Edição 65

Lendo e aprendendo

Amado, imortal e centenário

Augusto França

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2012 é um ano marcado por várias datas especiais. No ano do centenário de nascimento de uma das mais fortes influências musicais do Brasil, Luiz Gonzaga, Jorge Amado, outro nordestino conhecido mundialmente, também comemoraria 100 anos de vida.

Nas primeiras décadas do século passado, em uma época de várias mudanças políticas e econômicas, a literatura brasileira fez surgir grandes nomes. Em tempos nos quais a liberdade de expressão é ofuscada pelo regime dos militares, a necessidade de expressar os sentimentos se tornara um desafio para os poetas da época. Jorge Amado é um marco nesse período da literatura brasileira.

Nascido em 10 de agosto de 1912, em uma fazenda no sul da Bahia, fora enviado pelos pais, ainda com 10 anos de idade, para estudar com os jesuítas no Colégio Antônio Vieira, mas não demonstrou afinidade com os estudos católicos, fugindo do colégio e atravessando o sertão baiano no ano de 1924.

Abrigado em Sergipe, na casa de seu avô paterno, tornou-se repórter policial ainda muito jovem, aos 15 anos de idade. Mais maduro e com mais conhecimento sobre o mundo, partira para o Rio de Janeiro, na década de 1930, quando foi iniciado o que os estudiosos da literatura brasileira chamam de O ciclo do cacau, primeira fase de sua obra. Nos livros O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934) e Jubiabá (1935), a característica de unir a sensualidade com os vários elementos que caracterizam fatores de desigualdade social no Brasil já é marcante no autor. Desprendendo-se da preocupação formal dos autores modernistas, o próprio Amado dizia que sua literatura era moderna, mas não modernista.

A forma marcante de criar histórias e personagens logo fez com que suas obras se popularizassem no País. Cacau, logo após ter vendido os 2 mil exemplares no primeiro mês que chegara às livrarias, também chegou à Argentina, traduzido para o espanhol e, mais tarde, para o russo, junto com Suor, em meados da década de 1930. Gabriela, Cravo e Canela, publicado vinte anos mais tarde, atingiu, em pouco mais de duas semanas de publicação, a marca de 20 mil livros comercializados, e hoje esse número passa dos 2 milhões, superado apenas – em vendas no Brasil – por Capitães da Areia, com 4,8 milhões de exemplares vendidos. A soma de exemplares de todas as obras do autor comercializadas em língua portuguesa já ultrapassa os 20,7 milhões.

Apesar de sua genialidade para criar enredos e personagens que conquistaram pessoas no mundo inteiro, Jorge Amado sempre se declarou publicamente “sem jeito” para falar de si próprio, ou até mesmo para ouvir falarem de si. Em uma entrevista concedida pelo escritor em junho de 1981, ano em que se comemorava o cinquentenário de O País do Carnaval, o grapiúna itabunense – como ele se declarava – falou sobre o que pensa em relação a falar de si mesmo:

[...] Tem gente que adora falar de si próprio, alguns porque não têm importância nenhuma e falam para se dar importância, e outros, que são importantes, falam porque gostam. Agora, eu não sou importante e não gosto de falar sobre mim; aliás, não gosto nem de ouvir falar a meu respeito: fico encabuladíssimo, fico assim sem jeito… eu não gosto, é uma maneira de ser.

Vivo recebendo convites para dar ou ouvir conferências sobre mim, e não… realmente, não é meu forte ouvir falar de mim. [...]

Quando não estou escrevendo, eu sou uma pessoa que vive a vida e gosta de vivê-la de uma forma muito ardente, eu me interesso por todas as coisas… mas, minha maneira de ser… enfim, eu sou escritor quando estou escrevendo.

Seus personagens, dizia Jorge Amado, são os autores de seus livros. “Quando é o autor que faz o romance, o romance não presta. Pelo menos no meu caso. Eu sou incapaz de contar uma história.” Talvez este seja o principal toque de Amado para dar tanta originalidade à obra construída. As pessoas, geralmente, gostam de ler coisas que as aproximem do personagem. Os amantes da leitura precisam encontrar em algum personagem uma característica comum entre eles, e Jorge Amado conseguiu criar condições para isso.

A influência das obras de Jorge Amado tomou proporções cada vez maiores. Seus personagens foram popularizados ainda mais com as adaptações feitas dos seus livros, pelas empresas de teledramaturgia. O filme Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto, até hoje ainda está entre as maiores bilheterias do cinema brasileiro, ultrapassando os 10 milhões de expectadores.

Jorge Amado descreve seus personagens de forma simples, aproximando-os com fidelidade do mundo real. A sensualidade das personagens mais conhecidas de sua obra, Gabriela, Tieta e Dona Flor, bem como a vida dura dos personagens de Capitães de Areia e Suor ajudaram o poeta a ter tanta aceitação e popularidade em sua obra. Alvo de muitas críticas, vindas, muitas vezes, de escritores e linguistas que não aceitavam seu estilo de escrever, Amado não se prendeu às normas de estética típicas do movimento modernista.

O escritor baiano também tem influência na música brasileira. Em suas parcerias com Dorival e Dori Caymmi, participou de composições como É Doce Morrer no Mar e Alegre Menina. Suas composições foram e ainda hoje são interpretadas por vários artistas da antiga e da nova geração, como Clara Nunes, Marisa Monte, Djavan, Lenine, entre outros.

Amado também se destacou na carreira política. Durante seu período como deputado federal, aos 34 anos, aprovou o artigo que consagra a liberdade religiosa no País, pondo fim às perseguições policiais aos cultos afro-brasileiros, o que foi muito importante.

O ano do centenário

Manifestações de homenagem ao baiano estão sendo feitas por todo o Brasil. Gabriela, Cravo e Canela mais uma vez ganha espaço na TV brasileira, com um remake formado por elenco de artistas jovens, mostrando como a obra ainda influencia pessoas de todas as gerações. Em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa deixa à mostra a exposição Jorge Amado é Universal: Um Olhar Inusitado sobre o Homem e a Obra. A exposição está dividida por módulos, nos quais pode ser feita uma viagem entre seus personagens, obras, vida política, depoimentos de familiares e, como não podia faltar, um espaço dedicado à malandragem e sensualidade, tão presentes nas obras de Amado.

A exposição está à disposição do público em São Paulo até o dia 22/07, seguindo, posteriormente, para o Museu de Arte Moderna da Bahia, onde ficará em cartaz no período de 10/8 a 14/10.

Augusto França é pedagogo, professor de Métodos e Técnicas de Ensino.
Endereço eletrônico: augusto_de_franca@hotmail.com

Jorge Amado e a linha do tempo

1912
Nasce, no sul da Bahia, Jorge Leal Amado de Faria.

1930
Transferiu-se para o Rio de Janeiro.

1931
Primeira publicação: O País do Carnaval.

1933
Lançou o livro Cacau.

1937
No período do golpe de Getúlio Vargas, foi preso, acusado de subversão. Mais de 6,5 mil exemplares de seis de suas obras foram queimados pelos militares.

1945
Torna-se deputado constituinte pelo PCB.

1948
Foi exilado na França.

1958
De volta ao Brasil, publica Gabriela, Cravo e Canela.

1961
É eleito imortal da Academia Brasileira de Letras.

1969
Publica Tenda dos Milagres, seu livro preferido.

1997
Lança seu último livro, O Milagre dos Pássaros.

2001
Morre em 6 de agosto, antes de completar 89 anos.

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