Edição 71

Em discussão

Abuso sexual infantil

Karen Miller

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Um exemplo

Kathleen, uma menina de 4 anos, frequentava a creche há mais de 1 ano. No último mês, sua professora, Trudy, descobriu que Kathleen fazia brincadeiras sexuais com as outras crianças. A princípio, Trudy considerou tudo como uma brincadeira exploratória, normal para crianças dessa idade. Várias vezes, outras crianças reclamaram que Kathleen havia puxado a calcinha e tocado nelas. Trudy respondia dizendo às crianças que as partes privadas do corpo eram só delas e que não deviam deixar outras crianças tocá-las e falou para Kathleen parar imediatamente com aquelas brincadeiras. Porém, o problema apenas parecia aumentar. De fato, Trudy notou que as outras crianças agora pareciam gostar de se esconder com Kathleen para participar das brincadeiras sexuais. Trudy sentiu que a situação havia passado do nível da curiosidade e decidiu levar o problema ao diretor.

Trudy e o diretor marcaram uma reunião com a mãe de Kathleen, uma profissional liberal, que ficou furiosa e histérica quando descobriu o que estava acontecendo. Quando o diretor perguntou se ela acreditava que pudesse haver alguma forma de abuso sexual na vida da criança, a mãe mudou e acusou a creche e Trudy, em particular, de cometer o abuso.

A mãe de Kathleen chamou o promotor e a autoridade responsável por coibir abusos infantis, e o diretor chamou o advogado da creche e a mesma autoridade. Trudy tirou uma licença remunerada enquanto era feita uma investigação, a qual mostrou que, de fato, houve abuso infantil, mas que o agressor era o pai, e não um membro da equipe da creche. Os pais tiraram Kathleen da creche, de maneira que Trudy e o diretor não tiveram mais como saber se a criança estava recebendo a intervenção necessária. Enquanto isso, Trudy, de volta ao trabalho, contou que as brincadeiras das outras crianças retornaram ao normal.

O incidente foi muito perturbador para todas as pessoas envolvidas. A creche recebeu muita publicidade negativa e perdeu algumas crianças. O diretor perdeu muito sono e muitas verbas. A reputação profissional de Trudy foi posta em risco. Às vezes, ela se pergunta se realmente agiu corretamente ao levar a situação à atenção do diretor. Ela espera que o abuso de Kathleen pare e que a menina e sua família recebam a ajuda de que necessitam.

iofoto_53544670_optAnalisando a questão

Nesse exemplo, o principal erro do diretor e da professora foi tentar falar em primeiro lugar com os pais. A lei afirma que os professores devem denunciar às autoridades responsáveis qualquer suspeita de abuso sexual infantil. A investigação não é responsabilidade da creche ou do professor.

Sem dúvida, o abuso sexual é algo que existe desde o início dos tempos. Na última década e meia, o problema do abuso sexual infantil começou a receber mais reconhecimento, e verificou-se que não se limita a uma determinada classe social ou grupo de pessoas.

O abuso sexual infantil é definido como o contato ou a interação entre uma criança e um adulto, em que este usa a criança de maneira sexual. Inclui uma ampla variedade de atividades sexuais, variando de agressões não violentas e não físicas (como a exposição) a agressões envolvendo contato físico e às vezes violento (a manipulação, o contato oral ou genital, a estimulação e a penetração anais, assim como a exploração por meio de pornografia e prostituição).

Na grande maioria dos casos de abuso sexual, o agressor é um conhecido da criança, e, muitas vezes, o abuso ocorre dentro da família. Garotos e garotas são vítimas de homens e mulheres, e o abuso sexual ocorre principalmente na casa do agressor ou da vítima. Em geral, o abuso é seguido por ameaças ou propinas para coagir a criança a guardar segredo. Um padrão típico de abuso começa com o agressor ficando amigo da vítima, a menos que já exista um relacionamento estabelecido, como um parente ou uma babá. A amizade se solidifica à medida que o agressor dá mais atenção à criança. Após um período, o agressor agride a criança sexualmente, e essa agressão é seguida por uma propina ou ameaça. Exemplos: “Eu vou para a cadeia se você contar para alguém” ou “Não poderemos ser mais amigos se você contar”.

Considerações sobre o desenvolvimento infantil após abuso

Conhecimento sexual excessivo: Uma determinada quantidade de brincadeira ou exploração da sexualidade é normal em crianças pequenas. A “bandeira vermelha” ocorre quando isso parece excessivo e indica conhecimento sexual além do que é típico de crianças pequenas. Esse comportamento pode indicar que a criança testemunhou atividade sexual, em vez de tê-la experimentado diretamente, o que também é motivo de preocupação.

Pensamento egocêntrico: Como as crianças têm pensamento egocêntrico, muitas vezes assumem a culpa pelo abuso sexual. Se as pessoas reagirem com ódio ou raiva quando a criança falar a respeito, ela pode entender que o adulto está bravo com ela, e não com a situação.

Sentimentos de culpa e medo. A criança pode sentir culpa ou medo de contar, pois pode ter sido ameaçada ou chantageada. Exemplos: “Se você contar, eu não amarei mais você”, “Se você contar, a mamãe vai presa e você ficará sozinha”, “Se você não contar, eu lhe dou um presente”.

Medo de relatar o incidente: As crianças pequenas raramente denunciam o abuso sexual para um adulto, pois temem que não acredite nelas ou que as culpe.

Dificuldade com eventos sequenciais: Denunciar o incidente também é difícil porque as crianças geralmente não conseguem contar uma história sequencial até por volta dos 5 anos. E mesmo assim, a sequência dos eventos ainda é difícil. Elas geralmente começam descrevendo o que lhes parece mais importante.

Lembrando os detalhes: As crianças pequenas lembram poucos detalhes, mas suas recordações são tão exatas quanto as de crianças maiores.

Autoestima baixa e depressão: As vítimas infantis de abuso sexual muitas vezes sofrem de autoestima baixa e depressão. Elas podem se retrair e participar menos das atividades ao seu redor.

Sentimentos de raiva: A criança que sofreu abuso sexual pode expressar raiva para com outras pessoas ao seu redor — incluindo adultos carinhosos, que não estejam envolvidos no abuso. Na mente da criança, esses adultos são todo-poderosos e deveriam saber resolver o problema.

Preocupação com brincadeiras sexuais: Não é incomum que uma criança que sofreu abuso se torne “sexualizada” — exageradamente interessada em sexo e sedutora com outras crianças e adultos. Uma criança pode levar todo o grupo de crianças a ter brincadeiras sexuais repetidas, de modo que se deve lidar com a situação, e não ignorá-la.

Necessidades anormais de proximidade e contato físico. Todas as crianças necessitam de contato físico, carinho e proximidade com as pessoas que delas cuidam. Um lugar onde as crianças não sejam abraçadas, embaladas e acariciadas não é um bom lugar para elas. As pessoas devem falar sobre quais são os carinhos adequados e quais não são. Deve-se abraçar a criança quando ela quiser um abraço, e não quando o adulto precisar de um abraço.

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Quando procurar ajuda

Qualquer um dos seguintes sinais pode indicar que está ocorrendo abuso sexual na vida de uma criança.

Problemas genitais e/ou retais – Coceira e/ou dor nas áreas genital e/ou retal, irritação ao sentar ou caminhar, sangue na roupa íntima, machucados na área genital ou problemas quando vai ao banheiro. Uma criança pequena pode simplesmente dizer que dói e apontar para a área genital. Evidências de trauma físico nos órgãos genitais, ânus ou boca também são sinais de abuso.

Problemas para dormir – como pesadelos, urinar na cama ou ter medo de ir dormir. A hora da sesta pode ser um momento difícil.

Regressão – Qualquer forma de regressão contínua e notável em marcos do desenvolvimento, como padrões de fala e hábitos de uso do banheiro.

Conhecimento sexual precoce – O vocabulário pode incluir palavras que crianças pequenas não costumam usar. Interesse incomum em temas sexuais.

Comportamento sexualizado – A criança pode ter níveis inadequados de afeto, sedução e agressividade sexual.

Reviver – As crianças, muitas vezes, representam em suas brincadeiras aquilo que não conseguem expressar verbalmente. Preste atenção nas dramatizações da criança e suas representações com bonecas. Talvez você note que uma criança está representando atos sexuais fora da experiência esperada para essa fase.

Temas sexuais inusitados ou bizarros – Em histórias ou trabalhos artísticos produzidos pela criança.

Inquietação ou retraimento – As crianças que sofrem abuso sentem muita tristeza.

Medo de uma determinada pessoa ou gênero.

Relutância para tirar a roupa.

Relacionamentos sociais deficitários com outras crianças – Autoestima baixa.

Sinais indiretos – Alusões ao problema em casa.

Revelação – A criança pode contar a um adulto sobre a situação de abuso. Declarações comuns são: “Meu irmão não me deixou dormir a noite passada”, “Minha babá fica me incomodando”, “Conheço alguém que está sendo tocada de um jeito ruim”, “Eu tenho um problema, mas, se eu contar, você tem que prometer que não vai contar a ninguém”.

Ausências incomuns – Um pai abusivo pode manter a criança em casa e desestimular seus relacionamentos.

Algumas crianças não apresentam nenhum sinal, seja físico ou comportamental, enquanto sofrem abuso. Não é incomum que crianças que sofrem abuso se saiam bem na escola, o único lugar onde se sentem seguras.

Lembre-se de que, com exceção dos casos em que a própria criança relata o incidente, todos esses comportamentos podem indicar outros problemas que não estejam relacionados com o abuso sexual. Mesmo não se devendo tirar conclusões precipitadas, é importante agir e verificar qualquer preocupação.

Quem pode ajudar

O órgão de sua área que lida com casos de abuso infantil. Procure uma das organizações seguintes na lista telefônica de sua cidade ou peça informações no auxílio à lista sobre quem você pode chamar em sua região.

Conselho tutelar
Secretaria de Assistência Social
Secretarias e organizações ligadas aos Direitos Humanos
Serviços de reabilitação e sociais
Polícia
Centros de saúde mental
Terapeutas de família
Assistentes sociais
Psicólogos infantis
Centros que atendem a casos de estupro
Abrigos para mulheres agredidas e suas famílias
Delegacia da Mulher
Como lidar com a equipe

Faça uma reunião da equipe com um profissional. É possível que alguns membros da equipe também tenham sido vítimas de abuso sexual infantil. Portanto, é aconselhável fazer reuniões sobre o tema com a orientação de um profissional treinado. O tema deve ser discutido detalhadamente, estimulando-se as pessoas que foram vítimas a trabalhar em particular com um orientador.

Por lei, os professores devem denunciar casos de abuso infantil – Como a autoridade a quem se deve relatar o abuso sexual varia de lugar para lugar, verifique, antecipadamente, quem deve chamar em sua região. Tenha o nome e o telefone do órgão e da pessoa específica à mão. Consulte seu coordenador antes de agir, mas, se ele o aconselhar a não ligar e você ainda acreditar que existe abuso, deve fazer a denúncia. Se você, de boa-fé, relatar uma suspeita de abuso, dando uma razão válida para suspeitar, estará protegido de processos legais.

Lembre-se: fazer uma investigação não é seu papel. Porém, coopere com qualquer investigação feita pelas autoridades adequadas.

Trabalhe a sua raiva falando com alguém em quem confia (talvez o diretor da escola, um colega ou um orientador experiente).

Não fale sobre a situação com outras pessoas que não estejam envolvidas diretamente com a criança. Respeite a sua privacidade.

Prevenindo o abuso sexual em escolas e creches

Embora a grande maioria dos casos de abuso sexual ocorra na casa do agressor ou da criança, é possível que ocorra em qualquer ambiente. Existem coisas que você pode fazer para reduzir a possibilidade de abuso sexual em seu ambiente.

Tenha cuidado ao contratar funcionários. Faça uma avaliação cuidadosa de referências e histórico de todos os candidatos. Nos Estados Unidos, muitos estados já exigem registros de impressões digitais e criminais para funcionários de creches e escolas. Contudo, lembre-se de que apenas uma pequena percentagem de agressores sexuais tem registros criminais.

Proporcione orientação e treinamento para todos os funcionários, substitutos e voluntários em seu programa. Afirme especificamente que você não tolerará nenhuma forma de abuso. Descreva o comportamento profissional que espera que tenham. Enfatize as políticas disciplinares e maneiras de tratar as crianças com bondade e respeito. Essas políticas devem ser apresentadas por escrito, e os empregados devem assinar uma declaração de que as leram.

Oriente os pais a ensinar cuidados pessoais a seus filhos, em especial como limpar-se após usar o banheiro. Embora deva ajudar a criança ocasionalmente, você também deve estimulá-la a aprender por conta própria.

Inclua o tema do abuso sexual na orientação à sua equipe.

Indique um supervisor ou responsável para todos os funcionários novos. Evite deixar uma pessoa nova trabalhando a sós com as crianças.

Não permita que pessoas que não sejam empregados regulares, como professores de dança, voluntários ou visitantes, fiquem sozinhas com um grupo de crianças sem a presença de um membro treinado da equipe.

Supervisione a equipe. Os coordenadores devem visitar as salas de aula sem avisar, em momentos diferentes do dia, especialmente na hora da sesta. Tenha razões legítimas para entrar na sala em horários inesperados.

Crie uma atmosfera que promova a comunicação aberta. O coordenador deve estar pronto para falar com as pessoas em particular a qualquer momento.

As necessidades das crianças vêm em primeiro lugar. Mesmo que você se sinta desconfortável quando um membro da equipe denuncia uma suspeita de abuso contra um colega, ajude toda a equipe a entender que todos são responsáveis por garantir que as crianças tenham uma boa experiência em seu programa. Os direitos e as necessidades das crianças devem vir antes da lealdade à equipe.

Mantenha uma política de portas abertas para os pais das crianças matriculadas em sua escola. Eles devem ter a liberdade de visitá-las a qualquer momento, sem avisar. Por outro lado, todos os adultos devem ser acompanhados por um funcionário em qualquer visita.

Certifique-se de que as crianças tenham supervisão o tempo todo. Lembre-se: a pessoa que comete uma agressão sexual não precisa ser um adulto. Às vezes, crianças maiores forçam as menores em atos sexuais quando não há adultos presentes. Não deixe as crianças a sós enquanto sesteiam. Não permita que as crianças entrem no prédio sozinhas para usar o banheiro quando todos estão brincando no pátio. Preste especial atenção aos momentos de transição, quando as crianças estão andando de um lugar para outro ou usando o banheiro.

Suzanne-Tucker_1358298_optCertifique-se de que as crianças possam ser vistas o tempo todo.

Dê uma olhada em seu ambiente e certifique-se de que não existem lugares onde as crianças possam se esconder da vista dos adultos. Mesmo que as crianças em creches necessitem de espaços privados, é possível organizá-los de modo que uma criança se sinta separada do grupo, mas que os adultos ainda possam observar o grupo e supervisionar.
Não permita passeios à casa de funcionários, a menos que haja uma razão legítima (como o funcionário morar em um sítio), e outros funcionários e pais possam acompanhar o grupo.

Os passeios devem ser planejados antecipadamente e ter um foco educativo. Os pais devem ser informados de todos os detalhes dos passeios — hora, destino e propósito. Siga as atividades planejadas e não permita mudanças espontâneas. Sempre conte todas as crianças.

Certifique-se de que a sua creche ou escola é segura e não deixe que nenhum adulto entre no prédio ou pátio sem autorização.

Promova programas educativos sobre abuso infantil para os pais e funcionários. Reúna os pais e funcionários nas mesmas sessões de treinamento. Certifique-se de incluir o abuso infantil entre os temas tratados.

Interrompa qualquer ato de abuso que observar. Se você descobrir uma situação em que um adulto ou criança maior está cometendo abuso sexual contra uma criança, fale ao agressor para parar imediatamente. Leve a criança com você e relate o abuso a um coordenador. Se você se omitir, poderá ser considerado cúmplice.

Se você é um coordenador e houver uma acusação de abuso sexual contra um dos seus funcionários:

Você deverá notificar as autoridades.

O empregado pode ter uma suspensão remunerada enquanto é feita uma investigação, desde que coopere em todas as questões relacionadas com a investigação.

Você pode decidir suspender o empregado, sem remuneração.

Coopere inteiramente com a agência que realiza a investigação.

Não seja defensivo. Informe às autoridades que você está genuinamente preocupado e trabalhará para resolver quaisquer problemas que encontrar.

Mantenha uma postura profissional.

Informe-se sobre o processo investigativo. Se os pais forem entrevistados, peça para informá-los de que há uma investigação em andamento, a fim de mostrar que você está ciente e se preocupa.

Quando uma ou mais crianças forem identificadas como vítimas, seja solidário com as famílias e as crianças envolvidas. Mantenha a privacidade sempre que possível.

Notifique o restante dos funcionários de que houve acusações. Não é necessário dar todos os detalhes. Questione os demais funcionários, individualmente e a sós, sobre informações que possam ter e que possam ajudar na investigação. Indique possíveis testemunhas à agência investigadora. Para limitar os rumores e exageros, mantenha os funcionários informados periodicamente.

Se as acusações se mostrarem verdadeiras, demita a pessoa envolvida imediatamente. Seja honesto com os pais e descreva os passos que tomou para corrigir o problema. Eles provavelmente se sentirão satisfeitos com a sua sinceridade e entenderão que você não deseja esconder nada.

Como lidar com as crianças

A recuperação da criança de um trauma de abuso sexual depende muito do grau de abertura e sensibilidade das respostas dos pais e cuidadores.

Se a criança conta que há abuso

• Acredite na criança. As crianças pequenas raramente mentem sobre abuso sexual.

• Não prometa que não contará a ninguém. Você pode prometer à criança que ela será protegida. Conte a ela que você e os outros farão tudo que puderem para impedir que isso aconteça novamente. Elogie a criança por contar, enfatize que não é culpa dela e que ela não é má.

• Não reaja com horror e ódio. A criança pressupõe que a sua resposta é direcionada a ela, e não ao agressor. Controle suas expressões faciais e sua linguagem corporal. Reaja com calma e responda com empatia. Conforte a criança e diga que sente muito por isso ter acontecido com ela. Seja um bom ouvinte. Mantenha-se disponível e converse individualmente se ela precisar no futuro.

• Evite criticar o adulto. Não diga: “O seu pai é mau”. Concentre-se na criança.

Se uma criança sofreu abuso sexual

michaeljung_60309694_opt• Fale para a criança que você sabe.

Depois da investigação, ou se a criança for nova em seu programa, não finja que não aconteceu nada. Fale para a criança que você sabe o que aconteceu e que está ali para ouvir se ela quiser falar a respeito. A criança deve saber que não está sozinha.

• Participe da equipe de profissionais. Como professor da criança, você está no círculo de seus adultos íntimos. Trabalhe com os outros profissionais para entendê-los e para compreender a situação, assim como para responder de maneira solidária.

• Documente tudo. Anote e date tudo o que a criança disser e fizer, como em um diário, com o máximo de detalhes que puder, incluindo a hora do dia e as circunstâncias envolvidas em possíveis incidentes. Isso ajudará você a evitar conjeturas e conclusões precipitadas.

• Interrompa as brincadeiras sexuais imediatamente. Se descobrir a criança participando de brincadeiras sexuais explícitas, você deve interromper a atividade. Uma resposta sugerida por Herthe Klugman, em Learning Through Play: Dramatic Play Book, é dizer para as crianças envolvidas: “Fico feliz por vocês serem amigos, mas, em nossa sala, as pessoas não tocam nas partes íntimas das outras. Que outras coisas os amigos fazem juntos?”. Encontre uma atividade que pareça interessar a dupla e ajude-a a se envolver. Quando estiverem envolvidos em brincadeiras adequadas, você pode se afastar, mas observar de longe.

Como lidar com os pais

• Faça uma reunião de pais sobre a questão do abuso infantil (incluindo abuso sexual infantil) como parte dos eventos educativos rotineiros para os pais. Disponibilize panfletos e telefones de atendimento e inclua informações sobre abuso infantil e abuso sexual ocasionalmente em seus boletins. Mostre para os pais que você está atento à questão.

• Seja honesto com os pais. Se houver uma alegação de abuso sexual infantil por um funcionário, seja claro com os pais. Forneça apenas fatos e informações pertinentes relacionados com seu filho, e não especule ou comente suas intuições. Instrua os funcionários a não fofocar. Uma reunião de pais com um especialista sobre a questão do abuso infantil pode esclarecer muita confusão e dar-lhes informações importantes.

• A negação dos pais é uma tendência forte nas famílias em que o abuso sexual esteja acontecendo. Em nosso exemplo, a mãe foi incapaz de reconhecer e aceitar a realidade da situação. Em outros casos, o cônjuge pode estar ciente da situação, mas ser incapaz ou não estar disposto a aceitá-la e a lidar com ela.

• Muitos agressores sexuais também foram vítimas de abuso.

• Trabalhe intimamente com outros profissionais com diretrizes sobre como interagir de maneira efetiva com as famílias no meio desse trauma.

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MILLER, Karen. Educação infantil: como lidar com
situações difíceis. [tradução Ronaldo Cataldo Costa].
Porto Alegre: Artmed, 2008.

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