Edição 20

Pintando o 7

Anita Malfatti (1889–1964)

Por Paulo Victorio

Uma infância difícil
Estamos em Roma. Uma mulher, de meia idade, entra no consultório do hospital, levando ao colo sua filha de apenas três anos de idade, com o braço enfaixado e posto numa tipóia.

A mãe falava fluentemente o italiano, ainda que com um sotaque puxado para o inglês, e, de sua conversa com o médico, ficamos sabendo que a menina se submetera a uma operação, na tentativa de corrigir um defeito congênito que lhe limitava os movimentos do braço e da mão, no lado direito.

Como esta era a última consulta, pois mãe e filha regressariam, em seguida, ao Brasil, de onde vieram para a cirurgia, o médico achou melhor expor o caso com toda a franqueza. O braço da menina não adquiriu os movimentos naturais, como se esperava, e, assim, o caso era irreversível, pelo que achava conveniente que ela fosse treinada, desde logo, a valer-se da mão esquerda para todas as atividades.

Foi assim que a pequena Anita, destra por nascimento, tornou-se canhota pela necessidade, após intenso treinamento que a ajudou a superar as dificuldades dessa condição.
Uma adolescente atribulada
Anita Malfatti nasceu em São Paulo, em 2 de dezembro de 1889. Não tinha um berço de ouro, mas também não passava por dificuldades. Seu pai, o italiano Samuel Malfatti, era engenheiro. Sua mãe, dona Elisabete, de nacionalidade americana, era pintora, desenhista, falava vários idiomas e tinha uma sólida cultura, cuidando pessoalmente da educação da filha.

Bem estruturada, Anita não encontrou maiores dificuldades em passar pelo exame de seleção do Mackenzie College, onde fez a Escola Normal e se formou professora aos 19 anos.

Foi então que o destino lhe armou mais uma tragédia. Nem bem se formara e morre-lhe o pai, a quem tinha forte apego e que era o arrimo da família.

A partir de então, a mãe passou a dar aulas de idiomas e de pintura, enquanto, para complementar o orçamento doméstico, Anita começou também a trabalhar como professora.
Um socorro oportuno
O talento para a pintura revelado pela moça sensibilizou o tio e o padrinho. Juntos, embora com sacrifício, conseguiram reunir uma soma em dinheiro, patrocinando para ela uma viagem de estudos à Alemanha.

Em setembro de 1910, Anita chegou a Berlim com o período escolar em andamento, o que a impossibilitava de se inscrever numa escola regular, pelo que passou a tomar aulas particulares no ateliê de Fritz Burger. Já no início do ano seguinte, pôde matricular-se na Academia Real de Belas-artes.

O mundo para ela era aquilo, até que, visitando uma exposição da Sounderbund (grupo de pesquisa), tomou contato com a arte dos rebeldes, desligados do academicismo ensinado nas escolas. Fascinada, aproximou-se do grupo e passou a ter aulas, primeiro com Lovis Corinth e depois com Bischoff-Culm, aprendendo pintura livre e técnica de gravura em metal.
Nos Estados Unidos, a liberdade
Regressou ao Brasil em 1914, para, logo em seguida, viajar aos Estados Unidos, terra natal de sua mãe. Matriculou-se na Art Students League, uma associação desvinculada das academias e, sob a orientação de Homer Boss, teve a liberdade de pintar o que desejasse, com toda a força própria de criação, sem quaisquer limitações estéticas.

Foi esse período que marcou a fase mais brilhante de sua criação, no qual Anita pintou O homem amarelo, Mulher de cabelos verdes, O japonês e vários outros quadros.

Foi a consagração de sua arte, no meio de insignes mestres e diante de um público capaz de interpretar a beleza e as emoções contidas em suas obras.

Anita estava preparada para voltar ao Brasil. Será que o Brasil estava preparado para recebê-la?
A exposição de 1917
Em 1916, com 27 anos, a pintora estava de volta ao Brasil, adulta e madura, sentindo-se suficientemente segura para expor sua nova concepção de arte, voltada para o Expressionismo.

Fiando-se nos comentários favoráveis de amigos e, particularmente, do crítico Nestor Rangel Pestana, assim como nas palavras de incentivo de modernistas como Di Cavalcanti e outros, Anita não hesitou em alocar um espaço nas dependências do Mappin Stores, na Rua Líbero Badaró, onde, em 12 de dezembro de 1917, realizou uma única apresentação de seus trabalhos.

Ninguém, nem mesmo o mais experiente freqüentador do mercado de arte, poderia prever o tiroteio que seria disparado contra a jovem pintora, vindo, não das hostes inimigas, mas das trincheiras amigas, justamente das mãos de um renovador, o escritor Monteiro Lobato (1882–1948).
Não viu e não gostou

Lobato fora, desde o início de sua carreira, um pré-modernista. Irritado com os padrões oficiais de educação e cultura, desvinculou-se das normas padronizadas da literatura, criando um estilo livre, avançado, valorizando a cultura nacional e discutindo temas voltados internamente para os problemas brasileiros.

Ao contrário do que se imagina, Monteiro Lobato sequer foi à exposição de Anita Malfatti. Não viu nada e não gostou do que não viu.

Mas, em artigo virulento, publicado no jornal O Estado de São Paulo, depois de criticar as extravagâncias de “Picasso & Cia.”, o escritor assestou as baterias contra Anita, esperando que as balas ricocheteassem atingindo seu alvo principal, que eram os modernistas, companheiros da pintora.

Foi uma reação inesperada, que espantou até os que conheciam o destempero do escritor, e inexplicável, pois sua editora, havia pouco tempo, publicara um livro do modernista Oswald de Andrade, cuja capa fora desenhada justamente por Anita Malfatti.
Paranóia ou mistificação
Usando como título: Paranóia ou mistificação — a propósito da exposição Malfatti, Lobato ataca as “(….) escolas rebeldes, surgidas cá e lá, como furúnculos de cultura excessiva… produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência” e, depois, explica o título de sua catilinária:

“Embora se dêem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como paranóia e mistificação. (….)

De há muito que a estudam os psiquiatras, em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que, nos manicômios, essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura”.
Abalo e desorientação
Nem as palavras mais afáveis, ou menos agressivas, despejadas ao final do artigo nem os elogios ao seu talento, colocados no início, poderiam desfazer tamanho estrago sobre a personalidade tímida e irresoluta de Anita, que caiu em forte depressão, vivendo um período de desorientação total e de descrença, um sentimento que carregou pelo resto da vida.

Sua primeira reação foi o abandono total à arte. Depois, passado um ano, dando uma guinada de 180 graus, foi tomar aulas de natureza-morta com o mestre Pedro Alexandrino Borges (1856–1942), ocasião em que conheceu Tarsila do Amaral, início de uma longa e proveitosa amizade.

Tarsila foi para a Europa, e Anita passou a estudar com outro mestre conservador, Jorge Fischer Elpons (1865–1939), também especialista em naturezas-mortas.

Instada por amigos, participou da Semana de Arte Moderna, de 1922, e, no ano seguinte, com uma bolsa de estudos, viajou a Paris, onde se encontrou com Tarsila, Oswald, Brecheret e Di Cavalcanti. De lá, voltou com a confiança recuperada, mas disposta a não se atirar em novas aventuras.

Sua arte, a partir daí, virou uma salada russa, logo notada pelos críticos: “A Sra. Malfatti faz o viajante percorrer os séculos e os gêneros. É primitiva, clássica e moderna, avançada, faz retratos e naturezas-mortas”.
Um mundo alienado
A exposição de 1917 se deu em momento errado, no local errado e com a pessoa errada. As críticas de Lobato não se dirigiam a ela, mas aos modernistas, com quem o escritor tinha um ajuste de contas. Anita Malfatti se viu no meio do tiroteio e foi atingida mortalmente pelas balas perdidas.

Considerada por Pietro Maria Bardi como a maior pintora brasileira, ela jamais se recuperou do golpe sofrido. Como diria, mais tarde, Mário de Andrade: “Ela fraquejou; sua mão, indecisa, se perdeu”.

Já com idade madura, Anita mudou-se, com sua irmã Georgina, para uma chácara em Diadema (SP), onde morreu em 6 de novembro de 1964, alienada do mundo, cuidando do jardim e vivendo seus próprios devaneios.

Primeiro Período: Alemanha
1912 – O jardim
1912 – A floresta

Segundo Período: Estados Unidos
1915 – O farol (Manhegan)
1915 – A estudante russa
1915/1916 – O homem amarelo
1915/1916 – Nu masculino
1916 (circa) – Nu cubista
1916 – A boba
1916 –Torso

Terceiro Período: Da Exposição à Semana de Arte Moderna
1917 – Academia XI
1917 – Índia
1917 – Figura
1917 – A estudante

1917 –Tropical
1917 – Retrato de Lalive
1917 (circa) – Modelo
1917 (circa) – Paisagem espectral
1920 (circa) – Retrato de Tarsila
1922 – A ventania
1922 – Retrato de Mário de Andrade

Quarto Período: De Volta às Origens 
1924 – A japonesa
1925 (circa) – Porto Maggiori
1925 (circa) – Jarro com flores
1926 (circa) – Paisagem
1930 (década) – Vaso de flores
1940 (circa) – Vaso com rosas
1945 – Festa junina
1948 – Hortênsias
1948 – Paisagem em Ouro Preto

Paulo Victorino, 69 anos, teve o primeiro contato com o rádio em São Paulo (Capital), no final dos anos 40. Nos anos 50, trabalhou na imprensa regional, sobretudo na região do Grande ABC paulista. Em 1958, participou da reorganização da edição matutina do jornal Última Hora, de São Paulo. A partir de então, dedicou-se à tradução, revisão e formulação de textos e, hoje, é responsável pela manutenção de páginas didático-culturais na Internet, das quais a mais importante é Pitoresco — A Arte dos Grandes Mestres (www.pitoresco.com.br).

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