Edição 103

A fala do mestre...

Antigamente era melhor?

Lécio Cordeiro

No artigo passado, discutimos a noção de envolvimento e de comprometimento na nossa postura profissional, tanto na sala de aula como fora dela. Defendemos, entre outros pontos de vista, que há diferença importante entre estar envolvido e estar comprometido com algo. Nestes tempos de incerteza sobre a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o comprometimento dos professores é fundamental. De nada adianta, todos sabemos, decorar as habilidades lançadas na Base se nada for feito para colocá-las em prática. Os desafios são vários; muitos dizem respeito à incursão no universo digital. Se, por um lado, muitos alunos têm verdadeiro pavor de se desconectar (nomofobia); por outro, muitos de nós sequer nos conectamos. Esse descompasso é a base de um dos maiores desafios que teremos de enfrentar.

A esse respeito, há inúmeras contradições no texto da BNCC. Observamos, por exemplo, que há muita ênfase no universo digital nas habilidades de Língua Portuguesa do Fundamental 2. Já as habilidades de Ciências para o mesmo segmento sequer o tangenciam. Em um seminário promovido em julho de 2018 pela Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros), a professora Cristina Leite, do Instituto de Física da USP, membro da comissão do MEC que finalizou a redação da BNCC de Ciências, explicou que a equipe preferiu (deliberadamente) não contemplar o digital. A justificativa foi clara: como há muitas escolas e professores Brasil afora com dificuldades de acesso à Internet, habilidades que se voltem para ela poderiam ser excludentes. O mérito ou não desse posicionamento rende uma boa discussão, mas por ora importa dizer que essa ponderação não foi feita pelos especialistas de Língua Portuguesa que finalizaram a redação da Base. Ou seja, os consultores do MEC defendem, no próprio documento, que nós outros, meros professores, precisamos interconectar nossas disciplinas, mas eles mesmos são incapazes de dialogar.

A pergunta é: como ficam os alunos nesse fogo cruzado? Ficam bem, no seu mundo, inseridos em um ambiente com o qual convivem desde sempre: o virtual. A geração a que pertencem faz com que sejam naturalmente conectados. Nós, não. Cabem a nós, portanto, duas tarefas árduas: a primeira, inserirmo-nos nesse ambiente e, consequentemente, naturalizá-lo; a segunda (para mim, a mais difícil), saber utilizá-lo a favor das habilidades que precisamos desenvolver.

Estamos vivendo uma época em que, cada vez mais cedo, as crianças têm acesso à tecnologia, à Internet e, logicamente, a tudo o que elas oferecem, para o mal e para o bem. O problema é que temos uma tendência naturalmente pessimista de ampliar aspectos negativos da vida. Nessa perspectiva, incorremos normalmente em comparações inúteis entre épocas, enfatizando que, sob qualquer enfoque, antigamente tudo era melhor: a música, as brincadeiras, os livros, o trânsito, os desenhos animados, os filmes, as roupas. Ora, isso é inútil porque a criança não tem essa compreensão do tempo, ela jamais poderá validar nossos argumentos. Mais: esse saudosismo nega todas as benesses da atualidade. Eu diria que a quantidade de benefícios de que hoje desfrutamos no universo tecnológico é diretamente proporcional à nossa imersão nele. Quanto mais familiarizados com os recursos digitais, mais vantagens percebemos neles. Pensando no processo de ensino-aprendizagem, é evidente que tudo isso só será vantajoso se for devidamente refletido. O professor que deixar os alunos à deriva na Internet está simplesmente repetindo o papel de pais que entregam o smartphone às crianças para que fiquem quietas, não importa o momento nem o conteúdo que acessam. Ou seja, precisamos mobilizar nossos alunos por meio de habilidades. Devemos promover debates, orientar, fazer curadoria de informações, mostrar o que é correto ou incorreto. Se apenas ordenarmos aos alunos que pesquisem na Internet, eles copiam, colam, imprimem e entregam o primeiro link que encontrarem no Google. E nós teremos de ler aquilo, lamentando a incompetência dos alunos para pesquisar e pensando que antigamente os alunos pesquisavam melhor, quando copiavam os verbetes da Barsa.

Não é novidade, portanto, que os alunos de hoje têm o mundo na tela de um computador, de um smartphone. Mas isso não é tudo. Devemos ter bastante claro que essa geração sabe muito, mas sabe hipoteticamente. Muitos deles nunca utilizaram transporte público, nunca foram ao mercadinho comprar batata, nunca foram a uma feira livre, nunca viram uma galinha ou uma vaca ao vivo. Ou seja, eles não conhecem o mundo na prática, eles conhecem o mundo hipoteticamente. Por isso, não querem só conteúdo. Eles querem experienciar o mundo, querem ter voz e vez, um espaço para produzir e publicar. Cabe a nós transformar essas informações em conhecimento junto com eles. Mais do que nunca, o que se aprende na escola precisa ter continuidade fora dela.

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental. E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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