Edição 65

O livro da vez

Antônio ou quando as crianças pedem ajuda

Hugo Monteiro Ferreira

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Em 2008, comecei a escrever uma história sobre uma criança que tinha câncer. No entanto, durante o processo de criação, me dei conta de que a criança que eu queria representar na história não tinha câncer. Na verdade, ela estava triste e com muita agonia. Fiquei pensando na tristeza e na agonia dela e foi quando eu percebi que essa criança se chamava Antônio, tinha 7 anos de idade e estava sendo vítima de abuso sexual.

Foi assim que comecei a escrever Antônio (Escrita Fina Edições, 2012). De início, uma criança triste pela doença, mas, depois, uma criança triste pela agressão. Sempre uma criança triste e sempre uma pergunta que emergia: “O que eu posso fazer para Antônio ficar alegre?”. Foi então que comecei a colocar livros na vida dele. Os livros lhe dão condição de ter forças para denunciar seu agressor. O agressor de Antônio não aparece inteiro; na história, ele é uma mão.

Antonio_optA mão que assusta e ameaça Antônio é uma metáfora, é uma metonímia, é um símbolo que uso para tentar falar com a voz do garoto. Eu escrevi Antônio para ajudar crianças. No mundo todo, elas sofrem muito porque não sabem se proteger. Crianças protegidas, foi isso que me motivou a contar a trajetória de um menino vítima de abusos sexuais. A história de Antônio é ficção, mas infelizmente faz parte da realidade de muitas crianças.

A Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República, informa que os abusos contra crianças são muitos e têm repercussões horríveis na vida dos abusados. Os abusadores, de modo geral — e isso também acontece com Antônio —, estão dentro de casa, são amigos da família, vizinhos, parentes próximos. Pessoas que, em regra geral, deveriam proteger as crianças, mas se aproveitam da fragilidade infantil para praticar ações delituosas e covardes.

Quando escrevi Antônio, tinha uma meta muito clara: “Preciso fazer com que todos leiam esse livro, pois, se lido, ele pode salvar vidas”. Foi isso que pensei ao longo de minha batalha para publicá-lo.

Penso que, se as crianças lerem Antônio, poderão aprender com ele que é possível — mesmo sendo ameaçadas, mesmo sendo agredidas, mesmo sendo aviltadas — dizerem o que está se passando, o que está acontecendo, o que lhes está agoniando a vida. O livro tem uma linguagem poética e forte, densa e reflexiva, provocativa e questionadora, tomada pelo desejo de ajudar crianças.

Muitas pessoas devem ler Antônio e, por meio dele, auxiliar no enfrentamento do problema pelo qual esse personagem e tantas outras crianças, infelizmente, passam no Brasil e no mundo.

Hugo Monteiro é representante da Cátedra Unesco de Leitura em Pernambuco e Assessor Pedagógico da HMF Assessoria Pedagógica.
Endereço eletrônico: hmonteiroferreira@yahoo.com.br

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