Edição 87

Reunião de Pais e Mestres

Ah! Se Eu Tivesse Asas!

Nildo Lage
Matheus Lage
Ilustrações: Carlos Varejão

imagem_9Vagareza, um simpático jabutipiranga, era simplesmente uma graça. Até mesmo a mal-humorada preguiça, que passava o tempo todo reclamando da própria sorte, chamava-o de meu príncipe e, entre uma crise e outra de moleza, compartilhava alguns frutos de embaúba com o amigo, tão somente para desfrutar da sua agradável companhia para aquela conversa de final de tarde para colocar o papo em dia.

Contudo, Vagareza não parava, vagava de um lado para outro na maior tranquilidade, com o mínimo de pressa, pois o Recanto das Águas, uma generosa floresta, não deixava faltar água e comida para nenhuma das espécies.

Porém, naquele final de tarde de verão, Vagareza não entendeu nada. Estava dormindo confortavelmente, quando um incêndio provocado por um grupo de caçadores abrasou a floresta.

Corre-corre… Voa-voa… Grita-grita… Cada um se virava para salvar a própria vida… Foi salvo pelo gongo, ou melhor, pela distância, pois, quando decidiu fazer a última refeição do dia, a tarde se inclinava para os braços da noite. Devorou o máximo que conseguiu do banquete deixado pelos pássaros, fez uma leve sobremesa de folhas suculentas, bebeu água e, como não tinha agilidade para chegar em casa antes do anoitecer, decidiu pernoitar na encosta de um riacho para não ser atropelado ou devorado por algum animal faminto de hábitos noturnos.

Essa decisão foi a sua salvação, pois, num piscar de olhos, chamas brotavam da terra numa rapidez tão impressionante — avançavam rapidamente atiçadas pelo vento e devoravam árvores, arbustos, touceiras de capim — que mal teve tempo de retrair pernas, braços, cabeça e rolar ladeira abaixo até desabar no leito.

Ao amanhecer, escalou o barranco e se confrontou com um cenário desolador. Correu os olhos. Deparou-se com a devastação. Desespero, dor, angústia… invadiram o coração, pois tudo à sua volta estava carbonizado: troncos caídos convertidos em cinzas, nenhuma folha de capim verde, muito menos um fruto para comer.

Aguçou os sentidos à procura do ruído de algum bicho nas redondezas para pedir socorro. Silêncio.

Por ser uma espécie que tem como ponto fraco a dificuldade para encontrar alimentos devido à lentidão na locomoção, sentiu medo, pois a fome aumentava mais e mais a ponto de deixá-lo em pânico.

Num ritmo ainda mais lento do que o de costume, encaminhou-se às margens do riacho, por vislumbrar uma faixa que ainda permanecia verde.

Avançando cabisbaixo, imaginava o que fazer para encontrar comida, já que até as herbáceas que cresciam às margens do rio estavam murchas, pois as chamas foram tão intensas que o calor as alcançaram.

De repente, deteve-se em ouvir movimentos e pios de pássaros. Voltou o olhar com a sua tradicional vagarosidade e descobriu um bananal. Abriu e fechou os olhos repetidas vezes, tocou o casco numa pedra para se assegurar de que estava acordado, e não tendo uma miragem. Era real… Elevou a cabeça e apreciou as bananas. Eram dezenas, centenas, milhares gradadas em grandes cachos maduros que lhe enchiam os olhos. O desenvolvido olfato capturou a deliciosa fragrância que agitou o estômago torturado pela fome.
Não soube quanto tempo ficou naquela posição, estatelado, mastigando a própria saliva, até experimentar o pescoço doer de tanto apreciar os pássaros e primatas fazerem a festa. Como os outros animais comiam apenas o que caía, a sua vagarosidade o impedia de chegar a tempo de agarrar uma banana.

Olhava, olhava, sentia o aroma, experimentava o sabor inundar a boca e sentia a fome alargar, torturar o estômago.

Aumentou a pressão nas mastigadas, sentindo a maciez, o doce, o sabor das bananas:

— Ai! — libertou um grito ao morder a própria língua devaneando que fosse um pedaço de banana.

Conteve a respiração para reprimir a dor… Não tinha jeito, o olfato era um radar que direcionava os seus olhos para o bananal e o prendia nos cachos.

Num ato de desesperação, recolheu o pescoço: “O que os olhos não veem, a barriga não pede!”, falou em pensamento, travando uma guerra contra si mesmo para resistir à fome que ameaçava vencê-lo. Não conseguiu. A fome era maior do que a própria vontade de viver. Elevou a cabeça. Lá estavam elas: amarelinhas e, com certeza, nutritivas, doces como o mel.

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— Ah! Se eu tivesse asas!!! — devaneou.

O gavião, que apreciava o martírio do jabuti, condoeu-se com o seu desespero e resolveu ajudá-lo.

— Quer ir lá em cima devorar uma penca daquelas bananas?
— Ah! Se eu tivesse asas!!! — falou transtornado o jabuti, voltando a mastigar a saliva como se tivesse triturando uma suculenta banana.
— Posso levá-lo! — o gavião pousou num tronco diante de Vagareza, que começou a tremer de medo, imaginando que se transformaria em almoço da ave.
— Não! — entrou em pânico.
— Calma, amigo! — o gavião sorriu, cortês — Não vou devorá-lo! — e, num tom de confidência, completou: — Acabei de apanhar uma pomba distraída!

A tartaruga, mesmo seguindo o ritmo da sua vagareza, agiu pelo instinto e tomou uma decisão.

— Aceito! — e em pensamento: “Se ele não me comer, morro de fome; se me devorar, morrerei mais rápido e sofrerei menos… Todavia… Se ele não estiver mentindo? Ficarei saciado e viverei mais algumas horas!”.
— Vamos? — convidou a ave.

Ao captar a insegurança do amigo quelônio, Tito, o gavião, pairou e, com as suas afiadas garras, o pegou pelo casco e voou até um cacho de banana maduro e permaneceu planando até o amigo se saciar.
Em seguida, levou-o ao riacho para que bebesse água.
Ao perceber que Vagareza havia se deslumbrado por ter voado, Tito perguntou:

— Quer voar mais alto?
— Claro! — a resposta foi instantânea e em pensamento: “Se eu morrer, morro voando e de barriga cheia!”.

O gavião voltou a levantar voo, seguindo pelo leito do riacho, elevando-se lentamente à medida que avançava até ultrapassar as copas das árvores mais altas.

Os olhos de Vagareza se esbugalharam ao vislumbrar um universo verde gigantesco e, mesmo apurando a vista, não conseguiu observar onde começava e terminava a floresta.

À medida que prosseguia, o gavião elevava a altitude, e Vagareza contemplou rios gigantescos, verdadeiros oceanos, cachoeiras, riachos, lagos, bananais e árvores frondosas, carregadas de frutos.

Naquele momento mágico, certificou-se de que o incêndio só havia devastado a região em que circundava a sua casa e, ao tomar ciência da extensão da floresta, avaliou a dimensão do erro de ter explorado apenas o seu mundo, pois sempre imaginou que a floresta fosse o território que rodeava a sua residência.

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A descoberta o conscientizou de que viver isolado no próprio universo é deixar de aprender algo novo a cada dia, e se arrependeu por ter perdido tanto tempo enclausurado no próprio mundo, tão somente por acreditar que o mundo fosse apenas o que existia à sua volta. E essa ausência de iniciativa — que o privou de momentos inesquecíveis, de ampliar a sua gama de conhecimentos — o entristeceu por não ter explorado outros mundos para usufruir das maravilhas que tinha à sua volta e que desconhecia.

Estava tão maravilhado que só caiu na real quando Tito o depositou no solo.

— Ah! Se eu tivesse asas!!! — devaneou, encantado, ao aterrissar diante da sua casa — Ah! Se eu tivesse asas!!!

Se, como educadores, não exercitamos as asas dos nossos alunos para que possam içar voos, não temos ideais como profissionais formadores de humanos nem propósitos para desatar os nós da Educação, pois fracassamos na missão de libertar os que estão sob nossa regência da gaiola “sala de aula”; e, sem ideais, jamais auxiliaremos os alunos no desenvolvimento de habilidades, tampouco de competências para edificarem os próprios sonhos. Aprender estabelece liberdade para errar, autonomia para apostar e errar de novo, responsabilidade para corrigir e atitude para recomeçar…

Educar requer iniciativas, respeito, referência que inspira, sutileza para tocar o ponto que estimula a curiosidade, aguça a vontade de ir além… Essas experiências são os nortes para conduzir seus alunos pelo caminho das conquistas, pois é nesse curso que se desenvolvem aptidões para traçar novos caminhos, fortalecem-se as estruturas para enfrentar novos desafios e, assim, estimulam-se os alunos a irem além dos próprios limites. Pois é nesse fluxo de erros, desaprendizagem e recomeços que a aprendizagem sobrevém.

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