Edição 98

Matérias Especiais

Apresentação

Dom Leonardo Ulrich Steiner

Somos seguidores de Jesus. Mulheres e homens que renasceram em Cristo. Dele, recebemos a notícia de que somos filhos e filhas de Deus. Somos todos irmãos (Mt 23,8). Nascer, renascer em Cristo, maturar Nele; chegar à plenitude como Ele! Somos seus discípulos, aprendizes. Uma vida inteira com os olhos fixos em Jesus (Hb 12,2). Voltados para Ele, vivendo Dele, partilhamos a sua própria santidade (Hb12,12). Por Ele atraídos, somos enviados como anunciadores de sua presença inaudita. Missionários como Ele, o Missionário do Pai. Discípulos e discípulas da vida plena, missionários e missionárias do Reino da verdade e da graça, da justiça, do amor e da paz. Um reino de irmãos!

A Quaresma nos provoca e convoca à conversão, mudança de vida: cultivar o caminho do seguimento de Jesus Cristo. Os exercícios quaresmais que a Igreja propõe aos católicos são: jejum, esmola e oração. Três tentativas para nos abrirmos à graça da filiação divina. Jejum: esvaziamento, expropriação, libertação. Tudo para que sejamos um só em Cristo (Gl 3,28) e Cristo seja formado em nós (Gl 4,19). O jejum abre a nossa pessoa para a receptividade, para a liberdade da vida em Cristo. Esmola: vida, fé partilhada. A esmola nasce da alegria de ter encontrado o tesouro escondido, a pérola preciosa (Mt 13,44-46). O amor, a misericórdia busca o outro. Tem necessidade de partilha e nos aproxima da irmandade. Oração: tocados pelo dom do anúncio, apercebidos da valiosa experiência do cuidado amoroso e misericordioso de Deus em Jesus Cristo, necessitamos de palavras e silêncio para agradecer e suplicar. Uma espécie de exposição ao dom recebido na tentativa de sermos atingidos com maior intensidade pelo amor e pela misericórdia.

Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. Um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus.

Fraternidade e superação da violência é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O evangelho de Mateus inspira o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). A Campanha tem como objetivo geral: Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como o caminho de superação à violência. Sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Não apenas com o número de mortes que só aumenta, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como irmãos.

“Por ‘violência cultural’ entendem-se as condições em razão das quais uma determinada sociedade reconhece como violência atos ou situações em que fazem aparecer como legítimas certas razões violentas. Elaboram-se discursos para apresentar razões e justificativas como se uma ação violenta fosse devida, uma consequência de determinadas condutas da própria pessoa que sofreu a violência. Portanto, a violência cultural não é, necessariamente, uma causa da violência direta, mas cria as condições em meio às quais chega a tornar-se difícil, para a sociedade, reconhecer um sistema como violento”.1

Se partirmos do texto sagrado que indica o caminho das origens de todo universo, ficamos admirados com a harmonia das relações: “E Deus viu que tudo era bom” (Gn 1,25). A origem do homem e da mulher são ainda mais admiráveis: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança (…). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher Ele os criou (Gn 1,26-27). Confiou ao homem e à mulher o cuidado e o cultivo da obra criada. E, assim, nos diz o texto que “Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).

Há, no desabrochar e no cintilar de tudo, uma relação de amor e de cuidado. Na origem da bondade de Deus, está o sentido da obra criada e o sentido de ser pessoa. Jesus mesmo, ao ser confrontado com a separação entre o homem e a mulher, dirá: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o princípio” (Mt 19,8). No princípio, no eclodir, no dar-se, no manifestar-se, não existe divisão, desamor, violência, mas acolhimento, reverência, pertença fraterna. A violência vem depois. Nasce do esquecimento das origens, da vocação do ser humano: o amor. O esquecimento do mandamento do amor e da ética gestam e despertam a violência. Os descaminhos, no entanto, podem ser superados com a volta às origens, com a reconciliação e a misericórdia. Somos chamados à superação da violência, pois somos filhos e filhas de Deus.

A Campanha da Fraternidade acontece no Ano Nacional do Laicato, que tem como tema: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do reino”, e como lema: “Sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14). Uma igreja que anuncia o Reino de Deus, o Reino da paz e da fraternidade. Os leigos e leigas, iluminados e fortificados pela Palavra e pela Eucaristia, serão luz para superar a violência e sal para temperar a fraternidade.

Maria, mãe do Príncipe da Paz, nos acompanhe no caminho de conversão quaresmal! Jesus Cristo crucificado-ressuscitado, que transformou todas as coisas, nos ajude no caminho da superação da violência, pois somos todos irmãos.

A todos os irmãos e irmãs, todas as famílias e comunidades, uma abençoada Páscoa.

Dom Leonardo Ulrich Steiner é Bispo Auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB.

1 CNBB, Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2017, p.23.

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