizar um problema de pregas vocais. Nesse caso, é muito importante procurar um otorrinolaringologista ou um fonoaudiólogo.

Em sua experiência, Hélida informa que as pesquisas apontam um aumento significativo no número de professores com distúrbios vocais, quando do desempenho das atividades escolares. Os diversos motivos são atribuídos, em grande parte, à vida agitada e ao constante estresse a que esses profissionais são submetidos. Somados a esses, os hábitos vocais inadequados concorrem para a disfunção da qualidade vocal dos professores: disfonia, alteração da voz e afonia (ausência da voz).

Por dificultar a carreira desse profissional, a disfunção vocal tem sido objeto de estudo e já é considerada doença profissional e social na maioria dos países. Os distúrbios de maior freqüência são: fadiga vocal, ardume, dor na garganta, tosse seca insistente, perda da voz e rouquidão sem gripe. A Fonoaudiologia é a ciência que cuida da prevenção e minimização dos distúrbios vocais, auxiliando os professores que estão atentos para sua produção vocal, evitando assim piores problemas no futuro. Para isso, é necessário que os professores, que utilizam a voz como instrumento de trabalho, estejam cientes das normas básicas que auxiliam a prevenção da saúde vocal, como também é preciso conhecer e desenvolver medidas preventivas, mudando pequenos hábitos e comportamentos no nosso cotidiano, através de cuidados básicos, como:

* Falar com uma postura correta, articulação precisa sem exageros, controle pneumofonoarticulatório e utilização de gestos no processo de audibilização e visualização na exposição em sala de aula.

* Ter cuidados com as vestimentas: usar roupas leves que não apertem a região do pescoço e/ou da cintura, pontos que garantem boa produção vocal.

* Eliminar hábitos de pigarrar, tossir e raspar secreção; estes devem ser substituídos por deglutição, que auxilia a eliminação.

Como estratégias didáticas, a fonoaudióloga recomenda algumas medidas que, além de serem preventivas de distúrbios vocais, são elegantes para a postura do professor:

* Falar articulando bem as palavras, com velocidade diminuída, dando pausas para reabastecer o ar dos pulmões.

* Manter a região do pescoço e dos ombros bem relaxada, para não prejudicar a mobilidade dos músculos de suporte da laringe.

* Tomar bastante água em temperatura ambiente (de 15 em 15 minutos) em sala de aula com ar-condicionado, por causa do ressecamento da mucosa.

* Nunca gritar, a não ser para pedir socorro. O grito deseduca e dá direito ao outro de gritar com você também. Para obter silêncio, no início e durante as aulas, usar recursos previamente combinados com os alunos, como: bater palmas, acenar as mãos, etc.

* Realizar a chamada pelos próprios alunos, pedindo para eles falarem seu nome por ordem alfabética ou pelo número de matrícula; isso promove concentração e silêncio, tornando o ambiente adequado para o início das atividades.

* Evitar o contato com o giz e limpar o quadro-negro com um pano úmido para não inalar o pó. Usar recursos como vídeo, slides, transparências e cartazes para poupar a voz do professor.

* Melhorar a disposição dos alunos dentro de sala para dissipar melhor o som da voz (meia-lua).

* Falar sempre virado para a turma, não fazer competição vocal nem com ruídos externos à sala de aula nem com a conversa paralela dos alunos.

* Evitar os choques térmicos, principalmente aqueles aos quais você sabe que é sensível (banhos quentes para sair ao vento), café quente e depois água gelada, sair sem agasalho numa noite fria.

Recomendações

Prevenção:

Higienização
* Praticar a escovação de dentes e língua.

* Hidratar amídalas, tomando uma colher de mel acompanhada de um copo de água natural.

Alimentação
* A alimentação deve ser baseada em frutas e alimentos não-gordurosos.

Relaxamento
* Cumprir a carga horária estabelecida para o exercício da profissão, respeitando os intervalos recomendados.

* Praticar exercícios físicos e mentais.
Físicos: exercícios específicos para os movimentos articulatórios dos OFAs, caminhada, natação e hidroginástica.

Mentais: prática de ioga, meditação, introdução da música instrumental durante o desenvolvimento de atividades extraclasse.

especiais:

* Não consumir bebidas e alimentos gelados, em excesso.

* Não fumar.

* Quando em quadros gripais, evitar falar em excesso.

* Não praticar exercícios físicos que exijam o uso da voz.

* Sentindo alguma alteração na sua voz, procurar imediatamente um profissional da área (fonoaudiólogo, otorrino).

* Não se automedicar; em caso de tratamento, cumprir as orientações médicas corretamente e, se necessário, buscar ajuda psicológica.

Essas ações da correta utilização da voz, além de prevenir distúrbios, garantem uma melhor comunicação e interação professor–aluno.

Dra. Hélida Maia faz parte da equipe que atua no Programa de Saúde Bucal – PSB, realizado na clínica do Sinepe Saúde – DF. A idéia surgiu em 1999, com base em um levantamento epidemiológico realizado pelo Dr. Antônio Jorge, Médico do Trabalho e integrante da equipe do Sinepe Saúde. Foram avaliados 493 professores atuantes no Ensino Fundamental e Médio, através de um questionário de sondagem. Os resultados do estudo foram alarmantes. Em 55,7% dos entrevistados, foi detectada a disfonia primária, um dos distúrbios mais comuns da fala. A partir dos dados coletados, os profissionais do Sinepe Saúde fizeram um perfil da categoria e descobriram que esse problema ocasiona freqüentes afastamentos de professores para tratamento de saúde. O PSB passou a ser realizado em duas frentes de ação: a prevenção da disfonia e a reabilitação do disfônico.

A profilaxia da voz está a cargo da fonoaudióloga Hélida Maia, que realiza o trabalho de reabilitação fonoterápica. Semanalmente passam pelo seu consultório, instalado na sede do Sinepe, aproximadamente 30 professores em fase de reabilitação vocal. A eficácia é notória de acordo com a Professora Conceição das Graças Moreira Araújo, presidente do Sinepe. Reduzimos as licenças médicas causadas por disfonia ou afonia e melhoramos a qualidade de vida dos nossos profissionais, comemora Conceição.

O programa contribuiu, também, para conscientizar os educadores sobre a conservação da sua voz. “Às quintas-feiras, eu já estava rouca. Hoje, falo articuladamente, e minha voz está mais homogênea e sem pigarros”, afirma Agda Vasconcelos, professora de uma escola de Brasília. A experiência não pára por aí. Os coordenadores do programa querem realizar estudos técnicos para caracterizar o nexo causal e incluir essa enfermidade na lista de doenças do trabalho catalogadas pelo Ministério da Previdência.

Dra. Hélida Maia
www.sinepe.df.org
helidamaia@hotmail.com
Fone: (61) 245 3646

Referências Bibliográficas:

BEHLAU, M. Pontes, P. Higiene vocal: informações básicas. Lovise, São Paulo, 1993.
HERSAN, P. Distúrbios da voz. In: Problemas da audiocomunicação na educação. Fundação para o Desenvolvimento da Educação. São Paulo, 1989.
OLIVEIRA, B. e col. Distúrbios vocais em professores da pré-escola e primeiro grau. In: FERREIRA, P. (org.) Voz profissional: o profissional da voz. Pro-fono. São Paulo,1995.
SACALOSKI, M. ALAVARSI, E. GUERRA, G. Fonoaudiologia na escola. Lovise. São Paulo, 2000.

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