Edição 89

Como mãe, como educadora, como cidadã

Água viva ou cisternas defeituosas?

Zeneide Silva
Ilustração: Carlos Varejão

Na noite de São João, meus filhos convidaram alguns amigos para passarem a noite em uma de minhas casas, no município de Gravatá, interior de Pernambuco. Eram quinze jovens no total — que já não eram mais adolescentes — cheios de saúde e vigor. Via-se VIDA neles, eram só alegria.

Em um dos momentos da festa fui à cozinha para ver se estava tudo em ordem, como uma boa dona de casa. Encontrei-a em pura desordem! Um verdadeiro furacão havia passado por ali: copos espalhados; pia cheia de pratos — vale salientar que não jogavam nem o resto de comida do prato no lixo; cadeiras fora do lugar; lâmpadas acesas e uma infinidade de panelas abertas. Fiquei parada por alguns instantes refletindo sobre eles e pensando por onde começar…

Aqueles jovens, na maioria universitários e esclarecidos, não tiveram a iniciativa de propor uma limpeza coletiva na casa onde estavam. Acredito que, na cabeça de alguns deles existia a afirmação: “Se o fulano não faz, por que eu vou fazer?”.

Penso que isso aconteça na maioria das famílias; cada filho jogando para o outro a iniciativa que poderia partir dele mesmo.

Esses mesmos jovens (incluo os meus filhos) apresentam um discurso político, ético e moral, são cheios de planos e sonhos e acreditam que mudarão o seu país. Vivem em um mundo de muito discurso e pouca ação.

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Lembrei-me da história do beija-flor e o incêndio na floresta: enquanto a floresta pegava fogo e todos os animais fugiam para salvar a própria pele, o pequeno beija-flor voava até a fonte de água e, com o seu bico, carregava água para deter o grande incêndio. Questionado pelos outros animais sobre o porquê de fazer algo que parecia inútil, ele respondeu: “Estou fazendo minha parte”.

Se os nossos jovens não conseguem sequer organizar uma bagunça construída por eles mesmos, como construirão um Brasil melhor? Pensando sobre isso, me veio à mente todo o momento turbulento que não só o Brasil tem passado, mas o mundo. Homicídios em grande escala, muros sendo construídos para barrar a entrada de imigrantes, mãos estendidas pedindo socorro… Mas TODOS fechados em seu mundo do “Não é a minha obrigação”.

Como querer um país melhor se vivemos com a máscara da mentira, agimos com prepotência, arrogância, indiferentes à dor do outro? Sentimo-nos “espertos” quando na verdade mostramo-nos aproveitadores ao resolver os “abacaxis” com o famoso jeitinho brasileiro, furando fila e pagando propina, por exemplo.

Mesmo com toda essa consciência, ainda há algo em mim que não me deixa perder a esperança. Acredito que podemos mudar desde que queiramos beber de uma água diferente, a água viva da honestidade, da ética, da humildade, e não da cisterna defeituosa, furada e vazia. Esta não retém água.

Falamos muito de ética, mas a nossa prática, na maioria das vezes, é uma atitude antiética quando:

• Usufruímos da pirataria.
• Colocamos macacos na rede elétrica de nossas casas.
• Indicamos aos amigos como burlar as leis de trânsito informando onde se encontra a blitz da Lei Seca.
• Subornamos os guardas de trânsito.
• Usamos de falsidade ideológica, utilizando cartões de crédito e vales de passagem.
• Raqueamos o wi-fi do vizinho.

O nosso dia a dia reflete como precisamos melhorar e evoluir como cidadãos e como humanos. É necessário que, primeiramente, arrumemos a bagunça de nossa cozinha e tenhamos atitudes como a do beija-flor para então podermos sonhar com um país melhor.

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