Edição 06

Matérias Especiais

Algumas coisas que você deve saber sobre a criança

Você bem sabe que criança é curiosa naturalmente, surpreendente nas suas perguntas, na sua forma de angular as coisas, de descobrir algo insuspeito… Ah, ela sabe muito bem sabido que quem tem boca vai a Roma e nem precisa de ajuda especial pra sair fazendo perguntas… Devagarinho, sem pressa, vendo e assuntando, percebe que, de grão em grão a galinha enche o papo e que há muitos grãos por esta vida para ir saboreando e conferindo…

Claro, a cada momento você se depara com a criança crítica. No olhar, no jeito de acompanhar algo dito como verdade absoluta, na resposta não dada a cada pergunta feita, ela saca que a bom entendedor… meia palavra basta. E como basta! No deboche que faz duma situação, no comentário sobre um programa de TV ou uma atuação no futebol, quando vê o adulto perdendo a compostura porque não sabe o que dizer ou não tem honestidade para dizer que não sabe, ela vê bem claro que quem desdenha quer comprar…

Que criança é perspicaz, é só a gente estar atento para perceber… Aguda, vai fundo, se espanta com o que descobre e nos espanta como lida com isso. Para fazer novas alianças, aproximações, pactos, já viu que duro não faz muro… E que para medir ou compreender comportamentos adultos insólitos, contraditórios, é até fácil. Afinal, quando a esmola é muita, o santo desconfia. E ela, não? Ora…

A criança é responsável (ou pode ser, como qualquer adulto) na medida em que está envolvida com o problema (seja de informação escolar, de prova, de dever de casa, de grupo de escoteiros ou de teatro, etc). Se está interessada, se lhe diz respeito, se lhe inquieta, vai, e vai com tudo…. Senão, aprende logo que cria fama e deita na cama, isto é, faz um joguinho pra fazer de conta que nunca faltou na aula, faz perguntas pra aparecer… Imagine se ela acredita que bate-se no ferro enquanto está quente. Para quê?

Ela enfrenta o poder adulto como pode. Dependendo da situação, da circunstância, do momento, ela desmoraliza ou obedece…. Sabe fazer de conta que está entrando no jogo, que até concorda com todo aquele disparate e falta de controle… Afinal, ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão… Como pode ficar sentida, magoada ou simplesmente levantar os ombros e dar debochada. Que o hábito não faz o monge ela não só sabe, como perdoa ou encara tipo olho no olho… É conferir, pra saber quem está com a verdade…

Sabe também distinguir muito bem o que lhe interessa, o que lhe importa, naquele momento. Se estiver preocupada com uma determinada informação, algo que desconhece, e quer encontrar uma resposta, está inteirada de que a fome é a melhor cozinheira… Se quer enfrentar uma situação, uma pessoa, um conflito interno, uma possibilidade de andança também está inteirada de que o barato sai carro… Por tanto, é melhor ir com tudo, de cabeça (se não é tão importante assim, deixa pra lá…(Como qualquer um de nós).

Ah, ela pode ser agressiva, briguenta, perversa, aprontadeira… Não é nenhum ser idealizado, nenhum anjo de candura, já mexeu muito em planta para saber que não há rosa sem espinhos, já levou unhada de bicho e tapa de colegas e adultos.

Vê gente brigando o tempo todo, em todos os lugares, pra ter o direito de ficar chateada quando esquecem que quem tem telhado de vidro não atira
pedra no vizinho. Por que só ela não pode?

Como, também, é amorosa, carinhosa, afetiva, querendo afagos, atenção concentrada, declarações de amor constantes. Desde muito petitinha intui que isto de que é de pequeno que se torce o pepino, além de doloroso, tem se mostrado ineficaz… E que uma das piores formas de relacionamento entre as pessoas (de qualquer idade) e de qualquer tipo de interação: mãe/professora, etc.) é aquela que magoa muito com a excusa de que há males que vêm para bem..

Claro, criança também tem tristeza, tem melacolia, fica com lágrimas nos
olhos à toa (ou não à toa assim), sofre, porque dizer que ela é feliz só porque ainda não é adulta é uma mentira braba! Como é dizer que após a tempestade vem a bonança (nem sempre, nem sempre…), ou que longe da vista, longe do coração, como se as pessoas só sentissem ou chorasem quando estão pertinho de alguém que as machucou lá no fundo…

Ela tem seu sentimento de justiça e de injustiça bem afiada. Já levou bastante na cabeça pra saber que a corda arrebenta do lado mais fraco. E quem é mais fraco do que ela? Já foi traída, já foi acusada sem razão, já levou cascudo por conta de outros, já ficou bastante de castigo sem saber por quê… Mas, torce, espera que um dia o feitiço vire contra o feiticeiro, e que a justiça se faça, que ela seja ouvida, que tenha o direito de defesa… Nem é pedir tanto assim, não?

Nem precisa dizer (ou precisa?) que criança é inteligente, sabida, viva, sábia às vezes… Tem clareza, para ela, que não há pior cego do que aquele que não quer ver, e que, portanto, é melhor estar com os olhos abertíssimos, pra conhecer, saber, inteirar de tudo que lhe interessa. Como percebe, entre os adultos que estão perto dela, que na terra dos cegos quem tem um olho é rei, e que, portanto, quem manda, quem diz que sabe tudo, quem desmanda etc. Muitas vezes não passa de um caolho… Porque, quando está cercada de pessoas que não são miopes intelectuais ou afetivos, a relação é de outro tipo… Sim, criança é imaginativa, criativa, solta, espontânea, mágica, lúdica, inventiva, conforme se estimule ou se reprima para que seja ou não tudo isso… Afinal, se Deus escreve certo por linha tortas, por que querer tanto enquadrar, usar régua e caderno pautado (com tudo o que isso significa…) com a criança? Nem precisa se preocupar em melhorar a caligrafia dela… Importantre é que ela conte quem é, do jeito que é, da forma que está procurando crescer… E que você a ajude a ser! Sem pensar em clichês estagnados. Criança é dinâmica, e é na soltura mútua, cálida e verdadeira que o encontro dela com o adulto pode se realizar de modo inteiro e prazeroso pros dois. De pessoa para pessoa!

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