Edição 52

Professor Construir

África…mundo de mistério e encantos

Mundo de mistério e encantos

No seio da África, há mistérios e raridades aos quais a ciência se curva, pois seus poderes se esvaecem ante desafios e enigmas, como a origem do próprio nome, que gerou questionamentos, especulações e suposições. Tudo que se sabe é que África originou-se da palavra grega aprica, que, traduzida para o português, significa exposta ao sol. Chegar à sua origem na busca de referências é se atirar num abismo sem fim. Muitos sequiosos buscaram orientação para decifrar seus mistérios até no Grande Livro, através da inspiração dos profetas, e fracassaram. O que se tem são simplesmente pontos de vista de estudiosos crentes de que foi no território africano que surgiu a espécie humana. Essa “quase certeza” deu ao continente o título de Ventre da Humanidade.

Fazer um tour por esse universo intrincado e peculiar instiga geólogos à caça da chave dos segredos desse continente. São tantas dúvidas que não se sabe ao certo qual o primeiro estado constituído. Alguns historiógrafos que ousaram mergulhar mais fundo supõem que seja o Egito, a terra do Salvador, em mais ou menos 4 mil anos antes do Seu nascimento. O fato tornou-se verdade, pois, até então, ninguém ousou dizer o contrário.

O visto para desembarcar nesse mundo exige sensibilidade, tato… Percepção para identificar, entre os sons dos tambores, a mensagem dos deuses; no ritmo do axé, a essência do sentimento, das manifestações proclamadas em forma de canção; no gingado da capoeira, cuja coreografia delineia os sonhos, a cultura; nos domínios do candomblé, a fonte de poder onde a fé se fortalece… Nos segredos dos orixás, um
desafio para abrir caminhos.

Ante a incógnita, estudos e pesquisas submergem perante

o poder dos mitos, das crenças, dos segmentos religiosos… Arcanos indecifráveis que provocam colisões entre as adversas etnias, cujas identidades e tradições giram em torno das doutrinas, muitas curiosas, que impelem seus seguidores ao fatalismo.
Para esses fanáticos, a vida é simplesmente um sopro atrelado às rédeas do destino, conduzida por um deus germinado de uma lenda que estabelece o sacrifício como garantia de vida eterna. E, em nome dela, permitem ser influenciados por ritos, acreditando no poder da própria dor como cumprimento da trajetória.

A rendição é tamanha que muitos chegam ao flagelo, conscientes de que tais situações são uma passagem obrigatória para se chegar à glória. E, arrebatados por essa fé intransponível, aceitam ser escravizados, agredidos e humilhados sem o mínimo de resistência.

No entanto, evitar conflitos num mundo de acordos bilaterais, onde alternativas se chocam com princípios religiosos, políticos e tribais, é desafio sem precedentes, pois a violência física, “firmada” através do “Acordo de Paz Nacional”, não conseguiu conter a fúria de grupos, devido à intolerância política e religiosa, que impediu a reconciliação. Os grupos estão em constante pé de guerra, dispostos a chegarem
a duas alternativas: massacrem-nos ou serão massacrados.

Contudo, a África não é exclusivamente um estuário dos deuses, dos mistérios, a essência da cultura dos povos, da arte e da beleza natural… A África é o ventre, a pátria da própria humanidade… E, assim como a estrela do Oriente pairou sobre o continente prenunciando a chegada do Salvador, o brilho de um novo tempo marcará um espetáculo que paralisará o mundo para apreciar um momento sublime.

É Copa do Mundo…

Essa contemplação exibirá uma África que o planeta não teve a oportunidade de conhecer. Na magia desse instante, a página de um continente marcado pela dor, pela desigualdade social, onde a fome e a miséria tornaram-se o seu cartão-postal, será virada para narrar um novo capítulo da sua história. A história de um povo que sonha, luta e supera os limites do próprio destino para honrar um país de tantos contrastes. Magia essa que se tornou um universo em constante estado de transformação.

As transições sociais, políticas, religiosas e econômicas provocam conflitos intermináveis, mas não alteram o teor da sua essência: um continente de encantos fatais. Encantos que impressionam à primeira vista, deslumbram no segundo olhar, pois a sua fantástica geografia, ornada pela cadeia montanhosa Drakensberg, influencia diretamente nas variações climáticas graças às correntes oceânicas, oferecendo
ao visitante a opção de sentir o acolhimento do clima temperado, os desafios do clima desértico e, para aqueles que preferem não ser surpreendidos, os fascínios do clima tropical.

E, mesmo com os altos índices de violência, seduz como uma deusa grega e tem diversão para todos os gostos: safári para os amantes da natureza, pois sua fauna e flora são um estuário de uma paisagem única, hábitat de aves exóticas, de cores exuberantes, de comportamentos curiosos; espécies de mamíferos que impressionam. Apreciar é insignificante, é preciso se aventurar a chegar mais próximo, registrar
o movimento de cada exemplar que cruza o caminho:
do minúsculo ao gigantesco, do inócuo ao predador. Para os amantes dos esportes radicais, é só aportar em Durban e navegar nas ondas de Marine Parede, no Oceano Índico, perfeitas para a prática do surfe; quem quiser mais tem alternativas como mergulho, ciclismo de montanha, escalada, rafting de rio, rapel… E nem os acomodados, que não abrem mão do conforto ou preferem um tour cultural, precisam ir longe, pois encontrarão tudo isso em Johannesburgo, no distrito homônimo, através das suas centenas de lojas, bons
hotéis e ótimos restaurantes. Alguns quilômetros adiante, no grande Subúrbio Negro, formado no período do apartheid, podem visitar o museu com um vasto acervo de documentos que marcaram os tempos dourados de uma
E, como palco desse espetáculo que atrai a atenção do universo, a Estrela do Oriente voltará a brilhar, para torná-lo único, e a primeira competição da década será mais um capítulo que ficará marcado na história da humanidade.

Quando o magnífico “astro” bola entrar na órbita do “planeta” futebol, provocará frissons, descompassará corações… Arrancará gritos, aplausos e impelirá dezenas a persegui-la incansavelmente, como a caça a um tesouro, para que o grito “gol”, extravasado num coro ensurdecedor, numa gigantesca explosão de felicidade, ecoe pelos quatro cantos do país. Do mundo.

Gritos que muitas vezes serão asfixiados por lágrimas, soluços, pois a bola é como a vida: frágil, traiçoeira e repleta de surpresas. Retém o poder de proporcionar alegria, felicidade para uns. Dor, perda e consternação para outros.

Mas será um episódio que encantará os povos…

O eixo da Terra travará subitamente. O planeta puxará o freio de mão e se deterá para apreciar o momento nobre do universo futebol… E ela será o astro maior… O foco de todos os olhares, de todas as lentes, de todos os flashes… Esse espetáculo ganhará uma dimensão tão surpreendente que despertará o civismo… Aproximará pessoas, pátrias… Todas as torcidas se fundirão, todos os corações se envolverão para pulsarem no mesmo ritmo, impelidos pelo mesmo sentimento: o amor irreprimível pelo futebol.

Na Copa de 2010, a bola vai rolar sob uma magia ainda maior, pois as grandezas do espetáculo terão os efeitos de um país mágico, onde nem mesmo a dor das tragédias, dos problemas sociais e políticos impedirá que os sul-africanos mostrem encantos, exultações, cores, danças, cânticos e rituais que enfeitiçarão milhões.

Pela primeira vez, desde que a competição foi criada pelo francês Jules Rimet, em 1928, o evento acontece no continente africano, no ponto em que, segundo a história da evolução humana, há milhões de anos, o homem tornou-se bípede. O bipedalismo lhe permitiu correr atrás dessa aspiração fantástica denominada bola e fazer chutes magníficos que arrancam brados mundo afora… O futebol devia esse presente ao continente africano, onde certamente aconteceu o primeiro chute.

Essa Copa não será um show à parte que deixará multidões apaixonadas. Será um momento harmonioso que poderá acontecer entre as raças e provocará o desenvolvimento econômico e social. Apesar de sabermos que inúmeros problemas surgirão, principalmente com transporte — mesmo com as obras de modernização do aeroporto de Johannesburgo, a inauguração do metrô — e devido à criminalidade, pois a onda de estupros e homicídios pode manter os turistas apreensivos. A insegurança levou o País a assumir a mais alta taxa de criminalidade do mundo.

Mas, em plena véspera, a tensão no País aumenta pela espera da abertura. Pois o que era questionamento, hesitações, críticas e agouros transforma-se em ansiedade. O desafio para superar as esperas não tem dimensão, porque a responsabilidade de fazer bonito é tão grande quanto a esperança dos sul-africanos de chegarem, pelo menos, às quartas de final.

O sonho dessa conquista instituiu um clima de expectativa, de euforia, uma probabilidade de negócios e oportunidades, pois todas as atividades do país entrarão em operação: hotéis, restaurantes, arte, cultura, diversão e, principalmente, o turismo, responsável por 8% de toda a economia sul-africana.
E, o mais importante, o clima da Copa poderá ter a temperatura exata para quebrar o gelo, aquecer os corações das tribos rivais para promover a reconciliação entre os grupos, dando fim às divergências de um povo apaixonado por futebol, mas apartado por barreiras históricas.
Esse instante poderá proporcionar momentos inusitados, pois todas as raças e credos terão a oportunidade de romper tabus, dissolver rixas em nome daquele que mudará a história do País: o futebol. Se essa maravilha sobrevir, realizar-se-á o grande sonho de Mandela, que era o fim das disputas raciais.

Apesar dos problemas, a alegria, a esperança dos sul-africanos contagiam o mundo, e a abertura das competições virá repleta de fascínios, a começar pela estrela “Jabulani” — a bola —, que mostrará o colorido do continente e a diversidade cultural da África do Sul, onde as cores das onze províncias do país serão exaltadas no maior espetáculo da Terra.

Mas a África é um sonho que não pode morrer…

Esse glamour não pode durar somente o período dos jogos. A África é vida que depende de cuidados, de respeito, do mínimo de dignidade, visto que a vida não pode ser estagnada ao final de um evento. O mundo tem que admitir que a África é o berço das culturas, o celeiro que guarda os maiores mistérios da humanidade. Mistérios que os milênios não conseguiram desvendar. Muitos continuarão preservados até o dia do Juízo, porque a África não é um quebra-cabeça que deve ser montado numa disputa… A África é um universo de vidas. Por isso, não pode ser amada apenas na tempo rada de Copa do Mundo. Pois Copa do Mundo é um evento do calendário do futebol, mas a vida é um frágil fio atado ao inexistente, que exige sustentabilidade. Sem esse mínimo, vagará sem propósitos, sem direção; desfalece, se arrebenta e retorna ao pó sem experimentar o verdadeiro sentido de viver… Os olhares do mundo que tanto explorou esse continente levando o seu ouro, os seus diamantes, reduzindo suas riquezas naturais em reservas… Esse mundo insano que atropelou direitos de liberdade, de ser… de existir, ao escravizar o seu povo para edificar a própria bonança, o deixou na miséria, e tudo que a África herdou foi o título de uma das mais altas taxas de pobreza do planeta.

Os encantos desse paraíso estão se apagando pelo descaso de um mundo cada vez mais eletrônico, que não encontra o dispositivo para acionar o sinal de alerta de que a África é um universo que pede socorro, pois sua vida está ameaça- da e requer cuidados, atenções especiais, respeito, não por seus encantos, mas pelos seus valores, que enriqueceram a cultura de todos os povos.
Especificamente, a África do Sul não pode se tornar uma passarela de turistas que deixam alguns dólares, elogios e partem levando imagens e momentos inesquecíveis; o palco de uma festa, simplesmente por ser a sede da Copa do Mundo, em que sua cultura, seus valores, princípios e ritos serão ressaltados mundo afora. A África é a própria essência da vida, que se evapora ante os olhos daqueles que se enfraquecem na mesma proporção, por ser uma parcela deletada da humanidade e que se tornou dependente da própria humanidade.

Por outro lado, sanar problemas de um país que paira sobre as cinzas de um vulcão em constante estado de erupção é um desafio. Muitos problemas não se resolvem, porque a África ficou dependente das ajudas internacionais e muitos cruzam os braços e vegetam à espera de doações. Alguns doadores chegaram a interromper os benefícios para que a África saia da dependência.

Mas os problemas são tantos que os conflitos são contratempos do cotidiano ante a proliferação de pidemias como a Aids, o adensamento da miséria, que influencia diretamente no isolamento do país, apesar de uma relativa estabilidade econômica que impulsionou o desenvolvimento, colocando a nação como o quinto PIB do continente africano. Mas a subversão etnorreligiosa está sendo um dos maiores obstáculos para se promover o equilíbrio.

Essas divisões são estopins sempre aquecidos, prontos para explodirem em confrontações, que impedem os nativos de se voltarem para as fontes, explorar o potencial do país e promover o tão sonhado desenvolvimento econômico.

Essa guerra de ideologias, segmentos religiosos, políticos e étnicos é tamanha que pensamentos colidem, as vozes dos deuses ecoam em todos os cantos, asfixiando as da razão, provocando o desequilíbrio dos grupos.

Nesse cenário, costumes, hábitos, valores e regras sociais são mais importantes do que o próprio direito de viver, e, por onde se olha, as classes prevalecem, pois há cultos animistas, rituais do islamismo, do cristianismo e do hinduísmo, além das línguas, que dificultam o entendimento, pois a alta diversidade de línguas, os dialetos do tronco africano e do tronco camito-semítico, isola grupos e afasta as soluções.

A situação chegou num estágio tão avançado que ninguém gosta de ninguém. Ninguém acredita em nada além das crenças e dos propósitos que defende.

Como não fala a mesma língua nem comunga os mesmos propósitos e ideais, o próprio povo atira a nação num abismo onde a fome, a subnutrição crônica absorvem multidões, facilitando o alastramento de epidemias que instigou o continente a morder uma fatia de 71% dos portadores do vírus HIV do planeta. Sem direção, muitos responsabilizam tamanha miséria ao regime segregacionista do apartheid, que, no dialeto africano, significa vidas separadas. Criado para ser um simples exemplo de igualdade, fraternidade e tolerância, teve o efeito adverso, pois as humilhações e discriminações explodiram no íntimo de cada atingido em forma de ódio incontrolável, despertando um ardente desejo de vingança, em que atacantes e atacados chegaram à selvageria, colocando o país num intenso clima de terror.

As arbitrariedades foram tamanhas que se converteram em um dos mais tirânicos regimes que a África do Sul tem na memória, pois negava aos compatriotas negros direitos sociais, econômicos e políticos. Nas décadas em que perdurou, os colonizadores europeus excluíram os negros dos Direitos Humanos.

Os bantustões — bairros só para negros — tornaram-se um palco onde cenas de agonia, de consternação, de desesperança eram apresentadas a cada segundo… Ergueram-se barreiras intransponíveis entre negros e brancos e, até hoje, salientam-se feridas que ainda sangram pelos crimes sem punições, pelas perdas materiais que até então não foram recompensadas. Mesmo a deificação eleitoral de Nelson Mandela, que promoveu mudanças importantíssimas, não foi suficiente para que o país se arredasse de uma herança amaldiçoada.

Tamanha instabilidade colocou o país entre dois homeomorfos: uma minoria no Primeiro Mundo e o restante no terceiro, vivendo em total miséria, na qual cada cidadão sobrevive como sabe, se acomoda como pode, pois os Direitos Humanos ainda são um vento que sopra em direção oposta, e a ausência desse ar asfixia vidas que simplesmente se prostram com as mãos estendidas à espera de uma doação.

Para amenizar a crise e promover o desenvolvimento sustentável, é imprescindível sanar problemas emergentes, como a fome e o controle das epidemias. Quem tem fome tem pressa, e quem está enfermo só reflete em situações acerca da própria cura. Conforme sentencia Edward Schwarzs, da fundação suíça Holcim: “Não haverá construção sustentável enquanto não houver uma sociedade sustentável”.

Mas é impossível falar de África e não falar da Comunidade Quilombola de Helvécia, situada no extremo sul do Estado da Bahia, no município de Viçosa. Por ter sido a primeira colônia alemã-suíça do Brasil, cujo número de escravos para manter as lavouras de café na época da colonização era superior à sua população atual, Helvécia é tão africana quanto seus habitantes, que foram mesclados para se tornar únicos entre os povos e admirados pelo gingado, pela garra, pela resistência, pelo acolhimento caloroso… pelos tons, pelas cores… E a alegria pela vida.

Nessa extensão africana em pleno território brasileiro, as “vozes da África” ecoam ensurdecedoras através da culinária peculiar, dos seus artesanatos, do calor humano que aquece quem a visita… Das manifestações culturais como maculelê, bate-barriga, bate-barriguinha, samba de viola, mouros e cristãos, capoeira, o desfile Show Afro, no qual a beleza negra exala a sua essência, como no espetáculo O Auto de São Benedito, dirigido pelo internacional Ciro Barcelos e cujo elenco é composto exclusivamente pelos moradores
do distrito, que revelaram um talento nato para o teatro, a dança e a música e que apresentam, em pouco
mais de uma hora, a cultura, as crenças, as tradições e as magias da África.

O espetáculo que transcorre sob o som dos tambores é conduzido pela banda Kebraí, formada por meninos que batiam latas em um terreno baldio, impelidos pela esperança de um dia as suas vozes serem ouvidas por outros povos. O sucesso foi tamanho que rompeu as barreiras do distrito e ganhou proporção nacional.

Essas manifestações chegam à culminância na centenária festa de São Sebastião, que acontece na última semana do mês de janeiro e atrai turistas de todo o país, e nem mesmo o tempo conseguiu dissolvê-las, pois mais de 95% dos seus moradores ainda são afrodescendentes que ostentam, orgulhosos, através das gerações, a cultura e a tradição por meio de projetos e oficinas em parceria com empresas privadas e a Prefeitura Municipal. E é impossível falar da Comunidade de Helvécia e não se lembrar de uma personagem que se tornou o ícone da cultura afro no extremo sul da Bahia. Essa cidadã é chamada carinhosamente, na comunidade, de Tidinha Santos. Uma afrodescendente que não desistiu em consequência dos desafios, resguardou esforços, renúncias para que esse pedaço da África, cravado no coração da Bahia, não perdesse a identidade. Afinal, a cultura de um povo é o seu maior patrimônio. Preservá-la é resguardar a vida, resgatar a história, perpetuar valores, valorizar costumes para ostentar tradições… É permitir que as novas gerações não rompam o elo com as suas raízes.

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