Edição 73

Profissionalismo

Alfabetização e letramento: concepções, dimensões e uma reflexão sobre o ensino de língua materna e sua prática pedagógica em sala de aula

Ednaldo Gomes da Silva

folha_cadernoA leitura é um conjunto de habilidadesA palavra letramento pode ser considerada como recém-chegada ao léxico (vocabulário) da Educação e, consequentemente, também das ciências linguísticas. No Brasil, esse termo surge no discurso dos especialistas na segunda metade dos anos 1980. É uma palavra nova e, em nossa língua, surgiu com a autora Mary Kato, no ano de 1986, em seu livro No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, sendo, em seguida, usada em diversos livros, muitos de Educação. Categoricamente, esse vocábulo surge a partir da real necessidade para nomeação de uma nova perspectiva referente à prática social da escrita. É por esse viés que podemos afirmar que novas palavras são criadas quando emergem, surgem novos fatos, novas ideologias, novas ideias, novas maneiras de compreender os fenômenos. Se a palavra letramento, por sua vez, nos causa um pouco de estranheza, uma vez que não é muito antiga, outras do mesmo campo semântico sempre nos foram familiares demais, como analfabetismo, analfabeto, alfabetizar.

Durante muito tempo, a alfabetização foi entendida como uma simples encadeação dos fonemas, ou seja, como a aquisição de um modelo fundamentado na estrutura da relação entre fonemas e grafemas. Em uma sociedade formada em sua grande parte por pessoas analfabetas e marcada por reduzidas práticas de leitura e escrita, a simples consciência fonológica que permitia aos sujeitos associar sons e letras para produzir/interpretar palavras (ou frases curtas) dava a entender que era suficiente para diferenciar o alfabetizado do analfabeto. É assim que, em um ensino mais contextualizado, percebe-se que a simples decodificação simbólica de um texto não é suficiente convencionalmente para desenvolver as habilidades que requerem o letramento. Este envolve leitura, que, nesse caso, deve ser entendida com o sentido bem mais amplo, ou seja, uma leitura cognitiva que proporcione o entendimento do próprio contexto situacional de mundo nos mais variados segmentos.

A alfabetização e o letramento não são processos independentes, mas interdependentes e indissociáveis. A alfabetização desenvolve-se no contexto em que está inserida e por meio de práticas sociais e de escrita, isto é, através de atividades de letramento. Este, por sua vez, só pode se desenvolver no contexto e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema, isto é, em dependência da alfabetização.

Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco, porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita ocorre simultaneamente por dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita, a alfabetização; e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita, o letramento (SOARES, 2004).

A leitura é um conjunto de habilidades, de comportamentos e de conhecimentos. Escrever também é um conjunto de habilidades, de comportamentos e de conhecimentos que compõem o processo de produção do conhecimento. Indivíduo letrado é aquele que aprende a ler e a escrever e que passa a fazer uso da leitura e da escrita, a envolver-se em práticas sociais de leitura e de escrita, ou seja, que faz uso frequente e competente dessas atividades. A pessoa letrada passa a ter outra condição social e cultural, muda o seu modo de viver, sua inserção na cultura, e, consequentemente, passa a ter uma forma de pensar diferente. O desenvolvimento da competência de ler e escrever não se encerra quando o aprendiz lê e escreve textos dominando o sistema de escrita alfabética. Ele se prolonga nos anos escolares que se seguem, quando da participação em práticas sociais — que trazem domínios mais amplos de níveis de letramento, porque, fora da escola, há sempre desafios que exigirão do educando ampliar sua participação em eventos de leitura e escrita.

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Não basta apenas saber ler e escrever, ser alfabetizado. É preciso saber fazer uso do ler e do escrever, respondendo às exigências de leitura da sociedade. É preciso ter a prática da leitura, pois, para formar cidadãos atuantes e interacionistas, é preciso conhecer a importância da informação.

Portanto, letramento é o resultado da ação de ensinar e de aprender as práticas sociais de leitura e de escrita. É o estado ou a condição que adquire um grupo social, ou um indivíduo, como consequência de ter se apropriado da escrita e de suas práticas sociais. Apropriar-se da escrita é torná-la própria, ou seja, assumi-la como propriedade. Um indivíduo alfabetizado não é, necessariamente, um indivíduo letrado, pois ser letrado implica em usar socialmente a leitura e a escritura respondendo às demandas sociais.

Com a relação à língua escrita e à dimensão social das suas várias manifestações, Kleiman, apoiada nos estudos de Scribner e Cole, define o letramento como

[...] um conjunto de práticas sociais que usa a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos. As práticas específicas da escola, que forneciam o parâmetro de prática social segundo a qual o letramento era definido e segundo a qual os sujeitos eram classificados ao longo da dicotomia alfabetizada ou não alfabetizada, passam a ser, em função dessa definição, apenas um tipo de prática — de fato, dominante — que desenvolve alguns tipos de habilidades, mas não outros, e que determina uma forma de utilizar o conhecimento sobre a escrita (1995, p. 19).

A tarefa de fazer com que os alunos passem da condição de realizar suas leituras comuns, cotidianas, corriqueiras e obrigatórias para leituras de prestígio e de satisfação, consideradas uma experiência de liberdade, de felicidade e de encantamento, é um objetivo exposto nas práticas do letramento.

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Segundo informações do 5º Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, realizado pelo Instituto Paulo Montenegro, em 2005:

[...] a escola é a principal responsável pela inserção das pessoas na cultura letrada. Espera-se que a educação básica crie as condições para que todos os cidadãos possam participar, de forma autônoma, de uma sociedade em que quase tudo depende da capacidade de processar informação escrita: comunicar-se, informar-se, planejar, prestar contas, reivindicar, etc.

Nas escolas onde podem ser realizados, para muitos alunos, os primeiros contatos com a leitura e a escrita, é preciso possibilitar a implantação de programas educacionais voltados para o letramento, através, por exemplo, da integração entre professores e bibliotecários, promovendo ações que utilizem a biblioteca como forte influente na formação dos alunos enquanto leitores. O leitor competente, em síntese, é aquele que apresenta os seguintes comportamentos:

Sabe buscar textos de acordo com o seu horizonte de expectativas, segundo seus interesses e suas necessidades.

Adquire livros.

Conhece os locais onde os livros e materiais de leitura se encontram, seja em bibliotecas, livrarias, entre outros.

Frequenta espaços mediadores de leitura.

Orienta-se facilmente nas estantes, sendo independente na busca daquilo que lhe interessa.

Segue as orientações de leitura oferecidas pelo autor.

É capaz de dialogar com novos textos, posicionando-se criticamente diante deles.

Troca impressões e informações com outros leitores.

É receptivo a novos textos que não confirmem seu horizonte de expectativas.

Amplia seu horizonte de expectativas e sua visão de mundo a cada leitura. (AGUIAR, 1996).

Ednaldo Gomes da Silva é formado em Letras e especialista em Língua Portuguesa. É professor de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e Médio do Sistema Educacional Radar em Vitória de Santo Antão, professor da graduação (curso de Pedagogia) na Faculdade Escritor Osman Lins (Facol), professor da graduação (cursos de Pedagogia e Redes de Computadores) na Faculdade Joaquim Nabuco (Câmpus Recife) e professor tutor da graduação (curso de Letras) a distância da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), da Educação a Distância (EAD) e da Universidade Aberta do Brasil (UAB).

Endereço eletrônico: edygom@bol.com.br.

Referências

5° Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional: um Diagnóstico para a Inclusão social pela educação. São Paulo, 8 set. 2005. Disponível em: .

SOARES, Magda. Letramento: um Tema em Três Gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

KLEIMAN, A. B. (org.) Os Significados do Letramento: uma Nova Perspectiva sobre a Prática Social da Escrita. Campinas: Mercado das Letras, 1995.

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